ANÁLISE: Pokémon Sun & Moon

Roteiro fraco não tira carisma e proeza técnica do mais belo game do 3DS

Se tem uma série onde a Nintendo nunca deixa a bola cair, esta série é Pokémon. Desde Red e Green em 1996 até X e Y em 2013, os títulos da franquia sempre tiveram recepções bastante positivas da crítica. Para o que valha isso, um game da série nunca teve média abaixo de 82 no Metacritic.

Em termos de público, não tem nem o que falar. Trata-se apenas de uma franquia multi-bilionária que definiu as mentes e as preferências estéticas de gerações e que já vendeu mais de 279 milhões de cópias no total. Estamos falando da segunda maior franquia de videogames do mundo. O que vamos descobrir nessa análise é se Sun e Moon são dignos de uma herança tão pesada, e se conseguem revigorar as velhas mecânicas que são a base desta querida série que conhecemos há 20 anos.

Jogabilidade


As mudanças que aquela mesma base de sempre andava precisando

Surpresa, surpresa. Você é um garoto que vai embarcar numa jornada e quer capturar todos os Pokémon para aprender mais sobre eles. Cada um deles aprende até 4 golpes e boa parte evolui para uma versão melhorada da sua espécie. Na aventura, você encontra um rival, amigos, enfrenta treinadores cada vez mais poderosos, e por aí vai. A base é a mesma, ela é excelente, e é isso que faz os games da série serem tão bons. Mas Sun e Moon definitivamente representam as mudanças mais radicais da série.

Primeiro, não temos ginásios. Ao invés deles, são 7 desafios de capitães distribuídos por 4 ilhas, cada uma com seu próprio Kahuna – uma espécie de chefão, que é o treinador mais forte de cada local. Depois da decepção que foi a dificuldade baixíssima dos games X, Y, Omega Ruby e Alpha Sapphire, finalmente voltamos a ter um belo desafio no game. Apesar do começo ser um pouco fácil, o jogo vai ficando consistentemente mais difícil, e treinadores mais fortes acabam dando um bom trabalho e te obrigando a usar estratégias bem mais elaboradas. Ou simplesmente ficar subindo de nível contra Pokémon selvagem.

O que mais me agradou foi que a interface está consideravelmente melhorada, e tem algumas mudanças que são muito úteis. Primeiro, finalmente é possível ver quais stats foram aumentados e quais foram diminuídos por golpes como Swords Dance, Dragon Dance ou habilidades como Intimidate. Outra coisa é que basta você enfrentar um Pokémon uma vez para registrar automaticamente quais são os tipos dele. A partir da próxima vez que encontrá-lo, o game vai dizer quais golpes são super efetivos ou pouco efetivos contra essa espécie específica. Durante uma batalha com um Pokémon selvagem, basta apertar o botão "Y" para acessar o menu de Pokébolas, e poder rapidamente escolher qual você irá querer usar para capturar capturá-lo. Isso evita o trabalho chato e repetitivo de navegar por vários menus toda vez.

Falando em repetitividade, tem os Z-Moves. Tratam-se de golpes especiais baseados em tipos ou em certas espécies de Pokémon que usam o poder de cristais que você equipa nos seus monstrinhos. Eles só podem ser utilizados uma vez por cada batalha, e possuem uma animação bem sensacional que impressiona e mostra o poder deles. O problema é que, depois de um tempo, isso começa a ficar muito repetitivo, e até cansativo.


Aqui todos os golpes são "efetivos", mas se um deles fosse muito ou pouco efetivo, isso seria representado

O mesmo pode ser dito da habilidade única que os Pokémon de Alola possuem de pedir a ajuda de um monstrinho próximo da mesma espécie. Isso é legal no contexto dos testes, onde um poderoso Pokémon Totem pode chamar um amigo para ajudar, e assim aumentar o desafio. Porém, quando você só quer completar a Pokédex e capturar monstrinhos selvagens, isso gera algumas situações bem chatas. Depois de paralisar e enfraquecer a criatura, ela ainda pode chamar ajuda por umas duas, três ou quatro vezes. Claro, às vezes ninguém atende a esse pedido. Mas, como só é possível jogar pokébolas quando só tem um adversário na sua frente, isso se torna algo bem irritante.

Uma das coisas mais legais é que a Game Freak simplesmente eliminou as Hidden Machines (HMs) – golpes como Surf, Fly ou Cut – que você era obrigado a ensinar aos seus monstrinhos para prosseguir na jornada. Ao invés de ter isso ocupando um dos preciosos quatro slots de movimentos de batalha dos seus companheiros, foi implementada uma solução muito legal e, até certo ponto, bem fofa. Tratam-se dos Poké Rides, que você pode chamar a qualquer hora para ajudar com desafios do cenário. Basta chamar um Tauros para quebrar pedras que estejam no seu caminho, ou um Charizard para voar para um Centro Pokémon de uma cidade conhecida. Mas o mais legal de todos é poder chamar um Stoutland para farejar itens escondidos no mapa. Isso que é um bom garoto!


Nada como farejar itens montado num cachorro gigante

Gráficos


Não tem 3D, mas em provavelmente tem os melhores gráficos do 3DS

Não temos dúvidas que é muito difícil fazer um jogo realmente belo com o poder do Nintendo 3DS. Por sorte, o um dos lemas dos desenvolvedores de Pokémon ao longo dos anos é fazer muito com pouco. Isso era verdade com o mínimo poder gráfico do Gameboy lá em 1996, e ainda é verdade hoje. As cidades possuem uma escala enorme, com o bônus de estarem melhor projetadas, mais povoadas e mais vivas do que nunca. Claro que o ambiente de Alola, baseado no Havaí, nos EUA, contribui bastante para isso. Mesmo assim, os designers fizeram um trabalho magistral, o que resultou numa recriação bem inspirada das ilhas norte-americanas.

Os primeiros 30 minutos de jogo já são suficientes para surpreender de maneira muito positiva. Pela primeira vez na história da série, temos cutscenes com uma edição entre câmeras fixas, o que aumenta bastante a imersão e dramaticidade do game. Logo no início, você é apresentado ao belíssimo cenário de Alola com imagens panorâmicas, é acordado gentilmente por um Meowth de estimação e conhece a mãe do protagonista (ou da protagonista) e o professor da região. Como é comum, logo você é mandado para onde vai conseguir seu primeiro Pokémon, revelando uma perspectiva muito mais próxima do chão e do personagem, abandonando a de vez as câmeras distantes tão tradicionais de JRPGs. Agora, é possível ver um céu colorido e muito bem construído, mostrando os astros-título dos games (o Sol e a Lua) de maneira proeminente.

Logo você encontra Lillie, personagem que será central para a trama do jogo, e que tem seu Pokémon Cosmog sendo atacado por Spearows selvagens. Depois de alguns cortes de imagens mais próximas e mais distantes, que dão uma bela intensidade ao ataque, você reganha controle do personagem principal para caminhar por uma ponte velha feita de uma madeira que não para de ranger. A cena que se segue depois disso, onde a ponte cede para o poder psíquico do Cosmog e você é salvo pelo guardião Tapu Koko, é um excepcional cartão de visitas, que mostra todo o potencial gráfico do título. A cada novo teste, a cada nova ilha, parece que uma nova gama de efeitos é apresentada, levando o hardware do 3DS ao limite.

Falando nisso, apenas do ponto de vista técnico, já é impressionante o que foi feito. Sinceramente, eu não sabia que o 3DS era capaz de gráficos tão avançados. Os cenários são belíssimos e muito bem construídos. Apesar disso, eles não são substituídos por um fundo genérico quando começam as batalhas. Ao contrário, agora o local onde você estava é que povoa o fundo das batalhas, com o bônus de que os treinadores aparecem atrás do Pokémon que está sendo comandado. É tanta coisa na tela que foi necessário eliminar a opção de visualização em 3D – o que eu penso que é uma troca justa e que não faz grande falta. Como é costumeiro, o trabalho de arte é incrível. Cada ilha é bastante diferente da anterior e os desafios dos capitães oferecem vistas muito variadas, com os Pokémon Totem geralmente aparecendo de maneira bastante espetacular.

História


Antagonistas estereotipados e rival fraco tornam o roteiro em algo raso e previsível

A história de Sun e Moon começa com você, a sua mãe e o seu Meowth de estimação chegando de viagem da região de Kanto, cenário dos games da 1ª geração da série – Red, Blue, Green e Yellow. Depois de introduzir a sua família e o professor da região, o game te coloca para conhecer seu primeiro Pokémon, e logo depois começar a jornada. A história começa bem promissora, com muitas cutscenes e muitos diálogos nas primeiras 2 horas do game.

Claro que o roteiro se preocupa muito em introduzir personagens e os costumes da região de Alola também, mas tratam-se de pessoas bastante interessantes e construídas de maneira profunda. Há até uma certa dose de suspense, especialmente sobre as origens e o destino de Cosmog, o Pokémon que fica na bolsa de Lillie. A ambiguidade das intenções da Aether Foundation, uma organização que diz cuidar de Pokémon feridos, também intriga. Afinal, que tipo de organização faz um serviço desses ao mesmo tempo em que estuda o misterioso fenômeno de buracos de minhoca que aparecem nos céus de Alola?

Mas não adianta: a história dos games da franquia geralmente é tão boa quanto a justificativa das ações da "equipe do mal". A Team Skull não são exatamente gênios do mal como a Equipe Rocket sob o comando de Giovanni em Pokémon Gold/Silver, nem possuem um plano honroso, como a Team Plasma em Black/White. Eles são apenas simples ladrões, que não possuem nenhum grande plano. Na verdade, sempre que você os encontra, eles estão cometendo pequenos delitos, coisas com que uma força policial local poderia facilmente lidar. A própria construção dos personagens desses personagens é estereotipada demais como o tipo mais ridículo de aspirantes a gângster, e não oferecem a menor ameaça ao jogador.

Quem também não oferece ameaça é Hau, um amigo que você enfrenta em vários momentos da campanha, mas que nunca se torna o seu rival de verdade. Por isso, também fica uma lacuna já que, dentro da fórmula dos games, o antagonismo da "equipe do mal" e do seu rival dão um tempero de competitividade para a história. Como esses dois fatores falham em Sun e Moon, o roteiro acaba perdendo força conforme a história ganha andamento.

O que tinha o potencial para ser o melhor enredo da série acaba ficando muito aquém da excelente obra que vimos em Black e White, por exemplo. As respostas não satisfatórias ou extremamente previsíveis para mistérios como as Ultra Beasts, a Aether Foundation e o promissor Pokémon Type: Null acabam desapontando. Fica claro que os criadores não quiseram ir fundo em questões mais polêmicas, especialmente sobre ética de pesquisa. Tudo bem que é um jogo de classificação indicativa livre, mas os filmes da Pixar provaram muito bem que dá para conciliar as duas coisas.

Áudio


As deliciosas músicas tropicais de Alola

A estética sonora da série Pokémon sempre foi bem definida com um misto de músicas alegres e "para cima" no começo da jornada, com temas mais tensos para batalhas – especialmente contra treinadores especiais – e aquelas canções de tom misterioso e que vai se intensificando para momentos climáticos. Nada disso muda em Sun e Moon, mas os instrumentos estão mais definidos e numa qualidade excepcional. A música tem um clima mais tropical para combinar com o cenário baseado no Havaí. Em geral, ela preenche com muita competência um ambiente que já foi magistralmente construído pelos designers do jogo.

A melhora de qualidade em absolutamente todos os outros efeitos sonoros merece um destaque. Agora que a câmera está mais perto do personagem principal, podemos ouvir sons de passos, com variações para pisos de madeira, que podem ranger ou não, e também para o galope de Pokémon como o Taurou ou os passos curtos de um cachorrão com o Stoutland. Isso é algo que já temos como garantido em muitos jogos mais modernos, mas colocar tudo isso junto com a quantidade enorme de conteúdo do game dentro de um cartucho de 3DS que utiliza um fraquíssimo processador para renderizar é uma obra técnica incrível.


Poké Finder é um mini-game no estilo de Pokémon Snap onde você tira fotos dos monstrinhos

Multiplayer


Seja o rei do seu Festival

Desde que foi introduzido, modo multiplayer online dos jogos da série sempre foi uma bela bagunça. As partidas multiplayer online não são muito bem organizadas, e as regras competitivas – ou a falta delas – que a Nintendo impõe no jogo sinceramente não são muito boas. O Pokémon competitivo faz muito mais sentido no formato organizado pela Smogon, que é mais baseado em habilidade e menos em sorte. Pelo menos em Sun e Moon, eles removeram funções em sentido como os O-Powers e vídeos de apresentação e colocaram coisas mais úteis. 

Os tradicionais modos de batalha local e Battle Spot – para partidas online – seguem presentes. Como novidade temos o Festival Plaza, um espaço virtual online que o jogador pode gerenciar a seu gosto. Lá é possível encontrar outros treinadores reais e batalhar contra eles em disputas simples, em duplas ou no divertido Battle Royale, novo formato onde enfrentam-se todos contra todos. Também é possível trocar Pokémon com esses treinadores. O espaço acaba sendo um hub bem legal e simpático, que você pode customizar conforme desejar. Falando em trocas, as divertidas Wonder Trades seguem presentes. Nelas, você envia um Pokémon para alguém e recebe um monstrinho totalmente aleatório de qualquer pessoa que também esteja usando o recurso no mundo.

Não tem como errar comprando um jogo da série principal de Pokémon. A Game Freak tem consistentemente entregado alguns dos melhores games dos consoles portáteis ontem eles são lançados, seja antigamente lá Game Boy, seja no 3DS hoje. Pokémon Sun e Moon não é diferente, e está lá junto com The Legend of Zelda: A Link Between Worlds, Fire Emblem: Awakening e mesmo Pokémon X/Y como alguns do melhores games da plataforma.

Apesar de ter os desafios no lugar dos ginásios, o game não é uma mudança radical nos fundamentos da série. Ele é, na verdade, uma evolução consistente e significativa em cima de uma excelente base. Os gráficos estão melhores do que nunca, a região é exótica e belíssima e o gameplay ganhou as facilidades que estava precisando.

Tudo bem que os Z-Moves são uma adição meio inútil e a promissora história perde intensidade e desaponta com o tempo. Mas são coisas que não tiram o brilho de uma das melhores experiências portáteis dessa geração. Se você tem 3DS ou se gosta da série e está pensando em comprar um para aproveitar, Pokémon Sun e Moon são exatamente as justificativas que você estava procurando.

Conclusão

 

Avaliação: Pokémon Sun & Moon

História
7
Jogabilidade
8.5
Gráficos
10
Áudio
10
Multiplayer
8

PRÓS
Belíssimos gráficos
Traz as melhorias necessárias no gameplay
Desafios dão um novo ar para a série
CONTRA
Roteiro deixa a desejar
"Equipe do mal" tem personalidade unidimensional
  • Redator: Carlos Felipe Estrella

    Carlos Felipe Estrella

    Apaixonado por games desde os 6 anos de idade, quando ganhou um Playstation, época em que também se divertia com o Super Nintendo dos outros. Em 2005 migrou para o PC, e aí começou a se interessar por tecnologia também. Apesar disso, nunca conseguiu largar a preferência por jogos de corrida e de esporte, principalmente os de futebol. Estuda jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina.