Linux rodando games do Windows: Testamos o Steam Play da Valve

Por Diego Kerber 08/09/2018 18:05 | atualizado 18/08/2019 14:59 Comentários Reportar erro

Recentemente a Valve anunciou um novo recurso do Steam Play, seu programa que busca tornar possível jogar seus games em todas as plataformas que está disponível. O programa torna possível comprar um game e jogá-lo no Windows e no Linux sem custos adicionais, por exemplo. Apesar da versatilidade, havia uma limitação: só é possível rodar o game nas plataformas para as quais ele foi desenvolvido, então rodar um jogo produzido para o Windows não abriria no Linux, obviamente. Pelo menos, era assim.

A nova versão do Steam Play apresentada pela Valve recentemente adiciona o Proton, uma modificação do Wine que traz as rotinas e bibliotecas necessárias para traduzir uma aplicação para ser executada no ambiente do Linux. o objetivo da empresa é tornar esse processo o mais simples possível, bastando habilitar o recurso e esperar uma atualização automática do Steam para usá-lo. Nossa experiência não foi bem assim, mas já vamos falar dela.

Inicialmente alguns jogos foram adicionados a lista de aplicações compatíveis, na medida que são testados e é atestada a estabilidade do gameplay. De começo já estão incluídos títulos como DOOM, NieR: Automata e Star Wars: Battlefront 2. A empresa afirma que irá testar jogos baseados na lista de desejos dos consumidores. Para os mais corajosos, dá para desligar o filtro, e aí todo jogo pode ser instalado e fica por sua conta e risco tentar rodar. Se quiser navegar por esses mares ainda não cartografados, esse link aqui dá uma ideia da experiência de outros jogadores que se arriscaram (valeu pela dica, Lucas Fernandes!)

Instalação

Para ativar o recurso no Steam Play não é complicado. Primeiro você deve ativar a versão beta do Steam, o que fará o aplicativo reiniciar e baixar atualizações. Agora estará disponível habilitar o Steam Play nas configurações, sem grandes dificuldades.

Outra coisa que você precisa estar de olho é nos drivers. O Proton depende da Vulkan, que será usada para executar o game. Então se você não tem instalada no seus sistema, deve baixá-lo.

No nosso caso não foi preciso baixar a Vulkan porque ela veio junto com o driver mais recente da Nvidia. Sim, falando nisso, você precisa do driver de sua placa de vídeo atualizado. No nosso caso, o jeito mais prático foi fazer uma visita no terminal, e a solução varia de uma distribuição para outra.

O passo adicional que não estava nem no site da Valve na lista de pré-requisitos nem em lugar nenhum é que você precisa do Phyton instalado, versão 2.7 e 3.7. Valeu pelo resgate, Lucas! Em nosso caso, antes de instalar esse recurso, os jogos simplesmente não abriam.

Os testes

Para fazer nossa bateria de testes, vamos ressuscitar um PC que andava "largado às traças" por aqui: a Steam Machine Adrenaline. Com a própria Valve dedicando pouco amor a esse sistema, o coitado acabou ficando sem muita função por aqui.

Assista à montagem da nossa Steam Machine Adrenaline!

As especificações da nossa máquina são uma excelente métrica para os testes, já que não é um sistema "nem demais, nem de menos". Os componentes tem uma performance suficiente para games, mas ao mesmo tempo não tem muita folga, então eventuais problemas de funcionalidade não serão solucionados através de força bruta do hardware.

As especificações incluem:

- Gabinete ASRock M8 Series (Z97, PSU 600W, DVD-R)
- Placa-mãe ASRock Z97-M8
- Processador Intel Core i5 4570
- Memórias Kingston HyperX Impact 8GB (2x4GB) 2133MHz
- Placa de vídeo Gigabyte GTX 960 G1 Gaming (2GB)
- Fonte SFX PSU 600W [Acompanha o gabinete]

Para os testes fizemos um dual-boot para viabilizar um comparativo entre a performance no Windows e Linux. Foram usados:

- Windows 10
- Ubuntu 18.04 LTS

Testamos quatro jogos diferentes. DOOM é o cenário ideal, já que é desenvolvido em Vulkan. Tekken 7 faz parte dos games listados como funcionais, mas é em DirectX 11, então começa a tornar mais desafiante seu funcionamento. Monster Hunter World já sai da lista divulgada pela Valve, e serve para vermos o que acontece quando nos arriscamos fora da zona supostamente segura. Rise of the Tomb Raider está aqui por outro motivo: ele já está disponível no Linux. Feito pela Feral, esse port faz com que o jogo rode nativamente no sistema do pinguim, então é interessante comparar como ele vai se sair em relação aos jogos que estão passando pelo Proton para operar.

O resultado é um bagunçado varia. DOOM realmente foi o caso ideal: rodou de cara, não apresentou problemas de funcionamento e o nível de performance foi muito semelhante ao que conseguimos no Windows. Dá um claro indicativo de que se o game possui versão na Vulkan, muito possivelmente rodará bem no Steam Play.

Tekken 7 já foi bem diferente. O jogo não abre em tela cheia de forma alguma, então o jeito é jogar vendo parte da interface do Ubuntu no topo e na lateral. O suporte a controles está um tanto estranho, e não consegui fazer nenhum dos que temos aqui funcionar. Pra fechar o caixão, o desempenho foi bem abaixo do Windows. Só conseguimos jogar aceitavelmente na qualidade média e com escala de resolução em 75% do FullHD, sem manter 60FPS de forma constante mas passando perto o bastante. No Windows dá pra jogar em Ultra, 1080p e raramente caindo dos 60 quadros por segundo.

Monster Hunter World foi a surpresa positiva. Sem nem estar listado como compatível, ele abriu. Bugou horrores na tela cheia, mas foi colocar no modo sem bordas passamos a ter um gameplay totalmente viável, com uma média entre 30 a 40FPS em 900p e qualidade média. Porém aqui temos uma perda de desempenho, já que no Windows ele roda entre 40 a 50FPS na mesma configuração gráfica.

Conclusão

Então, enfim 2018 é o ano do Linux (para jogar)? A resposta ainda é, infelizmente, não. A experiência é longe de ser algo consistente o bastante para recomendar que você formate seu PC com Windows. O processo para fazer o Steam Play funcionar não é difícil, mas foi preciso algumas buscas no Google e instalar algumas outras coisas (Phyton, drivers da Vulkan) em um processo que não foi 100% intuitivo e que precisou de algumas visitas ao terminal e algumas linhas de código para fazer funcionar. Isso torna inviável recomendar para um usuário leigo, ou ao menos um que não tenha experiência com Linux ou que não esteja com paciência para aprender como opera esse sistema.

Ainda é cedo para recomendar alguém
montar um PC para jogar com Linux

Falando dos games em si, também não temos robustez no ecossistema.A experiência vai do resultado excelente com DOOM, praticamente sem perdas comparado ao que o jogo entrega no Windows, até algo bem inferior tanto em performance como mesmo em funcionalidade, caso de Tekken. Infelizmente tentar rodar os games no Linux é uma loteria, e uma com boas chances de precisar algum ajuste em algum lugar para funcionar.

O Steam Play é uma oportunidade para o
ecossistema de gamers no Linux crescer

Mas se agora ainda é cedo, a iniciativa da Valve abre o caminho para algo que pode ser bem mais atrativo no futuro. Na medida que mais games forem adaptados e validados, e a adoção do recurso ajude a dar mais tração a ideia, ela pode trazer um potencial futuro para jogar no sistema do pinguim. Atualmente as desenvolvedoras raramente dão atenção ao Linux, mas se usar uma API como a Vulkan traz a versatilidade de facilitar trazer o game para essa (e várias outras) plataformas, temos aqui oportunidade que algumas irão explorar E mesmo que as desenvolvedoras não mostrem nenhum interesse no Linux, do mesmo jeito é possível viabilizar o gameplay, o que aumenta em muito as chances de tudo isso dar certo. Quem sabe a gente não segue de olho nisso adicionando a Steam Machine, digo, o PC Linux Adrenaline (apelido pendente) na bateria de testes com futuros games lançados?

  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego colabora com a Adrenaline na produção de notícias e artigos na coluna "Vida Digital".