ANÁLISE - Control traz história intrigante e poderes incríveis, mas isso basta?

Mistério e suspense são pontos fortes de um jogo que certamente vai criar um fã-clube

Control é o mais recente lançamento da Remedy e um dos mais aguardados do ano. Ele também é o primeiro jogo da desenvolvedora há anos que não foi feito primeiro especialmente para uma única plataforma. Por esses e outros motivos, temos muitos olhos em cima deste título inédito, que leva os bullet times e histórias complexas da Remedy para uma nova franquia. Confira o que achamos do game na nossa review para Control!

História e Ambientação

A história de Control é um bocado confusa, mas não é tão complicada. A dificuldade que alguns jogadores podem ter em acompanhar, principalmente no começo, é mais por causa da maneira que o enredo se desenrola do que seu conteúdo em si, que é bem básico, na verdade. De maneira resumida, e evitando spoilers, o game conta a história de Jesse Faden, que acaba de entrar no prédio do Bureau Federal de Controle (FBC) depois de anos procurando o edifício - a "Casa Antiga". Ela quer encontrar respostas sobre seu irmão desaparecido, Dylan Faden, mas o prédio está sob influência de uma força sobrenatural e maligna apelidada de "Ruído" e as coisas só vão ficando mais misteriosas a partir daí.

Esse jeito "estranho" de contar a história, na verdade, é um dos pontos mais positivos de Control, porque o mistério e o suspense são dois dos pontos mais fortes deste jogo, e dos roteiros de sua desenvolvedora, no geral. Além da história principal, que se desenrola aos poucos, o jogador vai encontrar também a oportunidade de se aprofundar no mundo do game, em seu lore, de outras maneiras, como em missões paralelas e, principalmente, em textos, arquivos de áudio e outros colecionáveis do tipo.

O enredo e os mistérios da Casa Antiga são a melhor parte do game

E muitos jogadores certamente vão querer buscar esses segredos. O mundo de Control é bem construído e intrigante e, para quem realmente entrar na história, é uma diversão a mais encontrar esses arquivos e se aprofundar nos mistérios dos objetos sobrenaturais e as pequenas histórias que encontramos do que já aconteceu neste universo estranho. Um toque especialmente interessante nessa parte é encontrar uns trechos inesperados de humor, quando entendemos alguns dos acontecimentos envolvendo os eventos paranormais ou o cotidiano do FBC.

A parte de Control que talvez não esteja à altura de sua história envolvente e ótima ambientação, infelizmente, é a protagonista. Jesse é um tanto rasa e sem personalidade e muitas de suas reações são inconsistentes. Ela pode ignorar os acontecimentos mais absurdos e incríveis como se fossem parte do dia a dia de qualquer pessoa, ou de repente se surpreender por alguma outra situação, deixando o jogador sem saber se ela é uma pessoa diferenciada que fica confortável neste mundo bizarro - como ela chega a dizer - ou se a protagonista está na mesma posição que a gente, aprendendo sobre essas estranhezas e tentando entendê-las. Isso torna difícil se conectar com a personagem.

O fato de eu não considerar Jesse uma ótima protagonista, no entanto, não atrapalha muito a campanha do game porque, na minha visão, o jogo tem outra protagonista tão importante quanto ela, e muito mais interessante: a própria Casa Antiga. Desvendar os acontecimentos, encontrar easter eggs e se aprofundar nas missões paralelas são pontos altos do enredo de Control.

Jogabilidade

Para um jogo que é tão irreverente em sua história e ambientação, a jogabilidade de Control chega a ser conservadora: é exatamente o que se espera para quem viu qualquer vídeo do jogo. O combate, basicamente, é uma mistura do uso dos poderes de Jesse com a sua arma capaz de assumir diferentes formas. Os tiroteios e exploração do cenário são mais de 90% do jogo, mas podemos mencionar também alguns trechos de plataforma, que não ficaram mal implementados, ainda mais sendo tão escassos.

O jogo deixa uma excelente primeira impressão na parte do gameplay. Os controles são intuitivos e responsivos, e há uma excelente sensação de "impacto" no uso dos poderes e dos tiros, ajudados pelos excelentes efeitos especiais e trabalho de som. Liberar os primeiros poderes de Jesse e formas da arma trazem aquela sensação de "o que será que vou conseguir pela frente?". Além disso, temos um sistema de update de habilidades e mods pessoais e para a arma, que trazem melhorias à protagonista e ao seu poder de fogo.

Esses recursos mostram muito potencial, mas infelizmente Control não chega a aproveitá-lo completamente, e isso acontece principalmente por causa dos inimigos. Não há muita variedade e os encontros são sempre do mesmo jeito: entra na sala, limpa os inimigos, segue adiante. Essa fórmula funciona muito bem no começo quando o gameplay é relativamente novo e certamente é divertido o suficiente para manter muitos dos jogadores satisfeitos do início ao fim do game.

Control tem uma ótima jogabilidade, mas não aproveita todo seu potencial

Considero, no entanto, que Control iria se beneficiar muito de ser menos conservador nos poderes de Jesse, principalmente nos upgrades das habilidades. A maioria das melhorias envolve apenas melhorar os poderes "numericamente", fazendo gastar menos energia, dar mais dano, coisas do tipo. Gostaria que desse para realmente mudar como alguns dos poderes funciona e conseguir algumas coisas mais malucas para usar durante os tiroteios.

Uma variedade maior de inimigos também ajudaria muito, especialmente se enfrentá-los envolvesse mais mudanças de estratégia, como por exemplo inimigos que só podem ser mortos por um formato específico da arma, ou algo do tipo. As formas da arma, aliás, também se beneficiariam de um acesso rápido. Podemos equipar apenas duas por vez, trocando entre elas apertando o X (Xbox). Mas você pode equipar outra forma a qualquer momento durante o combate, então acaba se tornando apenas um obstáculo desnecessário usar só duas por vez, uma perda de tempo atrapalhando a dinâmica do combate. Quando enfrentamos os chefes no game, principalmente nas missões paralelas, dá pra perceber como o jogo fica bem mais divertido quando obriga o jogador a ser mais estratégico no uso dos poderes e das formas das armas.

Outro potencial que poderia ser aproveitado melhor é o da própria Casa Antiga. O prédio da FBC não é uma construção normal e todo tipo de coisa louca pode aparecer em sua arquitetura. Vamos falar da beleza dos ambientes na parte dos gráficos, mas aqui na jogabilidade cabe ressaltar que acredito que essas "doideiras" do prédio poderiam ter sido mais aproveitadas. É interessante como as coisas vão ficando progressivamente mais estranhas, mas uma parte muito grande do jogo se dá nos ambientes normais. Temos um trecho específico, que não quero dar spoilers, em que o jogo realmente alcança todo o potencial da Casa Antiga e fica aquela sensação de como isso poderia ter acontecido em mais ambientes e que outras loucuras a Remedy poderia ter preparado para gente.

Mas, torno a dizer, apesar das críticas e de se tornar repetitivo, o gameplay de Control é sólido e divertido. Associado à sua ótima ambientação e cenários lindos, vai ser mais do que suficiente para manter muitos dos jogadores sorrindo do início ao fim do game.

Gráficos

Fazia tempo que os gráficos de um jogo não me chamavam a atenção como aconteceu em Control. As texturas e a renderização dos personagens é impressionante, mas é nos efeitos especiais que o game realmente se destaca. Os efeitos de fumaça, de partículas e, claro, de luzes, são incríveis.

Devido a limitações do meu hardware, não pude experimentar o game com o ray tracing ativado, mas ainda assim tive uma ótima experiência. E pelo estilo de Control, os jogos de luminosidade realmente são importantes para o desenvolvimento da história e do gameplay, dando efeitos muito bonitos mesmo sem a tecnologia do futuro habilitada.

Gráficos lindos e física impressionante

Mas claro que uma das coisas que mais chama a atenção aqui é a destruição do cenário. O jogo dá a impressão de que é possível colocar o prédio abaixo e é sempre muito legal ver o nível de caos que se instaura num ambiente depois de um tiroteio e briga com poderes. Falando nos poderes, eles tornam a destruição do cenário não apenas mais espetacular, mas também interativa. Às vezes você vai arremessar contra os inimigos um pedaço de coluna que acabou de ser destruído durante um tiroteio, e isso é sempre muito satisfatório e imersivo.

Eu não teria críticas à parte técnica do game, mas, aparentemente, ele teve um lançamento horrendo nos consoles. Não poderia dar nota 10 nesse quesito sabendo que no Xbox One e no PS4 Slim - e até no PS4 Pro - o jogo derruba tanto os frames que chega a atrapalhar na jogatina (antes da atualização).

Outra pequena crítica que quero fazer aqui, bem menos importante, é que eu gostaria de ver mais variedade nos cenários e nos inimigos. Claro que há limitações no que se pode fazer num prédio, mas o jogo mostra de vez em quando como poderia ter ido mais longe com seus ambientes. E, no caso dos inimigos, mais variedade de designs poderia significar mais variedade no gameplay também, o que faria muito bem ao jogo.

Som

O trabalho de áudio do game está dentro do esperado, mas tem seus momentos - melhores e piores. Os efeitos sonoros estão entre os destaques positivos, com o som das armas e do uso dos poderes auxiliando muito na "sensação" de impacto dos combates, promovendo não somente a imersividade no jogo, mas também o "power trip" do jogador.

A dublagem é ótima, mas não dá pra chamar de "acima da média" num jogo desse porte. Temos um excelente trabalho da protagonista e da maioria dos coadjuvantes, com alguns não sendo tão bons quanto os outros. A direção aqui que considero um pouco estranha, porque Jesse é bastante apática com alguns acontecimentos e não sei se foi intencional ou não, pelo tom enigmático do jogo. Às vezes várias pessoas morrem e ela não se importa o mínimo, enquanto outras vezes se mostra comovida com a situação difícil de algum outro figurante. Essa inconstância quebra a imersão. É uma pena também não termos uma dublagem em português.

Os efeitos sonoros ganham destaque, e um bom uso de músicas licenciadas quebra a mesmice

A parte das músicas também é digna de seus elogios. Na maior parte do game temos uma trilha sonora original muito competente, que casa bem com o desenrolar da jogatina. Nada que chame muito a atenção e às vezes cai um pouco no repetitivo, mas há momentos que o game quebra bem a mesmice trazendo algumas músicas licenciadas, oferecendo um diferencial bacana que eu espero que não dê problemas que tirem o game das lojas no futuro.

Conclusão

Control é um excelente game que tem, sim, seus problemas, mas que definitivamente merece uma chance. Fãs de mistério, de exploração de paranormalidade baseada em ficção científica têm aqui um prato cheio e um game certamente imperdível. A jogabilidade não é a mais incrível que você já viu, mas é dinâmica e divertida o suficiente para manter o game interessante enquanto os jogadores exploram e tentam descobrir todos os segredos da Casa Antiga e do FBC.

Fãs de mistérios à la Twilight Zone vão adorar Control, mas quem vem pelo gameplay pode querer esperar por uma promoção

Avaliação: Control

História e Ambientação
9,0
Jogabilidade
8,5
Gráficos
9,5
Áudio
9,0

Para quem não se interessa tanto assim pela história e, principalmente, pela ideia de ter que ficar lendo textos, Control ainda pode ser uma boa opção pra dar uns tiros, apreciar belos gráficos e desestressar. Mas, para estes jogadores, sugiro aguardar uma promoção e, principalmente pra quem está nos consoles, esperar um patch que garanta que o jogo rode melhor.


PRÓS
História misteriosa e envolvente
Explorar a Casa Antiga é muito recompensador
Jogabilidade dinâmica e responsiva
Gráficos e física excelentes
CONTRAS
Gameplay fica repetitivo
Pouca variedade de inimigos
Protagonista mais ou menos
  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.