Análise de The Dark Pictures Anthology: Man of Medan - Uma noite de filme com os amigos

Primeiro título da antologia mostra potencial da série, mas há bastante espaço pra melhorar
Por João Gabriel Nogueira 28/08/2019 11:04 | atualizado 28/08/2019 11:04 comentários Reportar erro

Sabe quando você assiste a um daqueles filmes de terror "pipoca" e fica julgando os personagens em suas escolhas burras dizendo para si mesmo "eu teria conseguido sobreviver nessa situação"? Pois bem, a Supermassive Games decidiu que vai criar jogos para testarem justamente isso. Depois do relativo sucesso de público e de crítica de Until Dawn no PS4, a desenvolvedora decidiu fazer uma antologia de jogos multiplataforma na mesma proposta, começando por Man of Medan. Vamos conferir nessa análise se a fórmula está sendo desenvolvida ou se já deu o que tinha que dar!

OBSERVAÇÃO: Pela premissa desse estilo de jogo, ao longo dessa análise vou fazer mais comparações com filmes do que necessariamente outros jogos. Isso porque o game se propõe a trazer uma experiência bem mais de filme interativo do que de um jogo mais tradicional.

História e Ambientação

A primeira coisa que precisamos destacar de Man of Medan é que o jogo busca evocar aqueles filmes de terror mais populares, principalmente do gênero "slasher". O estilo de história da Supermassive lembra mais sucessos dos anos 80 e 90 como Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13 e Pânico. No caso de Man of Medan, dá pra lembrar bastante de um mais recente - Navio Fantasma.

Sendo assim, o jogo não tenta entregar um profundo horror psicológico, com personagens complexos e dramáticos. Temos aqui clichês clássicos e estereótipos em forma de pessoas, mas que são feitos de maneira proposital, porque essa é a proposta do game.

O jogo quer ser um filme de terror popular interativo

O enredo em si de Man of Medan também é um tanto simples. Vemos num prólogo que um navio militar sofreu algum fenômeno bizarro que fez com que toda sua tripulação morresse em 1947 e depois saltamos aos tempos modernos para encontrar um grupo de jovens interessados em fazer mergulho em escombros da 2ª Guerra. Rápidos acontecimentos os levam ao navio abandonado e eles vão precisar entender o que aconteceu para sobreviver - pelo menos é isso que o jogo diz.

A campanha do game é cortada de vez em quando por intervalos em que conversamos com o "Curador", um colecionador de histórias interpretado pelo ótimo Pip Torrens, conversando diretamente com o jogador e julgando suas ações. Esse vai ser o personagem que vai aparecer em todos os games da Dark Pictures Anthology e "amarrar" suas histórias.

Comecei explicando que entendo a proposta do game, mas isso não quer dizer que a considero completamente justificada. O jogo certamente se beneficiaria de personagens mais interessantes e desenvolvidos, melhor trabalhados. Pessoas que eu realmente me importasse se morressem. Mesma coisa para o enredo - ele funciona para manter a atenção durante a campanha, mas, tirando alguns mistérios específicos, o segredo principal da história é um tanto óbvio, o que esvazia um pouco da sensação de tensão e suspense do jogo.

Jogabilidade

O gameplay de Man of Medan é exatamente o que se espera nesse tipo de "filme interativo" baseado em escolhas. São cinco personagens jogáveis e a cada momento o jogador fica encarregado de um deles. Você pode movimentar seu personagem em alguns espaços bem limitados, no máximo para fazer um pouco de exploração e descobrir segredos antes de avançar até a próxima cena, seja andando até onde tem que ir ou passando um tempo pré-determinado do jogo.

A maior parte do tempo jogando se dá vendo as cutscenes e fazendo escolhas, na verdade. As escolhas são bastante simplificadas, sempre entre duas opções apenas, e temos muitos quick time events. E é isso.

O gameplay se dá principalmente nas escolhas e quick time events

Mas é interessante ver o nível do impacto que podemos ter na campanha fazendo essas simples escolhas, causando aquele "efeito borboleta" que pode mudar completamente como são os trechos finais do gameplay mesmo, não apenas da cutscene final. Suas escolhas podem afetar até qual personagem estará presente em determinado trecho do jogo, o que é especialmente interessante para o recurso mais interessante do game: jogar com os amigos.

O modo "Noite de Cinema" foi criado se baseando no feedback que a Supermassive recebeu com Until Dawn. Aparentemente, um jeito que se popularizou de jogar aquele game foi o de reunir alguns amigos e cada um escolher um personagem, jogando apenas quando é a vez de seu escolhido. Man of Medan ajuda a jogar assim, você define no menu quantas pessoas estão jogando e quais personagens cada jogador controla, e o game avisa de quem é a vez antes, para dar tempo de passar o controle. E é aqui que o jogo realmente brilha.

Jogando acompanhado o game fica muito mais divertido porque é adicionado um fator de imprevisibilidade. Você pode até ter terminado o game sozinho, mas você não sabe quais decisões seus amigos vão tomar e isso pode mudar o desenrolar da história, aumentando o fator de replay e até a vontade de voltar para tentar de novo, descobrir mais segredos, manter todos os personagens vivos. Também é possível jogar com mais um jogador online, no modo "História Compartilhada", mas o gameplay dos amigos juntos é bem mais interessante, porque fica parecendo exatamente o que o modo diz ser, uma "Noite de Cinema" com a galera.

O modo "Noite de Cinema" ajuda demais a valorizar um jogo bastante curto

E o fator de replay é realmente importante aqui, porque Man of Medan é bastante curto. Bem curto mesmo. O jogo pode ser zerado em algumas poucas horas e não deve dar nem metade do Until Dawn em termos de duração. Jogando sozinho, se você não for complecionista e conseguir entender grande parte dos mistérios do game numa primeira jogada, dificilmente vai querer voltar a jogar para tomar decisões diferentes, no máximo apenas em um capítulo ou outro, matando a longevidade do game em apenas uma ou duas noites. E é aqui que entram alguns pontos que considerei negativos no jogo.

Suas escolhas afetam o desenrolar do gameplay, mas nem tanto da história: o final vai ser sempre basicamente o mesmo, com o jogador podendo influenciar apenas no número de sobreviventes. Aliás, esse número de sobreviventes é muito mais definido pelos seus reflexos do que pelas suas escolhas. O jogo bate bastante na tecla de como suas opções têm "repercussões" e podem significar vida ou morte, mas, na prática, esses casos são raros. Na gigante maioria das vezes, o que importa mesmo é ser bom nas QTEs. E isso pode ser bastante frustrante, estar jogando bem, fazendo as escolhas certas, errar um botão e perder o personagem.

Outro aspecto que precisa ser mencionado aqui é que o game apresenta alguns erros de continuidade, que podem aparecer dependendo de como foi sua jogada. Houve determinado momento que dois personagens estavam juntos, mas na cena seguinte um deles apareceu num lugar completamente diferente, sem nenhuma explicação, deixando a situação até confusa. Por causa da natureza fantasmagórica do game, achei até que poderia ser um fantasma ou alucinação, mas era erro do jogo mesmo.

Gráficos

Os gráficos do jogo merecem muitos elogios. Claro, por causa do seu estilo "nos trilhos", em espaços contidos e controlados, dá pra caprichar mais nas texturas e animações sem sobrecarregar o sistema, só que ainda assim vale mencionar que é um belo trabalho. Principalmente quando chegamos ao navio fantasma, que pode ser considerado quando o jogo realmente "começa".

Ótimos gráficos e expressividade ajudam na imersão

Os visuais de um navio destruído, enferrujado, despedaçado, são muito bem feitos. O trabalho de expressão dos personagens, importantíssimo neste game, é igualmente bem feito e ajuda muito na imersão - permitindo até perceber quem atua melhor. Alguns dos momentos do jogo senti que faltou expressividade em determinados personagens, especialmente o Alex, mas depois de um tempo comecei a acreditar que é o ator que não é dos melhores mesmo.

Vale mencionar também que é muito bom ter a chance de jogar um game da Supermassive no PC. Rodando a mais de 60fps em ultrawide, posso dizer que a experiência de Man of Medan fica bem mais interessante. E a otimização do jogo não parece nada ruim*.

*Essa review foi feita jogando num Ryzen 5 1600, com uma GTX 1070 e 8GB de RAM.

Som

Claro que a característica mais importante de um game nesse estilo é a atuação dos personagens, dos atores neste "filme interativo". O trabalho de dublagem é ótimo, principalmente quando vido de atores mais experientes como Shawn Ashmore e Pip Torrens. Mas mesmo os outros que não se saem tão bem, ainda fazem uma atuação convincente o suficiente para não atrapalhar a imersão no game. Houve um momento ou outro que achei mais digno de crítica, mas foi um caso mais com a direção da dublagem do que com o dublador. É o caso de uma entonação ou outra equivocada, que não casa com o momento. Pode parecer detalhe, mas é o tipo da coisa que pode arruinar o suspense de uma determinada cena.

E é uma pena que o jogo não tenha uma dublagem em português brasileiro, apenas legendas.

Um bom uso de algumas músicas licenciadas ajuda na "sensação de filme"

A trilha sonora do game é competente e temos até algumas músicas licenciadas aqui que ficam bem bacanas, por exemplo na abertura e no fechamento. Considero uma ótima inserção, porque ajuda no clima de filme que este game busca, mas fica a expectativa para não termos problemas de renovação de licença no futuro, com acontece com tantos jogos que usam essas músicas.

Conclusão

Man of Medan é um jogo bem interessante e uma abertura digna para a nova antologia da Supermassive. Não dá pra dizer que começou "chutando a porta", mas o game mostra um potencial que eu adoraria ver explorado nos próximos títulos dessa nova série.

Avaliação: The Dark Pictures - Man of Medan

História
7,0
Jogabilidade
7,5
Gráficos
9,0
Áudio
8,0

É interessante ver como as escolhas podem realmente mudar o desenrolar do gameplay, mas eu adoraria vê-las impactar também em como o jogo termina. Uma história um pouco mais envolvente ajudaria, mas o mais importante agora é realmente melhorar o desenvolvimento dos personagens, para fazer os jogadores se preocuparem e "chorarem" com suas perdas. Quando vemos uma pessoa que gostamos num filme morrendo é sempre impactante, imagina então a sensação sabendo que a culpa foi sua?

Man of Medan mostra potencial para a Dark Pictures Anthology, mas ainda tem onde melhorar

Levando-se em consideração este game por si só, daria pra recomendar apenas se ele não fosse tão curto. O preço de R$ 159,90 nos consoles e R$ 130 no PC não chega a ser um preço "cheio", mas ainda não dá pra chamar de barato pra este tamanho de jogo. No momento eu recomendaria apenas para quem tem um grupo de amigos para se reunir e jogar este game de maneiras diferentes, terminando mais de uma vez trocando quem joga com cada personagem, tornando a experiência bem mais divertida e fazendo o investimento compensar mais. Para os solitários, acho que dá pra esperar por uma promoção.

Agradecemos à Nvidia por nos ceder uma key para esta review!


PRÓS
Ótimos gráficos e ambientação
Bom trabalho de dublagem
Modo "Noite de Cinema" é ótimo!
CONTRAS
Muito curto
QTEs às vezes importam mais que as escolhas
Alguns erros de continuidade e direção
  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.