ANÁLISE: ReCore

Combates divertidos e personagens carismáticos esbarram em problemas clássicos

"ReCore" é fruto de uma parceria entre Comcept Inc. e Armature Studio, que são, nada menos e respectivamente, a produtora de Keiji Inafune, co-criador de Mega Man, e a produtora de ex-desenvolvedores da saga "Metroid Prime", ambas franquias comumente aclamadas por jogadores e críticos da indústria da games. Mas será que "ReCore" é compatível com o peso do legado desses nomes, consegue implementar novidades e, sobretudo, ser uma experiência divertida?   

É isso o que você vai descobrir na análise abaixo de "ReCore", baseada na versão para Xbox One. O título também está disponível para PC atráves do serviço Xbox Play Anywhere, que torna possível comprar uma cópia e jogar tanto no Xbox quanto no PC.

História


Em buscas de respostas fora da Terra

A história de "ReCore" gira em torno de Joule, a protagonista que acordou do seu sono criogênico no planeta Éden Distante, frequentemente atacado por intensas tempestades de areia. Extremamente carismática, a personagem parte em busca de respostas sobre o que aconteceu com os outros sobreviventes que deixaram a Terra, que já não é capaz de abrigar vida humana. Ao que tudo indica, uma grande conspiração por trás dos valiosos Núcleos Prismáticos tem a ver com o desaparecimento dos seus semelhantes.

A premissa costuma se dividir em eventos envolventes e tediosos. Existem momentos marcantes decisivos, contextualizando melhor as motivações de Joule, e outros pouco interessantes, em que personagens secundários aparecem tentando trazer alguma profundidade à trama, mas falham em atingir esse objetivo e mal chegam perto do carisma da protagonista. No final das contas, o enredo cumpre o seu papel básico de instigar a curiosidade de seguir jogando. E isso é mais do que suficiente para não abandonar o game.      

Jogabilidade


Tiroteios divertidos, plataformas enfadonhas e puzzles ridículos

A jogabilidade de "ReCore" combina tiro em terceira pessoa, plataforma e algumas pitadas de RPG. A configuração dos controles é bastante acessível e, em pouco tempo, é possível se acostumar com todas as possibilidades. Durante a jogatina, é impossível não identificar inspirações da mecânica vinda de clássicos atemporais como "Mega Man", "Jet Force Gemini" e "Metroid Prime", tamanha a semelhança com que as ações e suas variações são executadas durante a experiência, que costuma ser agradável na maior parte do tempo.

A parte mais bacana da jogabilidade do game são os tiroteios em terceira pessoa, que resultam em combates frenéticos, divertidos e desafiantes. Uma atração interessante é um sistema de tiros divididos em 4 cores: branco, azul, vermelho e amarelo. Cada uma dessas cores está atrelada a um direcional digital do controle, sendo possível serem escolhidas em tempo real. Tiros com a mesma cor dos oponentes têm maior efetividade para causar dano, além de causar diferentes tipos de efeitos colaterais e também de expor os seus núcleos de alimentação, seus verdadeiros pontos fracos. 

O melhor de Recore são os tiroteios frenéticos em terceira pessoa. Os trechos de plataforma e os poucos puzzles que existem são decepcionantes

Esses núcleos são extraídos usando o analógico direito do controle. Mas não basta movê-lo freneticamente ou segurá-lo em direção oposta ao gancho engatado no inimigo: é preciso dosar a força e contrabalancear o peso de reação em função da movimentação deles. Força demais causa o rompimento dos cabos. E, pelo menos no começo do jogo, é isso o que acontece na maioria das vezes. Algumas horas adentro e o jogador já consegue facilmente dominar essa mecânica, sendo gratificado com uma ótima sensação de empoderamento e superioridade.   

Joule ainda tem a companhia de três NUCLEOBOTS para ajudá-la nas situações mais complicadas. O inicial é Mack, um cachorrinho especialista em combates corporais e farejador de relíquias enterradas. Durante a aventura, outros dois parceiros aparecem para juntar forças: Seth (uma aranha) e Duncan (um gorila). O diferencial desses ajudantes é utilizar as suas habilidades específicas em combate, abrindo margem para mais estratégias e ataques combinados mais poderosos. Ou, ainda, usando suas funções exclusivas durante os trechos de exploração. Seth, por exemplo, pode se agarrar em estruturas metálicas e carregar Joule automaticamente para áreas antes impossíveis de se chegar.

Os Nucleobots ainda podem ter seus status melhorados. Numa espécie de sistema com elementos tradicionais de jogos de RPG, tudo depende da quantidade de cristais coletados. Os de ataque são vermelhos; os de defesa, amarelos e, os de energia vital, azuis. Os requisitos para chegar ao próximo nível com os robôs ajudantes depende apenas da quantidade de batalhas que o jogador participa, já que experiência é ganha automaticamente. Só é preciso preencher os requisitos para evoluir os atributos de cada NUCLEOBOT. É assim que esses parceiros de jogatina se tornam uma das grandes atrações do jogo pois, além de serem absurdamente carismáticos, trazem um elemento adicional de novidade e de variedade à jogabilidade.   

Joule e seus parceiros Nucleobots são extremamente carismáticos e convidativos a batalhar constantemente

Já o mapa geral do game acontece numa estrutura de mundo semi-aberto, em que o jogador tem a liberdade de explorar todos os cantos em busca de segredos valiosos. Só que quase nada está acessível do começo. Para ganhar acesso a novas áreas, é preciso reunir pequenos robôs-interruptores que estão espalhados pelos cenários. Isso é feito à base de muito pulo duplo e dash (deslocamento rápido), alcançando novos lugares e encontrando esses bichinhos nos lugares menos óbvios. Basta encontrar todos de determinada área para abrir o portal mais próximo e, assim, chegar aos outros pontos do mapa. 

Ainda que a ideia seja clássica e coerente com as bases da mecânica de "ReCore", ela denuncia os dois maiores problemas do título. O primeiro são os puzzles fraquíssimos: encontrar os robozinhos-interruptores e encaixá-los nos portais de cada área é o mais próximo que o game chega de lembrar alguma coisa sobre resolver quebra-cabeças em jogos de aventura. Não existe nada mais além disso que diversifique, implemente ou inove a interação do jogador com a mecânica. É algo realmente bem simples, superficial e quase nada inspirado.

O segundo fica com os trechos de plataforma: bastante enfadonhos, pouco criativos e muito gratuitos, quase sempre o jogador é obrigado a trespassar diversas áreas ou vencer uma sequência de torres genéricas para seguir em frente. A forma como isso é executado em praticamente nada oferece de diversão ou se aproxima dos momentos nostálgicos dos clássicos games citados anteriormente. Está mais para algo cansativo e maçante do que para algo realmente bem aproveitado em toda a experiência. 

A progressão por "ReCore" é totalmente dependente da coleta de Núcleos Prismáticos, esferas de energia concentrada. Esses itens estão espalhados por pontos específicos do mapa ou como prêmios cumprindo certos requisitos durante as missões da aventura. Além de encontrar os tais interruptores de antes, é também necessário coletar uma certa quantidade de Núcleos Prismáticos para ter acesso a novas missões. Estas, inclusive, estão dividias em principais e paralelas, padrão já amplamente explorado na indústria. 

E diferentemente da exploração livre pelos cenários, "ReCore" se fecha em missões principais bastante lineares, precisando vencer ondas de inimigos em cada área e chegar à próxima por breves trechos de plataforma entediantes. Essa escolha de design também se repete exaustivamente na aventura. Já as secundárias se resumem a cumprir metas dentro das próprias missões principais, como cumpri-las antes que o cronômetro acabe ou encontrar itens secretos específicos.

Ou seja, para além da localização das missões principais e pela livre exploração dos cenários abertos para encontrar recursos, o mapa principal do jogo não tem mais nenhuma outra utilidade válida. Faltou um pouco mais de aproveitamento de áreas tão grandes que, em algumas situações, são claramente preenchidas por estruturas gigantescas que não se pode nem visitar, servindo mais como meros monumentos de contemplação do que algo para acrescentar de substancial à "ReCore".  

Gráficos


Poeira sem fim em cenários abertos imponentes

"ReCore" faz bonito nos gráficos. No geral, o visual é compatível com as capacidades da plataformas atuais. A iluminação, por exemplo, é bastante convincente. Já as texturas costumam ser bem aplicadas, ainda que algumas superfícies tenham borrões e serrilhados bem perceptíveis. O destaque fica para os cenários abertos, que apresentam um vasto deserto preenchido com rochedos gigantescos, cavernas congeladas e estruturas metálicas imponentes. O design da protagonista Joule, junto aos seus robôs parceiros de aventura, também são criativos e atrativos aos olhos, ajudando a consolidar uma identidade própria ao game. 

Duas coisas, contudo, facilmente denunciam uma falta de polimento mais caprichado no game. A primeira são as animações de movimentação de Joule: ainda que sirvam ao propósito de representar cada cena da aventura, alguns trechos são um tanto artificiais e bem pouco naturais. Padrão que também se repete nas expressões faciais. A segunda está no desempenho do jogo: é comum perceber quedas grosseiras nas taxas de quadros durante a jogatina, inclusive em trechos de combate mais intensos. Não é algo que chega a arruinar a experiência, mas incomoda. Jogadores mais exigentes vão ter motivos de sobra para reclamar..  

Áudio


Silêncio desértico e dublagens sensacionais

No áudio, "ReCore" tem seus altos e baixos. A trilha sonora, por exemplo, não toca a todo momento. Existe toda a uma preocupação do game em reforçar a solidão da aventura com um deserto opressor, em que o silêncio total predomina na maior parte do tempo. Isso está longe de ser ruim, mas definitivamente faltou algum acompanhamento sonoro que adicionasse sensações mais envolventes à jornada. Quando as composições tocam, contudo, são bastante agitadas, algumas até épicas, combinando com os desafios de alguns trechos de história e de combate. Mas nenhuma delas será exatamente marcante ou inesquecível na memória. 

O que se sobressai neste quesito em "ReCore" são as dublagens em português brasileiro. A Microsoft mais uma vez entrega uma experiência impecável em termos de localização, exatamente como já vimos com "Sunset Overdrive", "Quantum Break" e "Forza Horizon 2". Não apenas as vozes dos personagens combinam absurdamente bem, como suas interpretações, entonações e traduções são extremamente competentes. Não existem trechos que causam estranheza na forma como foram lidos, muito menos qualquer outro tipo de desconforto auditivo. A produção é realmente sensacional.

"ReCore" é uma aventura agradável na maior parte do tempo. Embora os trechos de plataforma sejam monótonos e os puzzles sejam horríveis, existe uma mecânica robusta de tiro em terceira pessoa e de exploração em mundo semi-aberto que sustenta uma experiência divertida, combinando personagens carismáticos, masmorras desafiantes e elementos competentes de RPG. Só faltou cuidado na execução de algumas ideias clássicas e de capricho no polimento para o game se tornar imperdível.

Conclusão

 

Avaliação: ReCore

História
7.0
Jogabilidade
8.0
Gráficos
8.0
Áudio
7.0

PRÓS
Combates frenéticos divertidos
Sistema de cores nos tiroteios 
Personagens extremamente carismáticos
Nucleobots e suas habilidades específicas
Cenários imponentes 
Dublagens excelentes
CONTRA
Loadings muito demorados
Trechos de plataforma são enfadonhos e muito gratuitos
Puzzles nada criativos são extremamente superficiais
Quedas de frames constantes
Mundo semi-aberto mal aproveitado
  • Redator: Andrei Longen

    Andrei Longen

    Jornalista pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andrei Longen é entusiasta por videogames desde os 7 anos, quando ganhou um Odyssey 2, seu primeiro console. Hoje tem PS4, PS3 e PS Vita e adora caçar troféus em todos os jogos. Colabora no Adrenaline com notícias, análises, artigos, colunas e vídeos.