ANÁLISE: The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel II

Uma excelente continuação para um ótimo JRPG

The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel 2 é um jogo de PS3 / Vita que foi recém portado para PC, enquanto a versão de ambos os jogos para PS4 será lançada ainda este ano, pelo menos no Japão.

Para início de conversa, é extremamente desaconselhável jogar "Trails of Cold Steel 2" sem ter jogado o primeiro jogo da série. Não devido aos itens de carry-over, os quais são patéticos, mas devido à toda a história e desenvolvimento dos personagens do primeiro jogo. Sem ter jogado o primeiro, você não sentirá impacto em alguns eventos.

Se você jogou o primeiro no PS3 ou PS Vita mas não jogou o segundo, não terá problema algum jogando no PC.

Por esta mesma razão é impossível falar sobre "Trails of Cold Steel 2" sem acabar dando alguns leves spoilers. Para quem não quiser spoiler algum, leia a nossa análise do primeiro "Trails of Cold Steel" e vá jogar ele.

Basicamente a história do "Trails of Cold Steel 2" segue acontecimentos do final de Trails of Cold Steel. Após terem falhado em proteger o país de um golpe de estado, a "Turma 7" fica em uma situação apertada, com inimigos por todos os lados e o líder da turma desaparecido após um dos piores cliffhangers que já vi.

Novamente, é difícil falar sobre o segundo jogo sem dar leves spoilers. Vamos então começar.

História e Ambientação

A trama de Trails of Cold Steel 2 se passa um mês após os eventos do final do primeiro jogo e difere bastante dele. Ao invés da feliz vida escolar do primeiro jogo, estamos agora encarando uma guerra civil.

Medo, censura, propagandas cheias de mentiras, "nobreza" vs. militares, atrocidades da guerra e várias outras temáticas interessantes são trazidas à mesa, além de tecnologias que transformam completamente o campo de batalha, inutilizando táticas e equipamentos anteriores. É possível ver uma forte influência da Primeira Guerra Mundial no mundo de Trails of Cold Steel 2, o que é muito interessante.

É possível ver uma forte influência da Primeira Guerra Mundial na temática do jogo

Mas o tratamento infantilizado sem entrar a fundo nos "horrores da guerra", evitando sangue e mortes ao máximo possível, além de alguns vilões com motivações pífias, são coisas que acabam fazendo com que o tema não seja tão bem explorado quanto poderia ter sido e também tirando um tanto da imersão do jogador. Quase não ver sangue em um jogo sobre uma guerra civil não faz sentido.

A nação de Erebonia, sua história e seus conflitos são interessantes, mas assim como o jogo anterior, o principal foco são os personagens. E aqui há pontos de avanços e retrocessos.

Primeiro de tudo, você deve resgatar membros da sua escola ao redor do mundo e agora possui a habilidade de escolher quais membros da Turma 7 levar em suas missões, salvo por alguns personagens obrigatórios e outros personagens que podem se juntar à sua equipe durante a missão. Qualquer comparação com a série Suikoden é válida e merecida.

Parece algo bom, mas acaba limitando as interações e eventos que personagens acabam tendo um com o outro, já que parte do jogo é programado para que seja possível no lugar do personagem X, ter Y ou Z.

Por outro lado, os personagens que são obrigatórios para a missão, acabam tendo um bom enfoque e desenvolvimento, especialmente quando suas próprias famílias e cidades acabam sendo envolvidos na guerra. Há uma boa quantia de drama e tensão na história de Trails of Cold Steel 2, embora seja bizarro ver uma guerra com pouca violência.

Mas, quem jogou o primeiro Trails of Cold Steel provavelmente já sabe o principal apelo deste jogo: waifus. O segundo jogo além de aumentar a quantia de escolhas disponíveis, também permite uma maior escolha de mulheres maduras, o que é muito bem-vindo.

Todos os personagens possuem personalidades únicas e as interações entre cada um deles e com o personagem principal são extremamente interessantes, especialmente para quem gostou do primeiro jogo.

Uma coisa que acabou aumentando é a quantia de fanservice, agora justificado pela presença de "fontes termais" na cidade que age como "Overworld" do jogo. Um tanto forçado na minha opinião, mas o pior é que a garota da imagem abaixo é a irmã do protagonista...

O tema da Guerra Civil é extremamente interessante, a diferença que novas tecnologias causam no campo de batalha é sentida em toda a história, mas o fato de tudo estar tão "family friendly" sem realmente trazer os horrores que uma verdadeira guerra causa, é o que acabou impedindo que a trama do jogo se desenvolvesse para algo muito melhor.

Entendo que o objetivo da FALCOM não era criar um jogo maduro com uma classificação etária muito maior que o primeiro jogo devido à violência, mas tenho certeza que teria sido um jogo muito melhor se tivesse sido feito isto.

Curiosidade: no Japão, violência em jogos é algo muito mais pesado do que conotações sexuais

Jogabilidade

Conforme já fora dito no início desta análise, é impossível falar sobre Trails of Cold Steel 2 sem acabar dando spoilers sobre o primeiro jogo. Então, o que o segundo jogo acaba introduzindo e que é spoiler? Gundams! Divine Knights!

Mas infelizmente estas batalhas de gigantes são bastante secundárias, ao ponto de parecer um mini-game que é jogado em alguns momentos, e não algo épico como deveria ser.

The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel 2 não modifica o sistema de batalha do primeiro jogo, mas realiza várias mudanças. Assim como o primeiro jogo, trata-se um sistema por turnos, mas com personagens tendo áreas de movimento limitadas e alguns ataques são capazes de afetar uma área com diversos inimigos (AoE).

Trails of Cold Steel 2 pressupõe que você já tenha jogado o primeiro jogo, por isto os tutoriais de início são poucos e a dificuldade pelo menos nas primeiras 5 horas de jogo, é elevada, mas depois acaba dependendo do quanto de grinding e tempo você investe para adquirir itens, equipamentos e levels. A não ser que você jogue no Easy, filthy casual.

Um dos elementos chave do jogo, é o sistema de "Orbment", que dá os superpoderes dos membros da Classe 7 e permite equipar o que o jogo chama de "Quartz".

Trails of Cold Steel 2 continua com o problema de ter que escolher entre Quartz que dão Buffs às forças de personagens ou Quartz que dão acesso a novas Magias, mas ele acaba sendo menos problemático pelo fato de você já ter acesso a Quartz que combinam estes dois no início do jogo, assim como Master Quartz que também dão acesso a magias

Magias estão mais fortes. Elas não demoram mais tanto para ser executadas, várias causam mais danos, há uma maior quantia disponível logo no início do jogo e alguns inimigos acabam tendo fraquezas apenas contra elas, então pelo menos isto fora melhorado.

Assim como o primeiro jogo, há o sistema de "Linking", onde personagens formam pares (eficaz especialmente quando dois personagens são amigos, bem estilo Fire Emblem) e há alguns bônus que podem dar a seu companheiro, tal como defesa de ataques, um ataque adicional, maior resistência a ataques, etc.

Trails of Cold Steel 2 diversifica os tipos de ataques disponíveis, aumenta a dificuldade de batalhas, aumenta os poderes de habilidade que antes eram pouco usadas, adiciona uma maior quantia de inimigos que são fracos apenas para certas habilidades e melhora o sistema de Orbments.

Mas, para quem não é fã de batalhas por turnos, ainda continua sendo um sistema bastante cansativo, embora o Modo Turbo acabe ajudando diminuir esta fadiga.

Gráficos

Assim como o primeiro Trails of Cold Steel, o port do segundo jogo foi liderado por ninguém menos do que o "Durante", o modder responsável pelo famoso DSFix, que melhora consideravelmente a experiência do primeiro Dark Souls no PC.

Na versão de PC há opções gráficas, filtros e efeitos que são esperados da versão para PC, suporte a 4K, resoluções Ultrawide, um sistema bem intuitivo mostrando a diferença de cada opção e também a escolha do layout de botões usados, seja botões do Xbox ou do Playstation.

Também, há melhorias no sistema de sombras e iluminação em comparação com o port do primeiro jogo, a nova função de autosave e um recurso de "Quick Load" para a versão da Steam onde o jogo pode abrir diretamente seu save sem carregar os menus e filmes, equivalente ao recurso "Load Save State" de emuladores.

E além disto, há o Modo Turbo, o qual estou começando considerar obrigatório em JRPGs que dependem de grinding, o qual também ganhou uma "turbinada". Agora é possível ajustar a sua velocidade, o que é muito bem vindo pois há alguns mapas que são grandes e vazios demais.

Trails of Cold Steel 2 é um port muito completo, otimizado e cheio de novos recursos que provavelmente nem na futura versão de PS4 estarão presentes.

Falando em mapas, Trails of Cold Steel 2 melhora esta questão em relação ao primeiro jogo. Ao invés do excesso de dungeons como havia no primeiro, há uma maior ênfase em cidades e estradas conectando estas. Há dungeons similares aos do primeiro jogo, mas estes são opcionais, mais curtos e variados.


Porém, ele sofre o mesmo problema do primeiro jogo. Embora alguns sejam mais bonitos e detalhados que outros, muitos destes cenários são genéricos, com a menor quantia possível de polígonos e objetos, para que sejam compatíveis com o hardware limitado do PS Vita.

Enfim, The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel 2 é um jogo fortemente estilizado para parecer um anime, o que faz com que seus gráficos por mais simples que sejam acabem ficando bastante "coloridos" e "bonitos" em cenários limitados, mas assim como o primeiro, ele realmente sofre por ser um port do PS Vita.

Áudio

Trails of Cold Steel 2 continua com boa parte da trilha sonora do primeiro jogo. Embora ela seja adequada ao jogo, não é nada memorável e o fato de você estar escutando diversas das mesmas faixas novamente, faz com que elas se tornem ainda mais esquecíveis.

Acredito que o desenvolvimento deste jogo tenha começado enquanto o primeiro ainda estava sendo desenvolvido, por isso a repetição de músicas, mas realmente espero que acrescentem mais variedade no terceiro jogo... Sei que todo jogo não pode ser um Persona 5, mas realmente é um jogo que fez eu e várias outras pessoas reverem completamente o quão importante música é para um jogo.

Mas, embora Trails of Cold Steel 2 não se destaque em sua trilha sonora, há um elemento onde ele é um dos melhores e mais vívidos JRPGs que já joguei até agora, melhor até que o Persona 5: dublagem.

Embora os otakus puritanos que prefiram áudio em japonês fiquem desapontados pelo fato de não existir a escolha de áudio japonês (embora já exista um mod para isso), não é exagero falar que esta é uma das melhores dublagens para inglês que já escutei em um JRPG. Além da qualidade do áudio das gravações estar excelente, todos os dubladores encaixam perfeitamente em seus personagens, em alguns casos até mais do que os próprios japoneses.

E assim como o primeiro jogo, na versão para  PCs (e provavelmente a futura versão de PS4) foram adicionadas mais de 5.000 novas linhas de diálogo gravado em inglês, especialmente para o próprio Rean (o protagonista) e para personagens secundários que antes não possuíam vozes.

Curiosamente a versão japonesa de Rean possui pouquíssimas falas gravadas, o que reforça o fato dele ser um "protagonista genérico para que seja feito self-insert", mas felizmente a versão em inglês e especialmente o novo port para PC, adiciona um pouco de personalidade para ele, o que é muito bem-vindo.

Conclusão

 

Avaliação: The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel II

História
8.5
Jogabilidade
7.5
Gráficos
7.5
Áudio
8

The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel 2 corrigiu algumas das falhas do primeiro jogo. Aprofundou o mundo do jogo, aprimorou o sistema de batalha, introduziu uma temática extremamente interessante, trabalhou bastante nela e nos efeitos que ela possui na vida dos personagens do jogo, mas também falhou por acabar "infantilizando" algo tão sério.

Trails of Cold Steel 2 possui suas falhas, assim como todo jogo possui, mas no final das contas é impossível não ver todo o esforço e dedicação que a equipe da Nihon Falcom teve para tornar todo o mundo, a trama e os personagens do jogo interessantes, além do trabalho da XSEED e do Durante para tornarem ainda melhor um jogo que já era muito bom, com uma das melhores dublagens já vistas em um JRPG, além de otimizações e melhorias que devem servir de exemplo para qualquer jogo portado para PC.

Trails of Cold Steel 2 possui um final que embora acabe em mais perguntas do que respostas, é muito mais satisfatório que o do primeiro jogo. Também, ele acaba interligando a história de Trails of Cold Steel com os outros jogos da série The Legend of Heroes e fazendo com que o público fique ansioso pelo próximo jogo da série.

Mas, o que me deixa triste, é que o futuro de Trails of Cold Steel 3 é incerto. Embora já tenha sido lançado no Japão, a XSEED não possui direitos sobre ele, sendo que há a possibilidade da NIS America acabar com os direitos, o que seria uma tragédia considerando o péssimo trabalho realizado em Ys 8 e as mudança na direção de tradução e dublagem que isto pode acarretar. E também há a possibilidade do jogo nem ser traduzido.

O futuro da saga The Legend of Heroes no ocidente depende bastante das vendas dos jogos Trails of Cold Steel no PC e na futura versão de PS4. E se você for fã de JRPGs, garanto que são jogos que valem o seu tempo, seja a série Trails in the Sky com sua temática mais tradicional ou Trails of Cold Steel que leva forte inspiração de animes contemporâneos.

Nota: Este jogo foi comprado na Steam pelo autor da análise.

PRÓS
Dublagem em inglês muito bem feita
História e ambientação bem desenvolvida
Melhorias no sistema de batalha em comparação com o primeiro jogo
Personagens interessantes e com bom desenvolvimento
Versão para PC contém uma quantia significante de melhorias, sendo a versão definitiva do jogo
CONTRA
A temática do jogo, embora extremamente interessante, poderia ter sido melhor explorada
Boa parte da trilha sonora é repetida do primeiro jogo e acaba se tornando cansativa
Gráficos limitados por ser um jogo do PS Vita portado para outras plataformas
  • Redator: Wellington Diesel

    Wellington Diesel

    Formado em Redes de Computadores, o "wetto" é um entusiasta do ramo de Periféricos. Autor do Guia do Teclado Mecânico, ele carrega consigo mais de 150 análises de mouses, teclados e headsets publicadas, além de diversos Guias e Artigos sobre teclados, mouses e headsets. Respeitado pela comunidade do Adrenaline, ele trabalha à distância como colaborador.