Fluidez não é FPS

Vida Digital

Diego Kerber

O vídeo de gameplay com a GeForce GTX 1080 foi quando enfim realizei meu sonho e me tornei um meme. Foi dizer que The Witcher 3 estava rodando "fluido" em 4K/Ultra para que os comentaristas de plantão inundassem a caixa de comentários com críticas, debochando especialmente da jogabilidade a 35FPS como algo inaceitável de ser classificada como "gameplay fluido".

A principal vertente era determinista: ou está na casa dos 60 quadros por segundo, ou a jogabilidade não está adequada. E parece ter se criado uma relação entre FPS e fluidez, onde mais FPS são a solução para mais fluidez.

O tom de deboche não era o problema, apesar que acho mais nobre o auto-zoação, aquele ato de zombar de si mesmo e mostrar capacidade de auto-crítica, ao invés da tiração de sarro do trabalho alheio. Meu problema era com outro aspecto: o humor era baseado em uma opinião errada.

Não, mais FPS não é mais fluidez. Fluidez é característica dos líquidos, e serve de metáfora para designar uma característica deles: sua constância ao se deslocar. Quando falamos que um game está fluido, a figura de linguagem é a mesma de quando referimos a uma pessoa que fala com fluidez: ela tem um ritmo constante de fala, agradável de ser acompanhada, sem atropelos ou paradas bruscas. Para termos a ilusão de movimento, precisamos de uma sequência de imagens sendo exibida rápido o bastante, por isso mais FPS é interessante, mas o ritmo também importa.

Mais FPS é importante para uma maior qualidade na sensação de movimento, mas não é o único fator

Ter mais FPS não torna o gameplay mais fluído da mesma forma como uma pessoa falando rápido e se atropelando nas palavras não é uma conversação agradável. Quer um exemplo? Colocamos The Witcher 3 Wild Hunt para rodar em uma AMD Radeon RX 480 em QuadHD/Ultra, e depois adicionamos mais uma placa, a XFX Radeon RX 470, para ganhar mais "poder de fogo" com um Crossfire. E o resultado foi um gameplay que subiu dos 43FPS médios da RX 480 sozinha para muito próximo dos 55FPS com a dupla de placas Polaris. E o gameplay ficou uma bosta.

Análise AMD Radeon RX 480
Análise: XFX Radeon RX 470 RS

O motivo é esse aqui:

Em nenhum momento a RX 480 foi capaz de bater a taxa de quadros por segundo gerados pelo Crossfire, porém a combinação de placas ficou dançando entre 50 a 60FPS, e isso é muito irritante! Essas variações constantes trazem uma experiência muito ruim, e a sensação de travamentos e até de que "algo está errado". Chega a dar dor de cabeça. Já a RX 480 sozinha oscilou muito pouco, e mesmo com menos FPS, entregou uma experiência mais eficiente.

Para entender de forma mais clara, vamos olhar mais a fundo. Os FPS são "quadros por segundo", e portanto agrupa a quantidade de quadros renderizados em um determinado período de tempo. Vamos agora observar o frametime, ou tempo do quadro, que nos diz em milissegundos quanto tempo foi necessário para a placa de vídeo gerar cada quadro do jogo. Separamos os dois casos porque é impossível ver os dados da RX 480 por baixo da grande variação do Crossfire. Lembre-se: em frametime, MENOS É MELHOR, pois indica que a placa está fazendo quadros mais rápido.

Em frametime, menor é melhor

Novamente o Crossfire tem vantagem, ao alcançar patamares abaixo dos 17 milissegundos, enquanto a RX 480 sozinha estabiliza em 23 milissegundos. Mas observe a variação! Em vários momentos, o Crossfire faz quadros com mais de 40 milissegundos de duração, e são esses quadros que tornam a experiência travada. Como o gráfico anterior demonstrou, nosso Crossfire SEMPRE entregou uma média de quadros por segundo superior a RX 480 sozinha, MAS A FALTA DE FLUIDEZ na produção dos quadros sabota a experiência como um todo. A ilusão de movimento, propósito da exibição sequencial de tantos quadros, deixa de funcionar corretamente. É melhor jogar a 35FPS constantes do que nessa variação 40~60FPS.

Crossfire SEMPRE entregou uma média de quadros por segundo superior a RX 480 sozinha, MAS A FALTA DE FLUIDEZ na produção dos quadros sabota a experiência

Isso mostra como se basear em FPS médios, apenas, não é determinante para a experiência. Da mesma forma não julgo justo a corrente defendendo o uso do "FPS mínimo", pois basta ver o gráfico da RX 480 em frametime para perceber que pequenas anomalias acontecem, e desmerecer todo o restante do tempo estável dá placa é uma punição muito alta. Esses atrasos podem ser causados por um detalhe da cena mais pesado, como efeitos de explosão, ou mesmo uma textura que demorou para carregar ou, como sabe bem quem joga Hitman, o auto-salvar também põe os FPS no chão por alguns instantes. Felizmente as poucas quedas da RX 480 nos frametimes foram tão inócuas que os FPS nem foram afetados.

Repararam em uma coisinha interessante, nesse nosso exemplo? Sim, estamos rodando testes de Crossfire com RX 480 e 470, sendo uma capacidade dos produtos da AMD a combinação de chips gráficos diferentes (com exceções implementadas via desenvolvedores do game). O resultado não foi muito legal em Witcher 3, mas será que foi assim em todos os casos?
Em breve a gente deve vir com mais novidades wink

Ps.: Podem fazer a mensagem chegar até o Japão?

  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego colabora com a Adrenaline na produção de notícias e artigos na coluna "Vida Digital".