ANÁLISE: Gamdias Hermes P2 RGB

O único teclado que não funciona sem o RGB

Você já viu colocarem RGB em cadeiras. Você já viu colocarem RGB em celulares. Agora, chegou a vez do RGB ser usado não apenas para iluminar as teclas de um teclado, mas também para registrar quando você as pressiona.

Na última semana realizamos a análise do Sharkoon SGK1. Agora, faremos a análise de uma variante "mais completa" vendida por outra empresa, o Gamdias Hermes P2 RGB.

O Gamdias Hermes P2 RGB em si parece ser uma versão com poucas modificações do Togran TK-556, que foi usado como teclado "base" para criação deste modelo. A real fabricante deste teclado é a Togran.

O grande diferencial do Gamdias Hermes P2 RGB em comparação com outros teclados que analisamos até agora no Adrenaline, é que ele possui switches ópticos, que prometem resolver vários dos problemas de teclados mecânicos, proporcionar uma maior durabilidade e também uma resposta mais rápida.

Será mesmo? Veremos.

Construção Externa

Como pode ser visto a quilômetros de distância, o Gamdias Hermes P2 RGB é um teclado grande. GRANDE. G R A N D E.

Medindo 45,8 x 22cm, não há formas de reduzir o tamanho do Gamdias Hermes P2 RGB sem abri-lo, o apoio para punho não é removível e não há o que fazer sobre a parte superior dele.

Este é um grande ponto negativo, não é um teclado que ficará adequado em qualquer mesa/setup, embora algumas pessoas podem acabar gostando dele justamente pelo seu design diferenciado e seu tamanho, é um teclado bastante "imponente". Já outros podem odiá-lo por isso.

O Gamdias Hermes P2 RGB é um teclado com a backplate (placa de suporte) exposta, feita em alumínio, o qual é combinado a uma carcaça inferior em plástico, a qual dá a impressão de todo o acabamento ser em alumínio, quando na verdade boa parte dele não é.


Na esquerda: Sharkoon SGK1 desmontado. Na direita: Gamdias Hermes P2 RGB

O Gamdias Hermes P2 RGB possui um descanso para punho embutido, que não é removível. Sobre esta questão, há pessoas que não gostam de apoios, e até há estudos que indicam que eles não ajudam como se propõe. Já para pessoas que gostam de apoios para punho, infelizmente o do Gamdias Hermes P2 RGB não é muito confortável, pois é curto demais e muito baixo, então não consigo ver ele como uma vantagem sobre concorrentes.

No verso do teclado encontramos pequenos buracos de drenagem, alguns pés de borracha para manter o teclado no lugar e também pés de ajuste emborrachados.

Curiosamente o Gamdias Hermes P2 RGB "deve" apresentar um certo nível de resistência a líquidos, pois não há recortes em sua backplate, os estabilizadores ficam montados na backplate e suas soldas estão cobertas por uma resina, mas a empresa não fez nenhuma certificação quanto a isto, possivelmente pelo fato das frestas dos switches Co-Gain não serem seladas para permitir que sejam removíveis.

Se ele usasse switches como o LK Libra (óptico) ou Kailh Box (mecânico), ele seria realmente resistente a líquidos. Também, "resistente a líquidos" não quer dizer "à prova de líquidos".

As keycaps do Gamdias Hermes P2 RGB são feitas em plástico ABS com impressão Laser, as inscrições são bastante "quadradas" e focadas no topo, para que fiquem bem iluminadas. Elas possuem um visual "Gamer", mas não chega ser tão exagerado quanto alguns concorrentes, ainda há alguma legibilidade.

A princípio a impressão delas não parece ser boa, a tinta é extremamente fina e ao tato parece frágil em comparação com outros teclados. E os problemas que seus "irmãos" Sharkoon SGK1, SGK2 e SGK3 enfrentam com desgaste, também faz elas perderem confiabilidade.

Mas até o momento não vi nenhum caso na Internet quanto a desgaste deste teclado da Gamdias, apenas reclamações de outros reviewers que notaram que elas não são boas.

Enfim, a construção externa do Gamdias Hermes P2 RGB é caprichada, até um pouco mais em alguns detalhes que o Sharkoon SGK1, mas a qualidade do acabamento das keycaps realmente me assusta, especialmente para um teclado de sua faixa de preço.

Construção Interna

Conforme já fora dito no início do texto a OEM (a real fabricante) deste teclado é a Dongguan Togran e versões diferentes deste modelo são vendidas por várias marcas, Dare-U e Sharkoon sendo dois exemplos.

Abrir este (e outros teclados ópticos) é um pesadelo. Chegar até o verso da PCB é fácil, é o mesmo procedimento que o Sharkoon SGK1, só há um problema: não há nada lá. No verso do teclado há apenas os encaixes dos cabos e dos switches, os quais eu já havia removido a maioria ao tirar essas fotos. Os componentes estão no outro lado da placa.


Diversos switches de teclados ópticos não são soldados, apenas encaixados, mas há travas de plástico para impedir que saiam do lugar. A Gamdias inclui um removedor de keycaps que também remove os switches, mas além de ser ruim para utilizar, ele acabou quebrando após tentar remover apenas 3 switches:


Créditos da imagem para Benchmark Reviews

Ou seja, é hora de usar duas chaves de fenda para fazer isso:

E no final ter acesso à parte frontal da PCB:

Em questão de durabilidade, o switch da Co-Gain é uma gambiara. Mas, se olharmos para o quanto ele facilita a integração de switches ópticos no teclado, simplifica a PCB e reduz os custos, certamente é uma gambiarra genial.

Há apenas dois componentes em cada switch, o LED RGB e o sensor fotossensível, sendo mais simples que outros teclados ópticos. Aliás, é mais fácil produzir este teclado do que um teclado mecânico RGB comum.

Há poucos componentes soldados no teclado e as poucas soldas que existem estão cobertas por uma resina para aumentar a resistência delas contra efeitos do tempo, realmente muito caprichado.

Alguns anos atrás, Carter Salley, ex-engenheiro da Cooler Master, havia me dito que "Se uma empresa pagar bem, a OEM faz um serviço bem feito. Se pagar um preço barato, ela fará um serviço barato". E olhando o interior do Gamdias Hermes P2 RGB, ele estava com razão, pois é um teclado completamente diferente do Sharkoon SGK1.

Continuando, no coração do teclado e sendo responsável por gerenciar seus recursos, macros e iluminação, temos uma MCU chamada... Chamada... Uhh?!?

Parece que a fabricante da MCU decidiu não colocar o nome na controladora ou então a própria Togran apagou...

E no scroll de volume do teclado, temos um codificador mecânico da TTC, que é uma ótima marca para estas peças.

A construção interna do Gamdias Hermes P2 RGB é extremamente caprichada, com soldas bem feitas e cobertas por resina, ela é uma placa simplificada com menos componentes e menos possíveis pontos de falha. Se fosse apenas por ela, o teclado teria uma nota muito alta neste segmento da análise.

Só há um probleminha nela... Essa peça aqui, que possui o logotipo da Dare-U na frente e escrito "Co-Gain" na traseira.


Switches Ópticos Co-Gain

Agora chegamos ao grande diferencial deste teclado e a parte mais complicada dele.

A Gamdias chama este switch de "Gamdias Certified Optical Switches", mas a real fabricante deles é a Co-Gain Electronics e o nome oficial é "Optic Keyboard Switches" ou OKS Switch.

Primeiro, gostaria de explicar ao público o funcionamento de um switch óptico. Pensem naqueles "lasers de segurança" que são vistos em filmes, o funcionamento é basicamente o inverso disso:

Ao pressionar a tecla, uma peça desce liberando a luz para atravessar ao outro lado, entrando em contato com o sensor fotossensível e ativando a tecla. Simples.

Se você quiser entender mais sobre switches ópticos, recomendo ler este artigo: Teclados: o que são switches ópticos, como funcionam - e o que as empresas não explicam.

Ou seja, em todo e qualquer switch óptico, sempre haverá:

  1. Emissor de luz
  2. Sensor fotossensível (capaz de detectar a luz)

O que na verdade não é tão simples, são switches mecânicos que seu mouse e alguns teclados utilizam. Em switches mecânicos comuns, seja em teclados, mouses, eletrônicos ou o que for, há um efeito chamado "bounce", ocasionado pela flexibilidade do metal utilizado para a ativação. Este efeito pode variar de acordo com a qualidade dos materiais utilizados e também com o tempo e intensidade de uso.

Imaginem que exista um "trampolim" no interior de cada switch, e quando este trampolim começa a tremer demais após pular, seja por materiais de baixa qualidade ou pelo uso intenso, ele causa o "double-click".

Quando as "tremidas" após você pular se tornarem fortes demais, o "trampolim" pode pensar que você pulou duas ou mais vezes, quando na verdade pulou apenas uma. Este é o problema de "double-click".

Para evitar este problema, é aplicado um atraso chamado "debounce time", que ignora acionamentos durante um pequeno período de tempo (apenas alguns milissegundos). Todo switch mecânico tem isso.

Voltemos aos switches ópticos. Eles não utilizam peças que possam apresentar o "bounce", por isso são todos por natureza "à prova de double-click". Também, não é necessário o "debounce-time" nestes switches, então eles acabam sendo também "mais rápidos" em seu acionamento.

Pela sua simplicidade, é impossível ter o problema de "double-click" em switches ópticos


Sinal de um switch óptico na esquerda, sinal de um switch mecânico na direita

A simplicidade do switch óptico é o que permite que ele tenha estas vantagens. Também, por ser um sistema mais "encapsulado" que switches mecânicos comuns, eles também apresentam uma maior resistência contra poeira, e quando bem projetados e em conjunto com uma backplate especialmente projetada para isso, alguns também podem apresentar resistência contra líquidos.

Notem porém, que há switches mecânicos que também são capazes de ter estas resistências contra poeira e líquidos, os Kailh Box sendo um exemplo:

Mas calma, nem tudo são flores, especialmente no caso dos switches "Co-Gain" que o Gamdias Hermes P2 RGB utiliza.

O OKS Blue é um switch com resposta extremamente parecida com a Cherry MX Blue, mas switches ópticos são uma categoria, é possível fazer switches deste tipo com a mesma resposta que switches Red, Brown, Black ou outros switches do mercado.

O que vou dizer abaixo é um problema exclusivo dos switches ópticos da Co-Gain e não afetam switches de outras marcas.

Diferente de outros switches ópticos que utilizam LEDs infravermelhos dedicados para o sistema de ativação do switch, o Gamdias Hermes P2 RGB faz a pior decisão possível para um teclado deste tipo: ele usa os próprios LEDs RGB como parte do sistema de acionamento do switch.

O Gamdias Hermes P2 RGB depende da iluminação RGB para funcionar, e isso é péssimo


Crédito da imagem para Sven Killig @ Wikipedia.com

Funciona da seguinte forma, a luz do LED RGB é refletida no interior do switch através de um duto de luz, e ao pressionar a tecla, ela é "liberada" para o sensor, o qual acaba captando a luz. Por isto, não há como desligar a iluminação do teclado pois ele depende dela para funcionar, se você tentar desligar, ele vai ficar um branco bem fraco.



A imagem abaixo explica o funcionamento de um switch da Flaretech, o qual utiliza um LED infravermelho para esta tarefa. O switch Co-Gain nada mais é do que uma cópia inferior do Flaretech com algumas modificações.


Funcionamento de um switch da Flaretech

Só tem um único, somente um gigantesco problema nesta solução da Co-Gain:

LEDs RGB tendem a queimar

Se um dos espectros dos LEDs RGB deixar de funcionar (o que é o problema mais comum), a tecla com o LED queimado não vai funcionar se você selecionar esta cor. Se por exemplo, o azul deixar de funcionar na tecla CTRL, se você colocar a cor azul no teclado, esta tecla não vai funcionar.

Se ocorrer algum problema e uma das trilhas que alimentam os LEDs RGB deixar de funcionar, diga adeus para todas estas teclas. Não vai ter álcool isopropílico que salve o teclado.

O switch Co-Gain é uma tentativa de simplificar o switch óptico, e possivelmente também busca não infringir as patentes que a Light Strike (LK) e Adomax Flaretech possuem sob estes designs, já que nasceu da mistura das duas.

O complicado é que os dois maiores problemas que vejo em teclados mecânicos, especialmente os mais baratos, são justamente Double-Click e LEDs queimados. O switch da Co-Gain resolve um, mas piorou consideravelmente o outro.

Vejo o futuro de teclados ópticos com bons olhos, empresas como a Light Strike (LK) e Flaretech já demonstraram produtos de alta qualidade e designs interessantes, desde switches 100% resistentes a líquidos e poeira, e até capazes de detectar a pressão aplicada na tecla, mas a solução da Co-Gain é uma gambiarra.

Recursos e Extras

Não vamos alongar esta parte demais, o Gamdias Hermes P2 RGB possui três efeitos diferentes e 7 cores selecionáveis no modo hardware, além de diversos recursos multimídia. Um detalhe que não gostei, é que a tecla Windows foi substituída por FN e não há como desfazer isto.

Entendo que alguns jogadores podem pressionar esta tecla acidentalmente, mas muitas pessoas, além de não fazerem isso, utilizam esta tecla para atalhos. Faz sentido adicionar o recurso para desativar esta tecla (o que aliás, ele possui!), mas não faz sentido remover ou realocá-la.

Fora isto, o Gamdias Hermes P2 RGB também possui um controle de volume com uma excelente resposta. Para "mutar", basta apenas pressionar este scroll, ele também é um botão.

Chegamos então à aba principal do Gamdias Hermes P2 RGB, onde podemos configurar maioria de seus botões, com exceção de alguns que possuem funções especiais. É possível trocar a função, colocar macros e botões multimídia, exatamente o que se espera de um software assim.

O software do Gamdias Hermes P2 RGB possui um sistema de macros bastante simples, mas eficaz, sendo possível adicionar, editar e remover qualquer tecla e atraso. Não é muito fácil para novatos, mas nas mãos de quem já é experiente com estes sistemas, faz qualquer coisa.

Em seguida temos a iluminação. O estranho dele é que há uma quantia limitada de efeitos de iluminação e alguns são extremamente simples, mais do que um teclado desta faixa de preço costuma ser.

Claro, não acho que seja necessário todo teclado ter sistemas por onde o próprio usuário crie novos efeitos, mas quando ele custa na mesma faixa de preço que Corsair, Logitech e Razer, deveria ter um pouco mais.

O software da Gamdias possui um foco em um recurso que não é tão destacado ou nem está presente em muitos concorrentes: timers.

Você pode configurar um timer na tecla "3" para que assim que pressionar a tecla e o cooldown da magia/skill terminar, apareça um timer cinco segundos antes e o software toque o arquivo "gritodotarzan.wav" assim que terminar.

Também dá pra transformar o teclado em uma soundboard pra besteiras enquanto você joga, tocando sons quando você usar uma certa magia ou quando você apertar um número do numérico que você configurou para isso, o que pode ser interessante para streamers.

Agora, se este recurso será útil para você ou será apenas poluição visual/sonora, é algo que apenas você pode responder.

Enfim, o Hera é um software interessante, mas ao mesmo tempo decepciona um pouco por ter tão poucos efeitos de iluminação em um teclado tão caro.

Não é um software ruim de forma alguma, mas quando comparado com concorrentes como Corsair, Logitech e Razer, não há competição em termos de recursos e usabilidade, além destes concorrentes também possuírem SDK Aberto, permitindo a compatibilidade com o Aurora, o que aumenta ainda mais a lista de recursos que eles possuem, mas o Gamdias não.

O que empresas como a Gamdias deveriam fazer se não podem investir muito em software, é seguir o caminho da Cooler Master e deixar o SDK Aberto para que o próprio público adicione novos recursos. Aliás, mesmo se fizerem um bom software, SDK Aberto é o futuro.

Conclusão

 

Avaliação: Gamdias Hermes P2 RGB

Construção Externa
6,5
Construção Interna
6
Recursos e Extras
8
Preço - R$ 722
4

O Gamdias Hermes P2 RGB é um teclado que eu gostei bastante. Extremamente bonito e com uma boa gama de recursos via hardware, além de ter alguns recursos interessantes em seu software.

Mas, como reviewer, é necessário olhar além do que os olhos veem, é necessário analisar o interior, seus recursos, seu preço e seus concorrentes. E a situação não é nada boa.

O switch óptico Co-Gain é uma gambiarra. É uma mistura do switch da Flaretech com o LK Optical, tendo porém a péssima ideia de utilizar o próprio LED RGB como parte do switch. Só esqueceram de avisar que os dois problemas mais comuns em teclados mecânicos atualmente, são "double-click" e em seguida "LED RGB queimado". Resolveu um, piorou 100x o outro.

Adicionemos o preço de R$ 722 deste teclado e a casa cai.

Por mais que switches ópticos sejam interessantes não há razões para pagar valores como este apenas pelos switches, há alternativas com switches Cherry, Gateron, Kailh e Kailh Choc por valores mais em conta. E o próprio problema de "double-click" ocorre principalmente em teclados com switches de baixa qualidade e/ou é ocasionado por poeira, o que pode ser resolvido com um pouco de limpa contatos.

Enfim, é chato que o primeiro teclado com switches ópticos que analisamos foi reprovado justamente pelo design "enjambrado" dos switches ópticos da Co-Gain, mas em algumas semanas faremos a análise do Motospeed CK98 com switches ópticos da Light Strike (A4Tech/Bloody), e estes sim, são realmente caprichados.

PRÓS
Aparentemente possui alguma resistência a líquidos
Bom software, com uma ótima gama de recursos
Boa quantia de recursos e configurações via hardware
Switches removíveis
Switches ópticos à prova de double-click
CONTRA
Os switches Co-Gain não foram bem projetados
Preço exagerado
Qualidade da pintura das keycaps não é boa
  • Redator: Wellington Diesel

    Wellington Diesel

    Formado em Redes de Computadores, o "wetto" é um entusiasta do ramo de Periféricos. Autor do Guia do Teclado Mecânico, ele carrega consigo mais de 150 análises de mouses, teclados e headsets publicadas, além de diversos Guias e Artigos sobre teclados, mouses e headsets. Respeitado pela comunidade do Adrenaline, ele trabalha à distância como colaborador.