ANÁLISE DE EFOOTBALL: PES 2020 - O melhor dentro de campo, o pior fora dele

A ação nas quatro linhas nunca foi tão realista, mas é difícil relevar as falhas da Konami
Por Carlos Felipe Estrella 29/10/2019 21:14 | atualizado 29/10/2019 21:15 comentários Reportar erro

Tão frequentes quanto os lançamentos anuais de jogos de futebol são as comparações com outros acontecimentos que se repetem a cada 12 meses. Por isso vamos poupá-los disso em 2019 e ir direto para a análise. Como sempre, o game tem em seu nome o ano que vem (no caso 2020), mas com a inexplicável adição de “eFootball” no começo do título.

De qualquer modo, eFootball Pro Evolution Soccer 2020 é o 12º título da franquia de futebol da Konami desde que o nome Winning Eleven foi abandonado em todos os mercados, marcando a reinvenção da série para a geração do Xbox 360 e do PS3. Naquela época, iniciou-se um domínio da série FIFA em termos de vendas e recepção da crítica. Isso só acabou em 2014, quando EA Sports e Konami voltaram a trocar golpes entre si. Será que PES 2020 trouxe melhorias suficientes para valer o seu dinheiro? Descubra em nossa análise!

Gráficos

Nos últimos anos, os jogos de esportes – e em especial os de futebol – têm se aproveitado de poderosas engines gráficas multi-propósitos para gerar gráficos altamente realistas. Enquanto a EA Sports se aproveita da Frostbite (desenvolvida inicialmente pela DICE), a Konami se aproveita da Fox Engine, que foi lançada inicialmente há seis anos pela Kojima Productions.

evoluções gráficas são significativas, em áreas que vão desde a iluminação até a fidelidade dos modelos dos jogadores

As evoluções que a Konami trouxe para este ano foram significativas, em áreas que vão desde a iluminação até a fidelidade dos modelos dos jogadores. Como sempre acontece, os astros do show como Lionel Messi (Barcelona), Paul Pogba (Man United) e Giorgio Chiellini (Juventus) estão facilmente reconhecíveis – seja de perto com seus rostos detalhados ou de longe pelo seu porte físico e modo de correr. Agora, se você jogar com a inédita Série B do Campeonato Brasileiro, certamente será bem mais difícil de reconhecer os atletas.

E aqui fica uma crítica que tenho tecido à série de futebol da Konami há anos: já passou da hora de adotar um robusto sistema de jogadores genéricos como o da série FIFA. A equipe de artistas da EA Sports consegue fazer com que atletas desconhecidos fiquem bastante parecidos com os reais apenas usando uma ampla combinação de milhares de rostos, cabelos e estilos de corpo genéricos diferentes. Agora que a Konami está trazendo mais e mais ligas pouco famosas, a falta de algo do tipo fica mais evidente, pois grande parte dos jogadores menos conhecidos fica totalmente irreconhecível.

A precisão nos estádios é impressionante, mas a variedade é bem menor

Sobre a qualidade gráfica dos estádios, é difícil tecer qualquer crítica. Desde o mundialmente famoso Camp Nou (Barcelona) até estádios locais como a Vila Belmiro (Santos) foram feitos em grande detalhe. A modelagem é de alta qualidade e não poupa polígonos, com características locais dos diferentes tipos de arquibancadas e telões sendo reproduzidos de maneira fiel. Até o sistema de iluminação noturna de cada arena e a maneira como o sol bate durante o dia são exatamente como na vida real.

Infelizmente, são apenas 31 estádios licenciados, um número muito inferior aos 90 estádios reais presentes no rival FIFA 20. Claro que os estádios na série da EA Sports não são renderizados de maneira tão fiel e com tantos detalhes quanto em PES mas, certamente, são bons o suficiente e compensam com o triplo de variedade. Sem contar que PES tem apenas 19 estádios genéricos contra 29 de FIFA, o que faz ainda mais diferença para os fãs de times menores. Para os brasileiros, porém, a vantagem fica totalmente para a série da Konami, já que são 8 estádios do Brasil contra nenhum no game da EA Sports. Sem contar as arenas de rivais sul-americanos, que garantem uma Copa Libertadores ainda mais realista.

Jogabilidade

PES traz um senso de peso e realismo que a série FIFA simplesmente não tem

A jogabilidade é uma área onde a franquia Pro Evolution Soccer tem se destacado nos últimos anos, e a situação não é diferente em 2019. Uma coisa que ajuda demais a variante da Fox Engine utilizada em PES 2020 é o senso de momento linear (a propriedade da física mesmo) que os jogadores passam. Fica evidente os momentos onde os atletas estão jogando o peso do seu corpo para o outro lado para mudar de direção.
Também são claros os momentos onde eles tomam dois ou três passos mais curtos antes de fazer uma curva brusca ou de excetuar uma finalização. É um senso de peso e realismo que a série FIFA simplesmente não tem, e que aproxima a dinâmica de uma partida de futebol em PES do que acontece em partidas reais.

Mas onde a série da Konami peca é no jogo defensivo. Os desenvolvedores até criaram menus complexos onde você pode alterar as táticas de maneira precisa, com opções como a altura da linha de defesa e até o local do campo onde será exercida a pressão nos atacantes. Mas nada disso adianta se não há opções de controle de defesa tática como há em FIFA – e como a Konami até tentou copiar tempos atrás.

Em PES 2020, não é raro de acontecer situações onde a melhor situação é só segurar o botão “A” (“X” no PS4) e esperar seu defensor recuperar a bola. Até é possível escolher dar o bote apertando duas vezes o “A” (ou “X”), mas não é o suficiente para dar profundidade ao jogo defensivo. Os zagueiros precisam de mais ferramentas e menos facilidades para a série da Konami se tornar o simulador que tanto deseja ser.

Pro Evolution precisa melhorar a mecânica de defesa

Entrando mais na área de novidades, agora há um novo sistema de dribles onde basta soltar o analógico direito e mexer o análogico esquerdo de maneiras sutis para fazer fintas habilidosas. Não há nada de muito novo ou inovador aqui, em geral é apenas um remapeamento de botões. Para ser sincero, eu até preferia a maneira antiga como essas ações estavam configuradas, especialmente no caso dos dribles laterais com o uso do R2. De qualquer modo, acaba por ser uma questão de preferência pessoal e que afeta um aspecto secundário do jogo.

Mas a grande mudança está na maior ênfase em elementos que podem levar os jogadores a cometerem erros. Isso significa que passes, chutes e cruzamentos terão maior chance de darem errado dependendo de certos fatores. Caso o toque seja dado de primeira ou muitos adversários estejam próximos – e até mesmo se o passe for na direção oposta para onde você está indo – é provável que sua jogada dará errado. Claro que, quanto mais habilidoso for o atleta, mais chances do lance sair como o esperado. É um toque realista e que já está em jogos de futebol (tanto FIFA quanto PES) há algum tempo, mas que agora finalmente ganha a atenção e a ênfase que merece.

Áudio

Uma palavra define o áudio de PES 2020: irritante. Não tem como jogar duas partidas seguidas sem ouvir ao menos umas 3 ou 4 falas repetidas dos narradores e comentaristas. Isso independente da língua ocidental que você escolher – por falta de fluência em japonês, não irei comentar sobre o idioma nativo do game. Mas em FIFA ou até mesmo em PES mais antigos, ao menos a opção em inglês costumava trazer mais variedades de linhas de roteiro.
Mas em PES 2020, você irá ouvir Milton Leite falar em quase toda partida que você está num templo do futebol, um dos maiores estádios do mundo. Não importa que você esteja jogando com um time da segunda divisão do Brasil num estádio genérico para 20.000 torcedores. Esses e outros pequenos detalhes vão deixando a narração nada realista e desconstruindo tudo que a excelente jogabilidade construiu.

Uma palavra define o áudio de PES 2020: irritante

De resto, os efeitos sonoros são competentes. Você ouve tudo que espera em games do tipo, incluindo técnicos gritando com seus jogadores, os torcedores apoiando seus times e a bola sendo chutada. A trilha sonora já não é a mesma de outras épocas, com apenas cerca de 20 músicas e nada de grande destaque. Em suma, o seção de áudio desta análise seria passável, não fosse a péssima narração.

Modos de Jogo

Excetuando-se os modos multiplayer – dos quais falaremos mais abaixo – a série Pro Evolution Soccer tem deixado a desejar. Não há um modo história como muitos games de esporte têm trazido recentemente, nem qualquer novidade significativa para o popular Rumo ao Estrelato. Ou seja, se você quiser se envolver numa história individual da carreira de um único jogador, só terá mais do mesmo.

PES está devendo novos modos mais criativos

Agora, se o seu negócio é administrar um clube e treinar uma equipe, a tradicionalíssima Master Liga ganhou alguns tweaks. A empresa está chamando o modo de Master League Remastered, com destaque para a inclusão de um sistema de conversas interativo. Você, como o técnico do time, pode responder a perguntas em entrevistas coletivas, conversar com dirigentes em momentos chave e motivar novas contratações. Tudo muito promissor na teoria, mas na prática não há uma mudança perceptível fora algumas poucas cutscenes repetitivas.

A tradicional Master League ganhou novidades, mas modestas

O ideal seria você poder ganhar maior apoio da torcida se falar algo que os agrade ou perder estabilidade no seu cargo se der uma resposta errada nas coletivas. Também seria positivo ter um aspecto político onde é necessário convencer os dirigentes a mantê-lo no cargo ou trazer uma grande contratação para o clube. Finalmente, fica faltando também um sistema mais dinâmico de moral dos atletas, onde as conversas no vestiário realmente possam motivar os jogadores ou até mesmo acabar os desestimulando antes de uma partida importante.

Há ainda o novo Matchday Mode, onde a equipe da Konami irá escolher uma partida que eles consideram mais importante naquela semana, geralmente um clássico. É uma maneira legal de ligar o jogo com o mundo real e deixar os torcedores empolgados para alguma partida de grande relevância. Mas também é algo feito pela série FIFA há um bom tempo já e que não acrescenta muito além dessa empolgação inicial. De resto, espere uma cópia exata dos modos de jogo de PES 2019.

Multiplayer

Se tem uma coisa que os executivos da Konami desejam é transformar a série Pro Evolution Soccer na máquina de dinheiro que FIFA Ultimate Team é para a Electronic Arts. Parte do marketing em busca disso é o eFootball no nome de PES 2020, remetendo ao termo eSports. Outra parte está no investimento da equipe de desenvolvimento no modo de jogo MyClub, que chega com poucas modificações em relação aos anos anteriores.

Você segue o mesmo roteiro de sempre de colecionar jogadores reais num clube fictício para montar o time dos seus sonhos. Ainda há a opção de gastar dinheiro real para comprar mais agentes que serão usados para obter os melhores jogadores do game. De qualquer modo, as recompensas por cumprir objetivos são generosas o suficiente para ser fácil de montar um time de superestrelas após dedicar algumas horas ao MyClub. Só talvez não sejam as estrelas que você deseja, mas seu time certamente será competitivo em pouco tempo.

Conclusão

eFootball Pro Evolution Soccer 2020 é mais um passo no caminho certo para a Konami. A questão é quão longa ainda é a jornada da série de volta ao topo do mundo do futebol virtual. O game segue como o melhor do mercado no que mais importa: a jogabilidade. As jogadas fluem de maneira satisfatória e realista, com os lances decisivos tendo uma variedade nunca antes vista num videogame do gênero.

PES 2020 coloca a franquia no caminho certo, mas ainda não chegou lá

O problema é que a Konami ainda peca em praticamente todos os outros aspectos. Beleza, a empresa adquiriu a licença das duas primeiras divisões da Itália – incluindo a exclusividade da Juventus – e até mesmo tem o Campeonato Brasileiro da Série B. PES 2020 certamente é o jogo que melhor representa o futebol brasileiro, com 8 estádios nacionais recriados em grande detalhe.

Mas nada disso apaga as várias partidas que você fará nos genéricos Estádio do Escorpião ou na Konami Arena e a ausência de grandes licenças como a Liga dos Campeões ou a Liga Europa. Sem contar que o áudio é simplesmente sofrível, digno de um game amador. No geral, PES 2020 é o jogo para os puristas, que não se importam em perderem aspectos cosméticos para terem a partida mais realista possível. Mas para quem quer o melhor videogame, FIFA ainda é a saída.


  • Redator: Carlos Felipe Estrella

    Carlos Felipe Estrella

    Apaixonado por games desde os 6 anos de idade, quando ganhou um Playstation, época em que também se divertia com o Super Nintendo dos outros. Em 2005 migrou para o PC, e aí começou a se interessar por tecnologia também. Apesar disso, nunca conseguiu largar a preferência por jogos de corrida e de esporte, principalmente os de futebol. Estuda jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina.