ANÁLISE: Fallout 76

É, ele é ruim

A essa altura, falar de Fallout 76 é tipo chegar tarde em uma briga e chutar uma pessoa já caída. Fallout 76 é o possivelmente o lançamento na indústria de games com a pior repercussão do ano, capaz de fazer No Man's Sky parecer um mico menor e até Diablo Immortal ganhou uma folga. Até na nossa enquete de final de ano não houve muito amor para o jogo:

Adrena Awards - Pior jogo do ano

Fallout 76
56.34%
Metal Gear Survive
22.25%
The Quiet Man
18.5%
New Gundam Breaker
1.66%
Extinction
1.25%

Total de 481 votos

Nessa análise vou tentar trazer minhas impressões sobre o jogo, falando um pouco de como chegamos a esse desastre para  Bethesda, o que eu achei e até um possível futuro na wasteland. Porque como diz o ditado, tudo serve para algo. Nem que seja como mau exemplo.

Pré-guerra

Fallout 76 é um jogo multijogador online no estilo RPG de ação, que pode ser jogado tanto em primeira pessoa quanto em terceira, no estilo FPS, com armas corpo-a-corpo ou um híbrido de ambos. Ele se passa na Virgínia Ocidental e vários anos antes de outros games da série. Ao ser anunciado, ele já trazia uma grande novidade: esse é o primeiro jogo totalmente online da série, o que trouxe ceticismo imediato dos fãs mais conservadores, já que Fallout já havia se consolidado como uma profunda experiência single-player.

Tentando apaziguar esses ânimos, a Bethesda amenizou de duas formas: primeira foi colocando o jogo com um status de spin-off, não anunciando como um Fallout 5, por exemplo, e garantindo que seria possível jogá-lo sozinho, apesar do aviso que a experiência havia sido pensada para o gameplay com outros jogadores.

Aqui também acho legal destacar que dei o benefício da dúvida para a proposta. Um jogo no estilo survivor parece fazer sentido dentro da proposta do Fallout, um franquia que se passa em uma terra bastante alterada após conflitos nucleares remexerem com a fauna, a flora e toda a estrutura da civilização humana. Colocar os jogadores nesse ambiente inóspito e tornar online para que todo humano tentando sobreviver que você encontrar seja também outro jogador, faz sentido. Ou pelo menos merecia o benéfico da dúvida.

Precipitação radioativa

Basta começar a jogar para se deparar com muitos problemas. Os gráficos não são convincentes, e aparentam até mesmo alguns regresso comparado ao Fallout 4. Mas o pior está por vir, e quase sempre não demora a dar as caras: esse jogo buga muito, e com uma consistência abissal. Praticamente todas as vezes que joguei, algo estranho aconteceu.

Fallout e especialmente a Bethesda já tem bugs como uma marca característica de seus games, e não gosto de crucificar games, especialmente os de mundo aberto, porque alguma coisa saiu do controle. Porém Fallout 76 apresentou problemas que nem para dar uma boa risada servem, pelo contrário, tornaram inviável jogar. Em uma partida, o jogo não carregou minha missões, e após fechar e abrir novamente, carregou apenas as secundárias. Em outro momento, ao entrar na power armor, a animação travou e vários segundo depois eu fiquei sem a armadura (simplesmente desapareceu) e com a câmera fora de posição, tornando impossível usar o pipboy ou mesmo interagir com objetos. Eu tive que sair e entrar novamente no jogo um número bem maior que o aceitável para corrigir esse tipo de problema.

Outro fator que agrava os problemas é a conexão constante. Apesar de geralmente levar pouco segundos para achar um servidor, não foram raras as vezes que a conectividade oscilou e fez com que meus comandos ficassem imóveis até ser restabelecida ou, o mais comum, fechar na minha cara. Essa instabilidade é tão notável que eu literalmente encerrei algumas sessões de gameplay quando travava. Sim, o "vou jogar até subir para o nível XX" foi substituído por um "vou jogar até a próxima vez que o servidor me derrubar".

Colocar outros gamers no mesmo mapa poderia ter criado novas narrativas e modos interessantes, mas na prática isso raramente acontece. A quantidade de jogadores por mapa é muito baixa, e você fica a grande maioria do tempo cruzando a Virgínia sozinho, se não o fizer um grupo com amigos. Em uma das raras interações com estranhos, conseguimos defender uma base de um ataque de queimados, em um dos poucos momentos em que transformar o game em algo online pareceu fazer sentido. Por mais que a conexão com os "mundos" seja rápida, prometer que o jogador teria uma experiência que nem perceberia que existe um servidor foi um bela mentira contada em pleno palco da E3. É algo que nunca pode ser prometido, e que as vezes pode ser até culpa da própria conexão do usuário. Mas cada vez que eu era chutado pra fora de uma partida, via que o servidor existe sim, e que ele pode ser cruel.

Em geral o multijogador pode ser definido com a palavra marasmo, em partes relacionado a baixa densidade de players. Além de muito espalhados em um mapa amplo, as diferenças de níveis que encontrei muitas vezes fizeram tornar desinteressante o encontro com os demais jogadores do meu servidor, afinal a disparidade fazia sem sentido se unir para realizar missões juntos. Em raras ocasiões encontrei pessoas em pleno combate, ou mesmo voltei a tentar uma missão que havia falhado anteriormente, porque mais pessoas apareceram e nos unimos. Além de jogar com amigos, essas interações são os momentos que parece fazer sentido a opção por ser um game online, mas isso acontece com uma frequência tão baixa que acabei jogando sozinho a maior parte do tempo.

O multiplayer também falhou em ser interessante. Além do óbvio esquema de jogar com os amigos cooperativamente explorando a wasteland, e é o ponto alto do online, o PvP não traz incentivos suficientes para valer a pena o esforço. A Bethesda preferiu o caminho seguro, com o combate acontecendo apenas quando o segundo jogador atira de volta para o dano começar a acontecer na escala total. Se por um lado isso coloca sob controle os jogadores abusivos, que atacariam indiscriminadamente qualquer um no mapa, também tirou qualquer possível tensão no encontro entre dois jogadores desconhecidos. Se não atirar de volta, podem dar um headshot com rifle laser e sua vida mal vai se mexer. A Bethesda poderia ao menos ter criado áreas onde isso não acontece, para adicionar mais essa camada de emoção na exploração do mapa. Além dos monstros, queimados e toda sorte de aberração que você pode encontrar no caminho, o temor de um ataque de outra pessoa poderia trazer mais algo interessante para o jogo.


Eu já sou míope e a Bethesda dificulta ainda mais

Com poucos jogadores para interagir, eles não cobriram um espaço que ficou vago: os NPCs. Além de uma história bastante desenvolvida, Fallout costuma acompanhar personagens carismáticos e marcantes, e tirá-los para supostamente substituir por outros gamers não deu certo. As missões ainda existem, mas são constantemente repassadas por gravações de pessoas que você nunca vê, ou na melhor das hipóteses são oferecidas por um robô que a maior parte do tempo tem a mesma animação ou é tão memorável quanto um pedaço de mobília. Resolver problemas de pessoas que nem parecem existir nesse mundo tiram bastante da motivação do jogador a continuar brigando com as bizarras criaturas que habitam esse mundo.

Para piorar tudo, a loja dentro do game só adiciona ofensa à injúria. Um jogo de preço cobrando por um monte de bugigangas estéticas até poderia passar batido em um jogo excelente, mas com tanta coisa dando errado, acaba formando uma sinergia.

A terra arrasada

Em meio a tantos problemas no game e tantos desastres adicionais paralelos, que incluem micos com a edição de colecionador, vazamentos de dados dos jogadores e um péssimo gerenciamento de crise, por incrível que possa parecer há coisas que gosto no jogo. A "vibe" futuro do pretérito está excelente, desde o mapa que é enorme e divertido de ser explorado, os equipamentos com jeitão de gambiarra e especialmente as trilhas sonoras, como podem ouvir várias por aqui. Chegar a uma nova localidade e descobrir qual a próxima mutação radioativa que vai me agredir é uma das coisas mais legais de fazer em Fallout 76. Se armar com equipamentos potentes, encarar criaturas gigantes e especialmente sobreviver a apoteose que são as explosões nucleares, e a enxurrada de monstruosidades que surgem dela, são alguns pontos alto desse jogo. É uma pena que haja longos períodos de puro tédio para chegar nisso.

Nem tudo deu errado nesse jogo. Um dos destaques foi a nova forma de evoluir o personagem. Feito em um estilo de jogo de cartas, com cada novo nível trazendo um novo pacote com novas opções a serem usadas e reorganizada a qualquer momento, esse esquema dá mais versatilidade de inclusive variar os upgrades em uso, e me agradou muito mais que o usado em Fallout 4. 

Há uma boa quantidade de coisas para desenvolver, seja fazendo novas armas e armaduras, modificando seu funcionamento ou fazendo consertos nos equipamentos que você se apegou e faz questão de manter. Juntar todo tipo de tralha tem potencial de agradar quem gosta de gerenciar um inventário para criar aquela arma com extra dano, ou se munir de muita comida antes de partir em uma expedição. Particularmente, o jogo chegou em um estágio que estava cansativo gerenciar tanta tralha, e em partes até ficava feliz ao morrer porque todos os itens menos relevantes são perdidos. Armas, munição e itens essenciais como comidas preparadas, itens de cura e de limpeza de radiação seguem com o jogador, algo que acaba até tirando bastante do impacto de morrer no jogo.

O jogo traz uma sensação de que tem uma fundação inicial e que até  poderia funcionar, mas primeiro vai ser preciso fazer muitas correções. Eu não duvido que seja viável recomendar esse jogo no futuro, mas no momento atual, o que temos aqui não é nem de longe um jogo que deva ser comprado, especialmente pelo seu alto valor. A Bethesda não é uma novata e as mecânicas que inclui nesse game não sem nem um pouco inovadoras, já que basta ter jogado Fallout 4 para estar familiarizado com a maioria dos conceitos que estão presentes aqui, então não há justificativas para ver esse jogo chegar nesse estado aos gamers.

Na melhor das hipóteses, dá para pegar esse jogo para explorar a Virgínia com amigos quando ele ficar mais barato. Esperando por esse dia, quem sabe a Bethesda termine de consertar os problemas e entreguem o jogo como deveria ter sido desde o princípio.

Conclusão

 

Avaliação: Fallout 76

Historia
7.0
Jogabilidade
6.0
Graficos
7.0
Audio
9.0
Multiplayer
5.0

PRÓS
Mapa amplo e interessante
Mecânica de criação de itens complexa
Nova forma de evoluir o personagem ficou ótima
Diversas criaturas para encontrar e enfrentar
CONTRA
Poucos jogadores no mapa torna a experiência muito solitária
PvP desinteressante
Gravações e mais gravações de áudio tornam as missões entediantes
Quantidade inaceitável de bugs
  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego colabora com a Adrenaline na produção de notícias e artigos na coluna "Vida Digital".