ANÁLISE: Rage 2

Habilidades divertidas e armas criativas, mas mundo aberto se torna um obstáculo

Rage 2 é mais um FPS pós-apocalíptico cheio de cores vivas que convida o jogador a explorar seu mundo aberto como um "parque de diversões", explorando seus super poderes e armas criativas para enfrentar hordas de inimigos genéricos numa variedade de missões. Mas será que vale a pena experimentar este sandbox enquanto esperamos o novo Doom? Confira na análise!

História e Ambientação

Infelizmente temos que começar com a parte menos interessante de Rage 2. A ambientação pós-apocalíptica já está se tornando um tema batido, mas além disso, essa energia de "o apocalipse pode ser divertido" que transforma o apocalipse num parque de diversões cheio de cor de rosa já foi abordada em Far Cry New Dawn e quem jogou aquele game não vai encontrar muita novidade aqui neste sentido. Em Rage 2 o mundo parece mais estragado, mais desgastado, mais antigo. Isso, ao mesmo tempo, deixa ele com uma humanidade melhor estabelecida, numa tentativa de retorno à civilização, algo que já vimos em Mad Max também.

Essa ambientação um pouco batida, que parece uma mistura de outras que vieram antes, ainda poderia ser salva por uma história bastante interessante, pena que não é. O enredo é um tanto preguiçoso. Temos um vilão unidimensional, que é desinspirado até em seu design, querendo aquela velha dominação mundial. Pra tentar dar um toque pessoal à narrativa, ele mata a figura materna do protagonista logo no início do jogo, acrescentando o bom e velho clichê da vingança à nossa pilha de temas batidos.

Para deter o maligno Genereal Cross, como se chama, o protagonista Walker (ou "a" protagonista, vai da sua escolha), precisa da ajuda de três figuras importantes da região para acabar com ele. E esses três NPCs são tão padronizadas e previsíveis quanto possível. Lembre-se de qualquer "velho de guerra experiente e amargurado", "mulher guerreira e exemplo de líder" e "cientista excêntrico" de jogos que você já tenha experimentado na vida e eles se encaixariam tranquilamente aqui.

Uma ambientação cheia de clichês que não ajuda na história fraca

O maior problema da ambientação e do enredo é a história se levar a sério demais. Se o jogo adotasse um tom mais satírico na narrativa, do jeito que seus primeiros trailers davam a entender, esses clichês seriam mais perdoáveis, justamente por serem uma paródia de jogos desse tipo. Algumas missões até seguem nessa linha, mas na maior parte do game parece que a história espera que eu esteja super interessado ou investido nesses personagens rasos e sem graça que todo jogador já viu umas mil vezes.

Jogabilidade

É na jogabilidade que o game mais se destaca. Rage 2 tenta dar bastante liberdade ao jogador, abrindo todo seu mapa quase imediatamente e dando um veículo em suas mãos como quem diz "vai lá e divirta-se". Isso faz com que o jogo tenha um início bastante promissor, ainda mais quando abrimos a interface de armas e upgrades e vemos que Walker tem um imenso potencial para se tornar uma máquina de combate poderosíssima até o fim do jogo. É uma pena, então, que essa promessa inicial do game acaba desapontando conforme jogamos e, em grande parte, justamente por causa do mundo aberto.

O jogo conta com uma ótima diversidade de armas e habilidades que são divertidos de usar e que incentivam o jogador a permanecer se movimentando e ir pra cima dos inimigos, assim como acontece em Doom. As armas aqui, no entanto, não são tão eficazes como no outro game. Usar a arma que "puxa" os inimigos para um lugar que você apontou é muito engraçado e o revólver com balas que acendem num estalar de dedos ajudam o jogador a se sentir um "badass", mas quando passa a graça de "brinquedo novo", a maioria dos jogadores vão simplesmente voltar para o clássico rifle de assalto e shotgun. Por mais divertido que seja brincar com as novidades, elas simplesmente não são tão boas quanto simplesmente atirar e matar os inimigos. Os upgrades das armas são um recurso muito bem-vindo que ajuda a manter seu uso divertido, mas as primeiras que conseguimos continuam sendo as melhores.

Já as habilidades permanecem interessantes ao longo de todo o jogo. Há uma boa variedade e elas podem ser melhoradas, ajudando na movimentação e no poder destrutivo e defensivo do jogador. Brincar com esses "super-poderes" é a parte mais legal de Rage 2.

O mundo aberto se torna um obstáculo entre as partes divertidas do gameplay

É por isso que o mundo aberto, neste game, mais atrapalha do que ajuda. As armas e habilidades de Rage 2 são alinhadas para oferecer aquele gameplay acelerado de ir pra cima dos inimigos "fatiou, passou" e se sentir uma força implacável de destruição. Existe até um sistema de contador de "combo" para matar inimigos rapidamente, justamente para incentivar isso. Mas o game, por sua natureza de mundo aberto, em diversos cenários se atrapalha. O jogador perde todo o ritmo e velocidade num cenário pra parar e ficar procurando os últimos inimigos que faltam. Ou então, depois de passar uma missão, tem que dirigir durante minutos de tédio até a próxima localidade em que vai ter uma nova chance de usar seus poderes. O mundo aberto acaba agindo como um obstáculo, algo que fica no seu caminho entre cada momento de tiroteio. Ter que ir nas cidades atrás de novas missões e nas lojas para reabastecer itens de cura e munições chega a ser chato quando tudo o que o jogador queria era estar rachando mais uns crânios.

Se o mundo fosse recheado de atividades e eventos malucos como o jogo às vezes pensa que é (mas não é) até teríamos uma justificativa melhor para a mecânica. Mas na maior parte do tempo ficamos apenas dirigindo pra lá e pra cá - com uma dirigibilidade que não é das melhores - e de vez em quando tem algumas pessoas brigando na rua, mas que não faz a menor diferença pro jogador se ele quiser ignorar.

A dirigibilidade ruim atrapalha as atividades com veículos no game

Claro que, tendo veículos no jogo, temos atividades que vêm daí também, estilo Mad Max. O carro principal, Fênix, pode ser melhorado com novas armas, mais proteção, etc. Isso é um recurso legal, mas sub-utilizado. Há também atividades de corridas e de perseguição de comboios, que oferecem aí mais algumas horas de jogo para quem gostar da parte de veículos do game, mas sinceramente não gostei mesmo da dirigibilidade e isso acabou com meu interesse nessas missões extras, que podem ser dispensadas sem perder nada na campanha.

Gráficos

Os gráficos de Rage 2 são um ponto alto do game. Nada que impressione ou esteja à frente do seu tempo, mas plenamente satisfatórios e muitas vezes bem bonitos. Os mapas têm uma boa variedade dentro do que é possível por causa de sua temática e os efeitos especiais de partículas, tiros e até violência estão muito bons. Além disso, o jogo está bem otimizado e roda sem problemas e sem demoras em seu carregamento.

Não dá pra dizer que é perfeito porque, como seria de se esperar, temos alguns bugs aqui e ali. O jogo travou e fechou uma vez apenas, mas houve também alguns problemas de posicionamento de objetos e de colisão. Usar a moto voadora Ícaro é quase certeza de ver pelo menos alguma coisa dando errada, já que seu funcionamento é um tanto estranho.

Seria interessante ver mais variedade de personagens, especialmente dos "chefes". Os templates um tanto repetidos são um desperdício do que poderia ser a criatividade de gente maluca criando a armaduras improvisadas e com estilos bizarros.

Áudio

Rage 2 não se sai mal na parte do áudio pela maior parte do tempo. A trilha sonora é boa e estilizada de maneira que combina completamente com a temática do gameplay e eu gostaria que fosse mais variada só para ouvir mais músicas no estilo. Os efeitos sonoros também são de ótima qualidade, dando uma satisfatória sensação de impacto, seja atirando nos inimigos ou usando suas habilidades, principalmente a "enterrada". Até os barulhos variados, como o som de concluir missão ou pegar itens, são originais e ajudam a determinar a "energia" do game.

O game é totalmente dublado em português também, o que é ótimo, e conta com dubladores competentes, o que é melhor ainda. As atuações são profissionais e as falas são enfatizadas de maneira correta, o que é algo que parece estranho de se falar, mas devido à natureza da dublagem de games, erros nessa parte podem ser cometidos. O que fica de ponto negativo aqui é um erro técnico, na verdade. Infelizmente, ao longo do jogo acontecem algumas falhas em que faixas de áudio simplesmente não são carregadas e no momento que um personagem estaria falando, temos apenas uma boca mexendo e silêncio. Isso acaba com a imersão.

Rage 2 é um jogo competente e, por vezes, bastante divertido. As armas originais e as habilidades variadas, junto com sua grande árvore de upgrades, tornam o título interessante e digno de uma "testada", especialmente para os fãs de FPS. Mas um jogo que vale a pena conferir, não é exatamente um título que vale a pena comprar no lançamento. 

Rage 2 mistura Doom com Mad Max e o resultado é pior que os dois

É difícil não comparar Rage 2 com outros jogos, justamente porque tantos de seus elementos parecem "inspirados" (ou copiados) de outros games que vieram antes. Isso, por si só, não é um problema. Uma boa mecânica pode ser reproduzida em outros games adicionando seus estilos próprios e criar uma experiência nova ou uma que vale a pena ser jogada de novo. Infelizmente este não é o caso de Rage 2. Toda vez que o game lembra o jogador de outros jogos, ele lembra também como os outros são melhores. Nos momentos em que o FPS de Rage 2 brilha a gente sente saudades de Doom, e quando estamos dirigindo e passando pela vastidão vazia do mundo aberto do game, somos lembrados como seria mais legal se fosse Mad Max. O jogo tenta juntar esses dois games num só e o resultado é inferior aos dois.

Quem estiver ávido por um novo mundo aberto e não espera muito além de umas coisas novas para explodir, Rage 2 pode ser, sim, uma boa pedida. Mas realmente recomendo esperar uma promoção.

Conclusão

 

Avaliação: Rage 2

História
6.0
Jogabilidade
8.0
Gráficos
8.5
Áudio
8.0

PRÓS
Armas variadas
Habilidades divertidas
Gráficos bonitos e bem otimizado
Dublagem em PT-BR de qualidade
CONTRA
Mundo aberto atrapalha mais do que ajuda
História sem graça cheia de clichês
Faixas de áudio podem falhar
  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.