ANÁLISE DE GHOST RECON: BREAKPOINT - Nada mais que uma sequência para Wildlands

Mudanças na ambientação e gameplay são bem vindas, mas excesso de falhas acaba derrubando o jogo

Ghost Recon: Breakpoint é um dos games de grande porte da Ubisoft para 2019 e une dois fatores amplamente importantes para a desenvolvedora francesa: jogos como serviço e o nome do falecido Tom Clancy. Assim como seu antecessor, Wildlands,o shooter em terceira pessoa aposta em uma experiência voltada para o gameplay cooperativo em mundo aberto, mas que também conta com uma grande quantidade de conteúdo que facilmente pode ser aproveitado em single-player. 

Na parte de história, o novo título deixa de lado a guerra contra as drogas abordada anteriormente e aposta em um enredo embalado pela tecnologia: desta vez, Nomad e seus colegas estão presos em uma ilha high-tech tomada por uma milícia liderada pelo antagonista interpretado por Jon Bernthal.

Depois de 30 horas dando umas bandas por Auroa, você confere aqui se vale a pena ou não vestir a farda de Ghost mais uma vez.

História

Assim como muitas histórias de espionagem, Ghost Recon Breakpoint começa em um helicóptero, mas, do mesmo jeito que acontece no jogo, a narrativa acaba caindo e explode em uma imensa bola de fogo rapidamente. O jogador assume novamente o papel de um agente especial dos Estados Unidos chamado Nomad, porém, seu objetivo agora não é pegar seu esquadrão e descer para a América do Sul matar latinos. Em Breakpoint, o time de elite vai para uma ilha que é o novo Vale do Silício investigar um acidente de navio.

Ao chegar lá, os mocinhos se deparam com uma situação nada convencional: o local foi tomado por uma milícia liderada por um antigo Ghost chamado Cole Walker, que surpreendentemente conseguiu fazer todos os milionários de lá reféns e utilizar a tecnologia criada na ilha para dizimar seus antigos parceiros de esquadrão. Logo no início do gameplay a Ubisoft já deixa suas intenções com o game claras: diferente do que acontece em Wildlands, aqui você não tem o "elemento surpresa" e se torna a presa que precisa sobreviver contra um grupo tático treinado, bem armado e que conhece muito bem o campo de guerra.

A história está ali para você e seu esquadrão terem mais coisas para jogar

O problema, porém, é que todo o potencial de ameaça dos supersoldados acaba caindo por terra rapidamente. Como o título aposta bastante em uma jogabilidade arcade, a sensação de ameaça passa logo depois que você compra um helicóptero armado até os dentes e descobre que só precisa achar uma fogueira para solicitar o veículo. A história principal também acaba apostando na coragem dos Ghosts, que na maioria do tempo devem fazer missões resgatando os "nerds" que desenvolveram as tecnologias da ilha ou lutando contra os bandidos que tomaram o poder do local.

Mesmo com o excesso de enrolação e muitos momentos esquecíveis, que tornam a experiência cansativa no jogo solo, a aventura de Nomad na ilha geek conta com seus pontos altos e, no final das contas, só está ali mesmo para servir como mais conteúdo para você e seu esquadrão terem o que fazer na imensa Auroa. Apesar de ser totalmente jogável sozinho, Ghost Recon Breakpoint não deixa você esquecer que foi feito para ser jogado de forma cooperativa.

Além da campanha principal, que possui missões parceladas e que podem ser repetidas, o jogo também conta com objetivos secundários, armas para serem encontradas e bases para dominar. Fazer tudo isso sozinho ou até com jogadores aleatórios pode se tornar maçante e até sem sentido com o tempo, mas, assim como todo multiplayer, o título pode se tornar um centro de diversão com um esquadrão de amigos. A parte difícil é recomendar que cada um gaste cerca de R$ 200 para ter essa experiência conjunta, sendo que o game não impressiona muito no geral.

Jogabilidade

Quando o assunto é jogabilidade, o Breakpoint segue os passos de Wildlands e continua sendo um divertido playground em mundo aberto para dar tiros e se aventurar com os amigos. O novo jogo também traz melhorias gráficas e novas mecânicas de gameplay que logo de cara já mostram que seu antecessor ficou defasado. Ainda assim, Breakpoint não vai muito além de ser somente uma atualização para a franquia Ghost Recon e uma forma de manter a marca Tom Clancy em circulação.

A primeira grande mudança notável é ausência de bots que te acompanham na viagem enquanto ninguém está online. Agora, Nomad viaja sozinho e pode encontrar jogadores a qualquer momento em um menu online e também indo a uma base que serve como lobby. A alteração acaba gerando algumas interações estranhas na história, como os NPCs te tratando como um esquadrão mesmo quando você está só, mas isso não é nada comparado ao fato de que você precisa estar online a todo momento para jogar. Desde a última semana de setembro, quando comecei minha aventura em Auroa, não foram poucas as vezes em que fui desconectado da minha jogatina single-player por causa de manutenções, problemas de conexão ou simplesmente bugs na Uplay. Repetindo: jogatina single-player. 

Breakpoint não vai muito além de ser uma forma de manter a marca Tom Clancy em circulação

Um dos motivos para a obrigatoriedade de conexão é o objetivo da Ubisoft de unificar o gameplay de Ghost Recon Breakpoint. Além de oferecer um mapa gigante para ser explorado com uma galera, o título também conta com um modo PvP chamado Ghost War, que coloca oito soldados para brigarem entre si em partidas de mata-mata em equipe e sabotagem, que seguem o clássico estilo Counter Strike de plantar bombas.

Mais do que trazer um respiro necessário para a gigantesca exploração do mundo aberto, a jogatina player-contra-player também traz progresso cruzado com a campanha solo, permitindo que você use equipamentos e armas encontrados durante o gameplay do modo cooperativo. Enquanto a ideia de trazer uma experiência que mistura single-player e multiplayer é bem interessante, o progresso em Breakpoint é, de longe, o maior problema do game.

Quando seu boné é mais potente que o capacete balístico.

A Ubisoft caprichou no design de alguns itens para você deixar seu soldado pronto para a guerra, mas a mecânica de "shoot and loot" do game faz você sentir que está trocando as mesmas armas e roupas a todo momento simplesmente para aumentar o nível do seu setup. Além disso, também existe uma loja que só aceita dinheiro de verdade para você comprar equipamentos que podem ser encontrados durante o gameplay. Como muito bem define o The Escapist, é como se a desenvolvedora quisesse que os jogadores pagassem para não jogar. E, por pior que isso pareça, às vezes você até tem esse sentimento ao enfrentar certas partes do mapa.

Mundo aberto

A Ubisoft é conhecida por suas franquias de mundo aberto, mas parece que Ghost Recon tem sido o calcanhar de Aquiles na fórmula da empresa. Depois de Wildlands trazer uma experiência que já não cativava tanto, Breakpoint traz um mapa com regiões bonitas, mas que possui um level design que dificulta a vida dos jogadores. Apesar de o game oferecer diferentes veículos para o usuário explorar todo o conteúdo disponível, a distância entre os objetivos e a grande quantidade de terrenos acidentados no caminho faz com que o helicóptero se torne a opção mais interessante de locomoção na maioria das vezes. Com isso, tirando momentos em que você e seus amigos querem dar uma zoada de carro, possivelmente utilizar uma aeronave será a melhor opção para se movimentar rápido e evitar bugs no chão (não se surpreenda ao ver um soldado ou até seu personagem entrar em uma pedra, isso acontece com frequência).

A gigante francesa costuma reciclar mecânicas entre seus games, mas infelizmente não trouxe para Breakpoint o rapéu da franquia Far Cry, que faria muita diferença na hora de (tentar) escalar montanhas. Até mesmo o mapa no menu de pause poderia ter ganhado um acabamento melhor, pois a grande quantidade de objetivos secundários acabam poluindo a interface.

Ainda assim, vale destacar alguns pontos em que o game mandou bem: agora, a franquia permite que você se deite com o personagem e se camufle no chão, dando uma camada extra para a jogabilidade de stealth, e também carregue corpos. As mecânicas clássicas da série, como tiro sincronizado, coleta de pistas, interrogatórios e uso de drones para reconhecimento também rendem momentos intensos e que são bem "filme de espião". Breakpoint conta ainda com um modo mais realista que permite fazer todas as missões com base em pistas e referências encontradas, sem o auxílio do mapa ou indicadores, um prato cheio para quem curte desafios.

Além de ser o seu melhor amigo nas viagens, o bivaque (aka fogueirinha) é o momento de paz e tranquilidade de Nomad

Outro ponto interessante são os bivaques, que permitem fazer viagens rápidas e realizar ações simples como comer, se hidratar, revisar o equipamento e criar itens consumíveis. O momento de Nomad sentado na fogueirinha rende melhorias temporárias e mostra como seria interessante uma abordagem maior do lado solitário da guerra dos Ghosts em um ambiente hostil. Mas o sentimento acaba logo em seguida, quando você clica na opção de garagem e pode conjurar um helicóptero para finalmente poder se locomover e meter bala na milícia com sua equipe.

Personalização e classes

A Ubisoft apertou bastante na tecla da personalização em Breakpoint, mas isso acaba não se mostrando muito durante o gameplay. Durante minhas 30 horas batalhando pela sobrevivência em Auroa, em nenhum momento vi necessidade de sair do clássico trio Sniper, fuzil e revólver com silenciador, tanto na exploração quanto no PvP. O gerenciamento de inventário também não pesa durante a jogabilidade e a gigantesca mochila de Nomad não dá trabalho quanto a isso. Na maioria do tempo, os únicos itens que você vai mexer são consumíveis e explosivos, que podem ser fabricados usando materiais coletados pela ilha.

No caso das classes, por outro lado, o peso na escolha acaba ficando mais evidente. Em Breakpoint, a Ubisoft introduziu quatro categorias de soldados com habilidades únicas, que podem ser liberadas na nova árvore de habilidades e trocadas nos bivaques ou modo PvP. Como cada Ghost do esquadrão pode desempenhar um papel para ajudar o grupo, os poderes especiais acabam auxiliando na hora do trabalho em equipe. O mesmo também acontece no jogo solo, em que se familiarizar com um dos tipos oferecidos pelo jogo pode fazer a diferença na hora de enfrentar um bando de Wolves mais poderosos.

Enquanto o drone de cura da classe de médico pode te dar mais gás para lutar depois de cair, a bomba de fumaça do Pantera pode fazer a diferença para os jogadores mais furtivos na hora de dispersar inimigos, por exemplo. Nesse quesito, minha crítica fica o trabalho que dá para mudar de categoria, já que você precisa de uma fogueirinha para trocar de classe no cooperativo.

Fica aqui também o desgosto pelo item especial da classe stealth Pantera: o spray de invisibilidade, uma lata de aerossol com um líquido que torna o soldado invisível para drones. Tudo bem que o jogo se passa em um futuro não tão distante, mas transformar uma piada de primeiro de abril em uma parte séria do gameplay é o fim da picada. 

Gráficos e áudio

Em relação aos gráficos, Breakpoint entrega uma experiência de qualidade em relação ao jogo anterior da franquia e possui ambientes bem trabalhados, principalmente quando o assunto são as vegetações e locais externos. O visual do game dá uma caída, porém, em certos momentos da narrativa, que possuem personagens com rostos sem vida. Enquanto certas passagens capricham no visual, outras cenas deixam momentos intensos da história meio cômicos por causa das expressões faciais mal acabadas. 

Os gráficos estão melhores, principalmente na parte dos matos

Quando o assunto é dublagem, o shooter também não se destaca tanto quanto poderia: enquanto a versão original somente faz o "arroz com feijão", a edição brasileira do game traz uma voz que não combina com o personagem de Jon Bernthal, o astro da produção. A trilha sonora também não é marcante (e quase é inexistente) e a dica é abrir o Spotify enquanto está viajando pelo gigantesco mundo aberto para dar uma variada do som das hélices do helicóptero.

Apesar de tudo isso, um detalhe que merece destaque são as interações entre os soldados que trabalham para Walker. Alguns diálogos entre os inimigos mostram que os caras só estão ali porque é o trabalho deles e, em determinadas situações, os Wolves até gritam o nome dos companheiros que foram mortos (segura essa, The Last of Us 2), o que adiciona um toque inesperado de drama ao arcade de tiro.

Conclusão

Enquanto Wildlands podia ser comparado com um almoço de microondas, Ghost Recon Breakpoint está mais para um pote gigante de pipoca: você pode aproveitar tudo sozinho se tiver coragem, mas dividir com os amigos vai deixar a experiência mais divertida e evitar uma má digestão. Afinal, a grande quantidade de conteúdo pode te deixar enjoado com o tempo e a "refeição" não é nada nutritiva. 

Assim como os pacotes de pipoca vendidos nos cinemas, Breakpoint também tem um preço que parece supervalorizado. Em um mundo de jogos online gratuitos cada vez mais recheados de conteúdo, fica difícil recomendar que pelo menos duas pessoas comprem um produto de aproximadamente R$ 200 para ter uma experiência mediana, esquecível e que não tem vergonha na hora de emplacar as famigeradas microtransações. Até mesmo outras produções da Ubisoft, como Far Cry 5, são capazes de oferecer uma experiência similar que é mais barata e tem mais qualidade.

Com isso em mente, a dica é esperar pelos fins de semana gratuitos para jogar com os amigos e também aguardar eventuais promoções que vão aparecer no futuro. Afinal, se até a Ubisoft está triste com os resultados de Ghost Recon Breakpoint, não deve demorar muito tempo para o valor do título despencar igual o helicóptero que inicia a história do game. 


  • Redator: Mateus Mognon

    Mateus Mognon

    Mateus Mognon é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vencedor do prêmio SET Universitário na Categoria Reportagem Digital, atua nos sites do grupo Adrenaline desde 2014. Atualmente, colabora para os veículos com notícias, análises e artigos envolvendo tecnologia e games.