ANÁLISE: Just Cause 4

Game mostra que até explosões e caos podem se tornar tediosos

Just Cause 4 leva Rico Rodriguez para um novo país dominado por uma figura autoritária com um povo oprimido, para que o especialista em explosões cause novamente caos o suficiente para derrubar o governo e libertar a população - que vai ter muita reconstrução para fazer. O diferencial da vez são (ou deveria ser) as condições climáticas que assolam a região, como tornados e tempestades de raios e de areia. Será que o herói está pronto para enfrentar mais um exército, o clima e os bugs, tudo ao mesmo tempo? Veremos na review a seguir.

História e Ambientação

É verdade que ninguém joga Just Cause 4 pela história, mas isso também não significa que a Avalanche Studios não precisava nem tentar. Oscar Espinosa, o vilão do jogo, passa mais tempo sumido do que os vilões de Far Cry, fazendo apenas uma aparição no começo e em algum momento em um flashback. Sua presença não é sentida ao longo do jogo, que espera que você o odeie por suas atrocidades, mas que lhe faz passar a maior parte do jogo até se esquecendo que ele existe. E claro, em suas pequenas aparições, temos apenas mais um líder inescrupuloso que quer dinheiro, nada demais.

A história em Just Cause nunca foi destaque, mas no 4 está ainda mais fraca

Rico Rodriguez, nosso protagonista, até que tem um carisma próprio interessante. É divertido ver como esse especialista em explosões e destruição consegue ser calmo e até suave em seus diálogos, e o dublador faz um excelente trabalho para ajudar. Já os outros NPCs não têm nada de especial para acrescentar e é especialmente ruim a tentativa forçada de distorcer o personagem de Sheldon pra transformar ele numa espécie de figura paterna nesse jogo. Aliás, toda tentativa de tornar a narrativa mais pessoal para Rodriguez em Just Cause 4 parece forçada e destoa, ainda mais para quem jogou Just Cause 3, que se passava em Medici, país natal de Rodriguez. Nunca haverá uma experiência mais pessoal na vida do personagem do que foi aquela, então fica até feio tentar.

Jogabilidade

Claro quer é a jogabilidade o principal destaque em qualquer game da série Just Cause. Dê ao jogador lugares para destruir e as ferramentas para isso e o deixe se divertir. Mas até nisso Just Cause 4 não se sai muito bem. O mapa é bem grande, com cenários bastante variados, mas que não são devidamente preenchidos com atividades. No fim, você só fica planando pra lá e pra cá, atrás do que fazer. 

Em jogos passados, as bases eram liberadas destruindo todos os objetos requisitados, geralmente marcados em vermelho. Então, quando o jogador estava se deslocando ele podia sempre fazer um desvio rápido pra explodir algumas coisas no caminho. Agora as bases são liberadas em missões específicas, tornando o deslocamento no jogo um tanto tedioso e fazendo o jogador querer evitá-lo sempre que possível.

Alguns aspectos no gameplay foram melhor polidos e tiraram alguns obstáculos bobos do caminho em relação ao jogo anterior, principalmente no que se refere aos menus. As entregas e viagens rápidas estão bem mais fáceis e agora você conta com um menu especial para o gancho. É possível criar três diferentes composições, com uma boa variedade de opções de comportamento no gancho. Você escolhe, por exemplo, se quer que o gancho se puxe, vire um balão ou um propulsor, e dá pra usar qualquer uma dessas modificações junto com a outra, além de configurações específicas para cada uma.

As composições do gancho e condições climáticas são ótimas novidades, mas mal aproveitadas

Toda essa nova variedade no gancho é muito bem-vinda, mas acaba sendo subutilizada. Seria interessante se o jogo oferecesse desafios durante as missões que obrigassem o jogador a brincar com essas composições, para vencer diferentes veículos blindados, por exemplo. Mas dá pra jogar do início ao fim sem nenhuma dificuldade usando apenas o gancho de retração, o primeiro que você libera. No fim essas composições servem apenas para quem quer inventar jeitos mais malucos de destruir as coisas, o que também é divertido, mas seria melhor um incentivo maior pra fazer isso.

E a ideia de trocar a mecânica de ficar destruindo as bases por missões específicas faz sentido no ponto de vista de trazer variedade, já que estamos no quarto jogo da série. Mas, na prática, as missões se repetem muito e consistem, na maior parte, em ficar de guarda de um local que está sendo hackeado ou procurar botões ou geradores para destruir. E só.

As variações climáticas, bastante destacadas na divulgação de Just Cause 4, realmente teriam trazido um interessante diferencial para o jogo. Mas elas são raras e aparecem mais em missões específicas. Realmente é muito divertido perseguir um tornado que consegue te puxar e jogar pra longe ou perder toda a visibilidade em uma tempestade de areia. O problema é que só experienciei esses acontecimentos muito raros durante todo o gameplay. A exceção é uma arma específica que faz cair raios nos inimigos, que aliás virou instantaneamente minha preferida. 

No fim, por mais que fosse algo "batido", a mecânica de voar pra lá e pra cá explodindo um mundo de coisas faz falta.

Gráficos

Os gráficos desse jogo são bem complicados. Jogamos a versão de PC para review, onde o jogo rodou em mais de 60fps sem dificuldade e sem longas telas de loading logo em seu lançamento, o que já lhe colocaria na vantagem em relação ao título anterior. Mas não é o caso, porque os gráficos deste game são bem mais feios do que antes, chegando ao ponto dos personagens ficarem esquisitos quando vistos de perto em cutscenes. Isso sem contar NPCs que sejam coadjuvantes, como os inimigos ou membros aleatórios da resistência, que parecem bonecos mal animados.

E, ao mesmo tempo, às vezes temos bonitas paisagens, com ótimos efeitos de explosão e um belo uso de partículas. O jogo chega a parecer bonito durante uma tempestade de raios e empolga, mas aí você cai na água e tudo fica de um azul bizarro e a luz não faz ideia de como se comportar. Resumindo, dá pra notar um certo amadorismo nos gráficos do game.

Texturas feias nos personagens e muitos bugs

Isso sem mencionar os bugs, que acontecem constantemente. A maioria não chega a atrapalhar o gameplay e é até engraçado, como chegou a aparecer até no nosso gameplay. Mas em alguns casos o game chega a dar crash e fechar, o que pode lhe fazer perder progresso da missão. Aconteceu comigo ao menos duas vezes de perder progresso e outras tantas que acabei não perdendo nada, além de tempo e paciência.

Áudio

O trabalho de áudio de Just Cause 4 é competente. As dublagens são muito boas, especialmente em inglês, e o jogo é localizado em português, o que é sempre uma vantagem. Os efeitos sonoros são um pouco limitados, no entanto. Muitas armas têm o som muito parecido, bem como os veículos, e seria interessante mais faixas de áudio para os inimigos não se repetirem tanto quando os enfrentamos. Outro cuidado que faltou foi o "timing", principalmente com os helicópteros. Diversas vezes a faixa de som dizendo "estamos caindo" ou "estamos sendo atacados" aparecia depois do helicóptero já ter explodido, o que chega a ser engraçado.

A trilha sonora do jogo é interessante mencionar. As músicas originais são satisfatórias, mas o game conta também com uma seleção bem interessantes de músicas para o rádio. Só que o rádio só toca em veículos, como seria de se esperar. Porém, devido à mecânica do game, raramente você usa um veículo em Just Cause 4 e essas músicas ficam um tanto desperdiçadas. Seria interessante se desse pra tocar o rádio fora dos veículos também, no aparelho de comunicação que Rico está usando o tempo todo, por exemplo.

Just Cause 4 é uma excelente maneira de mostrar que a série devia ter parado no 3. A história não se sustenta e o gameplay, apesar de ainda ser divertido, não chega a ser melhor que o anterior nem traz inovações suficientes para se justificar. Já os gráficos representam até uma passo para trás na franquia, tornando ainda mais evidente uma sensação de "por que eu estou jogando isso?" ao longo de todo o game.

As composições do gancho e o clima adverso teriam sido excelentes acréscimos para a franquia se fossem mais expressivos ao longo do gameplay, mas, como está, dá até pra esquecer desses elementos durante a jogatina.

Eu recomendaria Just Cause 4 somente para quem realmente é fã da série e ainda não teve o suficiente jogando todo o conteúdo do 3. Pro pessoal que só quer explodir mais algumas coisas, eu diria para pegar algum DLC do 3 mesmo ou esperar uma promoção bastante relevante no 4.

Conclusão

 

Avaliação: Just Cause 4

História
6.0
Jogabilidade
8.0
Gráficos
6.5
Áudio
8.0

PRÓS
Variedade nas composições do gancho
Missões com variações climáticas são divertidas
Trilha sonora do rádio variada e bem localizada
Boa dublagem, com opção PT-BR
CONTRA
Gráficos feios sem qualidade consistente
História ruim com personagens esquecíveis
Missões repetitivas e tediosas
Bugs
  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.