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ANÁLISE: Kingdom Hearts 3

A Disney mostra o seu poder em um jogo belo e muito divertido

Cerca de 14 anos após os jogadores do PS2 andarem com Roxas pelas ruas de Twilight Town pela primeira vez, um dos games mais aguardados pelos fãs da Square Enix chegou ao mercado. Depois muita espera e relançamentos, finalmente vivemos em um mundo em que é possível jogar Kingdom Hearts 3, que está disponível para PS4 e Xbox One. Agora que já podemos acessar essa peça de entretenimento feita em conjunto com a Disney, fica a dúvida: valeu a pena esperar tanto tempo pelo game? Descubra como o jogo ficou na nossa análise.

História


Muita coisa pra contar em mundos extremamente carismáticos

A história de Kingdom Hearts é tão complicada quanto a linha de lançamentos da franquia. Apesar do jogo mais recente carregar o número três no nome, estamos falando do décimo primeiro título da série, sem contar relançamentos, versões Remix ou coletâneas. Com tudo isso, o universo criado por Tetsuya Nomura conta com diversas subtramas e reviravoltas, e o objetivo de Kingdom Hearts 3 é "simples": dar um fim para toda a saga atual, que gira em torno do vilão Xehanort.

A narrativa acompanha Sora, Donald e Pateta, os protagonista de Kingdom Hearts 1 e 2, lutando contra o velho mestre de keyblade e suas contrapartes, que estão, mais uma vez, tentando trazer a escuridão para o mundo. Apesar da premissa ser simples, acompanhar toda a história pode ser difícil até mesmo para quem é mais experiente na franquia, já que praticamente todos os jogos tem alguma conexão com os desdobramentos de Kingdom Hearts 3.

Mesmo quem não entende a história principal pode se divertir em Kingdom Hearts 3

Com isso em mente, em algum momento o jogador vai acabar recorrendo a resumos ou terá que jogar os títulos anteriores da franquia para adentrar no vasto universo criado por Nomura. Ainda assim, é interessante ver que a Square Enix tomou atitudes para ajudar a galera a lembrar de tudo que já aconteceu. Além de trazer uma série de vídeos mostrando o básico do universo do game, a desenvolvedora utilizou elementos dos jogos anteriores e diálogos bastante expositivos durante o gameplay que ajudam a lembrar de boa parte das coisas que estão acontecendo.

Para quem é novo, a dica é não se assustar com o universo de Kingdom Hearts 3 e entrar de cabeça, pois os personagens originais são muito carismáticos e acabam instigando o jogador a correr atrás de mais história. Além disso, a narrativa ser confusa meio que já faz parte da experiência e até mesmo os próprios personagens não sabem direito tudo o que está rolando em alguns momentos. E mesmo se você não se interesse pelo universo do jogo, ainda é possível se divertir com o que é contado nos mundos baseados em obras da Disney.

Graças à versatilidade trazida pelos gráficos feitos na Unreal Engine 4, Kingdom Hearts 3 é o primeiro jogo da franquia a levar os jogadores para filmes da Pixar e animações mais recentes da Disney. Com isso, Sora e seus amigos visitam lugares que vão desde o castelo de gelo de Frozen até Monstropolis e a caixa de brinquedos de Andy, de Toy Story.

Cada mundo traz uma narrativa individual e conta com uma conexão à história principal. Isso garante coesão para o game e ainda dá liberdade para os desenvolvedores trabalharem com as propriedades intelectuais da Disney, mas nem tudo foi tão bem aproveitado como deveria.

Alguns dos mundos continuam as histórias de filmes da Disney e Pixar

Em locais como San Fransokyo e Monstropolis, por exemplo, o game é utilizado para continuar a história dos filmes, o que agrega um imenso valor a participação em Kingdom Hearts 3 e funciona como um presente para os fãs das animações. Já em outros casos, porém, o título leva a narrativa do longa-metragem retratado mais ao pé da letra, algo que é comum em títulos anteriores na franquia. O problema é que decisões de roteiro ocasionais acabam tornando não apenas a narrativa mais simples, mas limitando o gameplay. Enquanto Kingdom Hearts 2 te colocava muitas vezes para brigar com antagonistas da Disney e da própria história do game, o novo jogo não traz tantas lutas com rostos conhecidos, que são substituídos por inimigos convencionais maiores e mais trabalhados, mas sem carisma. Isso acaba deixando um gosto de que alguns aspectos podiam ser melhor aproveitados, principalmente na parte final do game.

Quem é fã de Final Fantasy também pode sentir falta de personagens da franquia, que não estão presentes em Kingdom Hearts 3. Nem mesmo Sephiroth, que ganhou o coração de muitos jogadores por ser um boss secreto bem desafiador, fez uma pontinha no novo game. Ainda assim, Nomura aproveitou o título para fazer referências a Versus XIII e até, de certa forma, dar umas alfinetadas em FFXV, o que me deixa curioso para saber o que ele planeja para o futuro de Sora e companhia.

Gameplay

Tirando os personagens da Disney, a principal arma da franquia para trazer novos jogadores é seu gameplay, e isso não muda na nova entrada da série. Kingdom Hearts 3 é um Megazord de jogabilidade e traz um compilado das mecânicas mais bem sucedidas dos títulos anteriores da série, além de novidades que deixam as lutas mais simples, mas espetaculares. Entres as grandes novidades, um dos destaques são os ataques de Shotlock, que permitem focar nos inimigos para realizar ataques precisos, e um novo sistema de combos, ambos trazidos de Birth By Sleep.

Na movimentação, a principal novidade é o Flowmotion, que reúne um conjunto de ações rápidas, similar ao que temos em Dream Drop Distance, e também a habilidade de correr em paredes. Além do aprimoramento de mecânicas já vistas, o novo jogo conta com duas grandes novidades para o combate: as transformações de keyblades e as atrações.

Agora, o jogador pode levar até três keyblades para a luta e cada chave possui pelo menos uma transformação especial. A Square Enix teve bastante cuidado nessa parte e cada chave traz seu próprio estilo, o que torna o uso das armas mais tático não apenas pelos seus atributos de força e magia, mas pela nova forma que conseguem assumir. 

E também temos as Attractions. Eu até agora estou procurando um gancho decente para a adição da mecânica de Atrações em Kingdom Hearts 3, e a melhor explicação que eu encontrei é o fato da Disney ser a magnata dos parques de diversão. Os ataques especiais do tipo invocam um carrossel, nave, montanha-russa e afins para matar os inimigos. Além de ser um espetáculo visual, a novidade funciona muito bem em combates, mas pode irritar pelo excesso de animações (que felizmente pode ser desligado) e os movimentos exacerbados na câmera. Além disso, a novidade vem acompanhada de uma grande quebra no crescimento do personagem.

Mesmo com a história de Kingdom Hearts 3 trazendo Sora fraco em seu início, o personagem começa já sabendo fazer todas as atrações, o que acaba tirando um pouco da magia da progressão que víamos nos jogos anteriores da série. Os Links, que permitem fazer invocações especiais, também estão mais fáceis de serem utilizados e a Rage Form, uma transformação muito forte, pode ser acessada cada vez que você toma uma surra. Com isso, fica claro que, no combate arroz com feijão, o objetivo principal da Square Enix era deixar tudo lindo e chamativo, algo que deu certo, mas exigiu alguns sacrifícios. 

Por outro lado, as magias receberam melhorias visuais e também no gameplay, ficando mais integradas ao ambiente em que são utilizadas. O personagem pode pular mais alto usando Aero e esquiar usando Blizzard, além de queimar a bunda após um inimigo utilizar fogo. Sora também consegue conjurar "grandes feitiços" após sequências de ataques bem sucedidos. 

Os tradicionais combos com membros da equipe também estão presentes em todos os mundos e um ponto que merece ênfase são as novas interações com Pateta e Donald, que não só tornam a jogabilidade mais atraente, mas também servem para mostrar a união do trio de protagonistas. Neste aspecto, a principal decepção fica na parte final do jogo, que podia aproveitar muito mais a mecânica, mas infelizmente acaba deixando a desejar. Falando em participação da equipe, em alguns momentos esparsos de Kingdom Hearts 3 é possível jogar com outros portadores de keyblades, mas sem muito aprofundamento e de forma breve, o que acaba tornando uma sequência que podia ser memorável em apenas mais um momento de gameplay para agradar os fãs.

Quando o assunto é dificuldade, Kingdom Hearts 3 também não é um Dark Souls, algo de se esperar em um game recheado de personagens da Disney. Ainda assim, a Square Enix adicionou opções interessantes para deixar o gameplay extremamente desafiador, como é o caso de uma habilidade que, quanto ativada, não deixa o personagem ganhar pontos de experiência. O título também traz elementos básicos de um RPG, mas é bem simples de ser entendido e, como tem uma pegada mais voltada para a ação, pode funcionar como uma ótima "porta de entrada" para o gênero. A inteligência artificial da equipe também está aprimorada e o menu ganhou opções que permitem escolher as ações de cada membro da party. Nelas, você pode obrigar o Donald a curar apenas o Sora em momentos de emergência, por exemplo, uma ótima adição para quem já morreu muitas vezes pela falta de atenção do pato em jogos anteriores.

Em Kingdom Hearts 3, a Square Enix focou em deixar o gameplay bonito visualmente

Felizmente, a desenvolvedora investiu bastante em outro ponto da jogabilidade da franquia: a diversidade de gameplay. Além de trazer especiais que tornam até mesmo a batalha mais simples num show, Kingdom Hearts 3 possui diferentes mini-games e modos de jogo em cada mundo. Enquanto em Piratas do Caribe você participa de batalhas navais, o mundo de Toy Box te coloca para brigar em robôs de brinquedo, e por aí vai. Uma das novidades mais divertidas e atreladas à jogabilidade geral é a cozinha do mini-chef: para ganhar atributos extras temporariamente, você pode cozinhar refeições junto com o ratinho de Ratattouille, utilizando ingredientes encontrados pelos mundos onde você passa. 

Outro ponto que merece destaque é o polêmico gameplay da Gummi Ship, a tradicional navinha de Kingdom Hearts. No novo jogo, as galáxias estão mais abertas e o jogador pode sair para explorar e buscar recursos, que podem ser úteis para sintetizar itens, melhorar a nave e aprimorar keyblades. Os combates também estão mais opcionais, para a alegria de quem não é muito fã de ficar enfrentando os heartless espaciais. Você também pode colocar cães de pelúcia para enfeitar a nave, o que é muito fofo.

A adição do Gummiphone também é muito bem vinda e se destaca pela presença do Classic Kingdom, uma série de mini-games com jogos antigos e visual retrô, um toque nostálgico que vai agradar os fãs da Disney. O "smartphone" traz um modo foto que está atrelado ao gameplay, gera momentos divertidos e permite tirar proveito do ponto alto do game: os belos gráficos e paisagens.

Durante minhas 40 horas com o game até agora, me senti satisfeito com tudo que joguei, mas sinto que ainda tenho muito o que explorar dentro do game, ao mesmo tempo que vejo portas para a chegada de mais conteúdos. No passado, a Square Enix lançava versões Remix de seus jogos trazendo adicionais no gameplay, algo que possivelmente vai ser transformado em um DLC pago em Kingdom Hearts 3.

Gráficos e Som

Depois de tanta demora, atrasos e até uma troca de engine, era de se esperar que os gráficos de Kingdom Hearts 3 fossem bonitos, e a Square Enix conseguiu alcançar um visual incrível para o game. A transição para um estilo tridimensional funcionou perfeitamente graças a adoção de mundos baseados em filmes da Pixar e animações mais modernas dos estúdios da Disney.

Além de recriar com perfeição personagens e cenas presentes nos filmes, o jogo também funciona como uma extensão para as histórias, pois permite mergulhar nesses universos e vivenciá-los de forma mais imersiva. Você praticamente vê animações que fizeram parte da infância de muita gente ganhando vida novamente. Para quem cresceu assistindo filmes como Monstros S.A. e Toy Story, passear ao lado de Buu e lutar contra heartless junto com Woody e Buzzlighter é uma experiência sensacional.

Além disso, os locais baseados em animações recentes também impressionam pelo visual. O mundo de Enrolados é um deslumbre com seus campos verdes floridos. Até Piratas do Caribe, que de vez em quando cai no uncanny valley com seus personagens humanos, conta com belos ambientes abertos. Vale destacar, também, que as zonas urbanas estão mais vivas em comparação ao Kingdom Hearts 2, trazendo pessoas, ambientes maiores e mais formas de interação.

Jogar Kingdom Hearts 3 é como estar dentro das animações da Disney

Em alguns momentos, também é perceptível que Kingdom Hearts 3 já exige demais dos consoles atuais. De vez em quando, o PS4 sofre para rodar todos os efeitos de batalha em ambientes mais abertos, mas, no geral, isso não compromete a experiência com o jogo, mas é interessante vermos como a geração está mesmo chegando ao fim. Não tive a oportunidade de experimentar o título em videogames como o PS4 Pro e o Xbox One X, mas ouvi relatos de que a experiência está mais fluida.

Na parte de trilha sonora, Kingdom Hearts 3 brilha com suas faixas originais e também nas músicas trazidas dos filmes da Disney, que são recriadas com fidelidade no caso de produções como Frozen. Até mesmo a música eletrônica que é tema do game, feita por Utada Hikaru e Skrillex, ganha um peso extra após a jogatina, pois representa muito bem a vibe do título: uma alta dose de nostalgia para os fãs, mas com toques de modernidade.

Quando o assunto é atuação de voz, Kingdom Hearts 3 traz um dos elencos mais notáveis e experientes no assunto, afinal, boa parte das vozes é feita por dubladores experientes e conhecidos por atuarem nas animações da Disney. Graças à participação da dona do Mickey, a lista de artistas que participaram do jogo é invejável, o que garante qualidade na dublagem de personagens originais e também oriundos de obras do estúdio.

O ponto negativo nesse aspecto é que a localização não se estendeu ao nosso idioma e Kingdom Hearts 3 não traz vozes nem legendas em português brasileiro. Apesar de ser bom não ter o Luciano Huck dublando o personagem Flynn Rider, a falta de textos em português é um grande impeditivo para jogadores sem experiência em inglês entenderem a complexa história do jogo. Isso acaba criando uma barreira que dificulta a entrada da franquia no nosso país, que é o maior mercado de games da América Latina. 

No final das contas, a história de Kingdom Hearts 3 sofre do mal que mais faz bem à franquia: a complexidade da cabeça de Tetsuya Nomura, que entrega uma narrativa confusa, mas ao mesmo tempo apaixonante. Ainda assim, o jogo cumpre o papel de encerrar a saga de Xehanort e deixa as pontas soltas certas para uma continuação. Também existem problemas menores de roteiro e o gameplay deixa aberturas de que poderia ser mais rebuscado no final, mas são apenas detalhes em uma obra que surpreende visualmente e com a jogabilidade. A principal mancada da Square Enix foi ter deixado as legendas em português de fora, algo que pode afastar muitos jogadores brasileiros desse jogo extremamente divertido.

Kingdom Hearts 3 pode ser um game desafiador se você quiser, mas seu principal objetivo é entregar um gameplay divertido e bonito, com uma grande quantidade de conteúdo e mundos cheios de segredos para serem explorados. Além de contemplar aspectos que os fãs da franquia curtem, a nova pegada gráfica transforma o jogo em um "filme da Pixar jogável", tornando a experiência bastante nostálgica.

Minha primeira experiência com a franquia rolou com Kingdom Hearts 2 e aconteceu quando eu estava na quinta série do ensino fundamental, numa época em que eu mal entendia a história original do jogo, mas me apaixonei pelo gameplay e os crossovers trazidos pelo título. Hoje, mais de 10 anos depois, jogo Kingdom Hearts 3 sendo um adulto formado em Jornalismo e que paga contas. Assim como eu, os jogadores cresceram e hoje trabalham, tem filhos, uma nova rotina. Felizmente, a franquia de Nomura envelheceu muito bem e está preparada para suprir não só a galera das antigas, mas uma nova geração de gamers que já está entre nós.

Para quem é fã old school da história de Sora e seus amigos, Kingdom Hearts 3 traz a jogabilidade e o carisma necessários para ser a porta de entrada no mundo dos games para filhos (as) e cônjuges. Além disso, é o pré-requisito para uma nova fase da franquia que, ao que tudo indica, será ainda mais grandiosa e, possivelmente, simples de ser acompanhada. Enquanto não temos novidades sobre futuros jogos ou conteúdos, a dica para os novatos que estão sedentos por mais conteúdo da franquia é conhecer Kingdom Hearts 2, que, na opinião desse crítico, continua sendo um dos melhores jogos já feitos pela Square Enix. 

Conclusão

 

Avaliação: ANÁLISE: Kingdom Hearts 3

História
8,5
Jogabilidade
9,0
Gráficos
10
Áudio
10

PRÓS
Excelentes gráficos
Combate simples, bonito e que funciona
Gameplay diversificado
Gráficos de qualidade
Histórias originais em mundos Disney
Altas doses de nostalgia
Mundos maiores e mais vivos
Boa porta para quem está chegando agora na franquia
Você pode obrigar o Donald a curar apenas você
CONTRAS
Não possui legendas em português
Algumas soluções rasas de roteiro que quebram o clima
Podia ter mais chefões famosos, né Square Enix?! 
  • Redator: Mateus Mognon

    Mateus Mognon

    Mateus Mognon é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vencedor do prêmio SET Universitário na Categoria Reportagem Digital, atua nos sites do grupo Adrenaline desde 2014. Atualmente, colabora para os veículos com notícias, análises e artigos envolvendo tecnologia e games.