ANÁLISE: Street Fighter V

Uma das série de luta mais icônicas dos jogos eletrônicos está de volta! Desenvolvido pela Capcom, "Street Fighter V" chega com personagens clássicos e inéditos, novidades na mecânica de jogabilidade que vão agradar a todos os públicos e disputas online que só os jogadores mais determinados vão conseguir sobreviver.

PC Baratinho enfrenta Street Fighter V

Mas será que o game é uma sequência digna da franquia? Abaixo você confere a análise de "Street Fighter V", baseada na versão para Playstation 4. O título também está disponível para PC (Steam).


História
Tudo o que você sempre quis saber sobre os seus lutadores favoritos, só que pela metade

"Street Fighter V" é um dos poucos jogos de luta que se esforça em ter uma história para justificar os embates entre o seu elenco. Algo que não chega a ser uma obrigação no gênero, já que o foco é mesmo na mecânica das pancadarias. Na linha do tempo da saga, o game acontece entre os eventos de "Street Fighter III" e "Street Fighter IV", em que o jogador conhece mais de perto as motivações e acompanha a evolução pessoal de cada personagem.

O enredo é desenvolvido em breves diálogos estáticos antes, durante e depois de cada combate. No geral, as entrelinhas da narrativa são interessantes o suficiente para não incentivar o jogador a apertar o botão de corte e ir direito para as lutas. Sem dúvidas, quem mais vai aproveitar a novidade são os fãs de longa data da franquia, sobretudo os que se identificam com a filosofia de vida de figuras lendárias como Ryu e Ken. Mas quem não tiver este tipo de ligação com os personagens, claramente não vai ter o mesmo envolvimento.  

E ainda que pareça bacana num primeiro momento, o Modo História traz consigo um grave problema. Ele é bastante incompleto: a sua versão final será lançada apenas em junho. Até lá, os jogadores terão que se contentar com no máximo 4 lutas por lutador, com 1 round cada e desafio praticamente nulo, pois também não é possível escolher a dificuldade em que se joga. Além disso, não existe um Modo Arcade propriamente dito que complemente a experiência, o que gera uma nítida impressão de falta de conteúdo associada a um certo descaso em lançar algo incompleto.


Jogabilidade
Mudanças e refinamentos na mecânica garantem um jogo acessível para todos

A jogabilidade é o melhor de "Street Fighter V". Os comandos são extremamente prazerosos e absurdamente responsivos, exatamente como se espera de um jogo de luta caprichado. O controle do jogador sobre cada um dos personagens é tão preciso e bem executado que é comum se sentir totalmente inserido nas dinâmicas de luta e esquecer que existe uma realidade fora da tela. Por isso, se o jogador não conseguiu realizar um ataque ou simplesmente falhou em emendar uma sequência de combos, a culpa é exclusivamente dele e não há margens para desculpa.

Como qualquer outro jogo da série, "Street Fighter V" é exigente com quem quer jogar bonito. São necessárias muitas horas de treino, dedicação e paciência para aprender todas as possibilidades de ataque, defesa, o tempo certo de cada frame para encaixar combos e os comandos exatos de cada técnica especial. Levando em consideração apenas um personagem, só aqui já se pode passar facilmente das centenas de horas de jogo. Conhecer os pontos fortes, os fracos, o alcance de todos golpes, as velocidades da variação das animações e o quanto todos esses pontos influenciam na jogatina como um todo chegar a ser algo assustador quando se pensa nos 16 personagens disponíveis.

Os clássicos estão de volta: Ryu, Ken, Chun-Li, Zangief, Dhalsim, Cammy, Vega e M. Bison. Também tem outros não tão populares assim, mas que os jogadores logo reconhecem: Nash, R. Mika, Karin e Birdie. As novidades no elenco são Laura, a brasileira craque em Jiu-Jitsu, a fera cabeluda Necalli, o domador de ventos Rashid e F.A.N.G, o bizarro segundo comandante da Shadaloo. Cada um deles traz particularidades de movimentos que combinam com diferentes estilos de jogadores, dos que preferem lançadores de projéteis aos que se identificam com golpes corpo a corpo. Tudo é uma questão de adaptação e determinação em conhecer as vantagens e desvantagens de cada tipo de golpe e a velocidade de execução com que precisam ser aplicados.       

As principais novidades na mecânica de "Street Fighter V" são as barras V-Gauge, V-Trigger e V-Skill. A primeira é o clássico especial (Critical Arts), carregado em três até níveis durante os combates. Acertar estes golpes é a garantia de causar muito dano que o jogo pode proporcionar em curto espaço de tempo. É essencial saber usar o V-Gauge na hora mais propícia para não desperdiçar a oportunidade do ataque, que claramente serve para obter grande vantagem em comparação à barra de energia do oponente ou para fugir de situações complicadas e que precisam de soluções imediatas. Claro, tudo sob o risco de nenhuma das duas opções de fato acontecerem. A pena é quase sempre a derrota, nestes casos. 

O V-Trigger acontece quando se aperta os botões de soco forte e chute forte simultaneamente, o que dá ao lutador alguma característica temporária que pode ser o diferencial entre a vitória e a derrota. Todos os personagens têm habilidades exclusivas, cabendo ao jogador conhecer quais as vantagens e desvantagens perante aos adversários. Já o V-Skill, acionado a qualquer momento da partida, acontece quando se aperta os botões de soco e chute médios, ativando um ataque também específico para cada lutador, que pode passar a defender um especial ou executar algum movimento surpresa que possibilita a execução de algum combo destruidor. Conhecer e entender essas variações é primordial para se dar bem. Não tem outro jeito.   

Lendo assim, parece que as novidades na mecânica são voltadas apenas aos mais experientes. O caminho é o oposto: um dos grandes triunfos de "Street Fighter V" é ser acessível a todos os tipos de público. Alguns dos comandos mais básicos, amplamente dominados pelos mais fanáticos, foram simplificados e estão mais fáceis de executar. Um exemplo imediato é um golpe qualquer que precisava de carregamento prévio e agora é liberado com o mesmo comando do clássico HADOUKEN. Isso significa que muitos jogadores, dos nunca jogaram aos que tinham grandes dificuldades em aplicar técnicas mais simples pelo timing impreciso, estão sendo encorajados não apenas a aprender as especialidades da série, como também a participar da comunidade, inclusive nos disputadíssimos duelos online.

Isso quer dizer que o jogo ficou mais fácil? Definitivamente não. "Street Fighter V" ainda privilegia o jogador que tem maior conhecimento sobre as potencialidades de cada lutador em relação a outro. De nada adianta conhecer o comando de um golpe e aplicá-lo no campo de batalha a qualquer momento se não existe uma familiaridade profunda quanto a quais tipos de reações e respostas o adversário pode ter diante de cada técnica aplicada. Por isso, apenas os que dominarem essas variantes, levando em consideração as diferenças de V-Gauge, V-Skill, V-Trigger, os alcances e as velocidades dos personagens, é que serão considerados os jogadores mais bem preparados para qualquer tipo de confronto.


Multiplayer online
A supremacia dos jogadores mais dedicados, se conseguirem ao menos se conectar

Uma das atrações mais legais em "Street Fighter V" é a experiência online. Como em qualquer título do gênero ou jogo da franquia da Capcom, são nos combates pela internet que o jogador prova o seu verdadeiro valor. A fórmula de sucesso não tem segredo: é preciso muita determinação, treino e dedicação para conhecer os detalhes mais profundos da jogabilidade do game, levando em consideração as nuances de cada personagem, para sobreviver em um meio dominado por tantos jogadores habilidosos espalhados mundo afora.

Não existe sensação mais gratificante no game do que enfrentar e vencer alguém desconhecido que tem um jeito único de jogar e que não se apoia nas obviedades da inteligência artificial offline. É preciso se adaptar rapidamente ao estilo de cada adversário, bolar estratégias de combate e se acostumar a pensar rápido em alternativas para se livrar das situações mais tensas. É comum, inclusive, se sentir impotente diante de alguém que tenha pleno conhecimento das técnicas e das potencialidades de ambos os personagens em combate, o que claramente evidencia a falta de estudo, de treino e tempo de jogatina de um jogador em relação ao outro na partida. 

Tudo seria exatamente desta forma se a parte online de "Street Fighter V" conseguisse, pelo menos, cumprir o básico ao que se propõe. Mas infelizmente não é bem assim. O jogo sofre com problemas gravíssimos de conexão, em que é comum não apenas ser desconectado durante as partidas, como também jogar com atrasos constantes em praticamente todas as lutas, inclusive as iniciadas com jogadores do mesmo país. A dificuldade de manter um combate online fluido é tanta que é impossível não se sentir estressado ou completamente desmotivado em continuar tentando ou jogando. A situação piora um pouco mais quando se pensa que o título ainda teve 3 testes beta antes do lançamento.

Além disso, é também comum perder dados salvos ou não contabilizar os bônus ganhos em partidas ranqueadas, seja por vitórias, derrotas ou mesmo o Fight Money, gerando momentos de frustração porque todo o seu esforço foi em vão. No multiplayer online, nunca existe 100% de certeza de que você vai conseguir iniciar uma batalhar, terminá-la e receber tudo o que conquistou, independente da região onde seu adversário se encontra e da sua velocidade da internet, por melhor que seja. Fora que, muitas vezes, o login inicial falha sequencialmente e o matchmaking insiste em não achar jogadores. É urgente a necessidade de correções e ajustes o mais rápido possível.


Conteúdo oferecido
Poucos modos, personagens e cenários: cadê meu jogo?

Tirando todo o capricho e preocupação da Capcom no desenvolvimento da mecânica de jogabilidade, "Street Fighter V" derrapa em outro ponto importante: o conteúdo oferecido. Existem apenas quatro modos centrais de jogo: História, Versus, Sobrevivência e Online (Ranked ou Casual). O primeiro está disponível apenas como um prólogo e, como dito anteriormente, será lançado por completo em alguns meses. Mesmo que esse adicional seja gratuito, no momento está incompleto, é mal estruturado e não consegue suprir a ausência do clássico Modo Arcade, que normalmente tem várias lutas, permite a customização da dificuldade e sempre culmina com um chefe final carismático para enfrentar. Nada disso existe aqui, infelizmente.

O Versus põe dois amigos locais para se enfrentarem quantas vezes quiserem. É bem bacana, diverte muito e serve perfeitamente bem para os típicos encontros de fins de semana, criando momentos de muita risada e zoação. O Sobrevivência coloca o jogador numa sequência de até 100 combates para testar a sua longevidade com uma única barra de energia, mas que não permite customizações ou variações de jogo, ainda que tenha um ótimo sistema de bonificação para cada partida vencida. Já o Online, como dito no tópico anterior, é praticamente desqualificado como um conteúdo jogável devido a sérios problema na estrutura de comunicação entre jogadores, causando mais frustração do que empolgação.   

Além disso, 16 personagens e 10 cenários é apenas uma quantidade satisfatória de conteúdo oferecido para uma nova edição da franquia. Os outros títulos da série tinham números proporcionalmente semelhantes nas suas primeiras versões, mas também ofereciam conteúdos mais completos, como modos diversificados de jogo (Trials, Time Attack, dentre outros), personagens inéditos com maior apelo e toda uma parte online que funcionava dentro do esperado. Fora isso, ganhar Fight Money (a moeda do jogo) por simplesmente progredir em qualquer uma das modalidades em "Street Fighter V", não serve para muita coisa neste momento, pois a loja virtual do jogo, com mais opções de roupas e personagens só chegam a partir de março. Se serve de consolo, pelo menos só haverá uma única edição do game.  


Gráficos
Show de cores, luzes e efeitos especiais

"Street Fighter V" também agrada bastante nos gráficos. E a responsável por isso é a Unreal Engine 4. Os cenários e os personagens são bem coloridos e combinam bastante com a proposta, mas sem deixar o resultado muito infantilizado ou exagerado a ponto de causar desconforto ou criar confusão de objetos pelo excesso de cores.

O balanceamento de tonalidades é certeiro e o principal argumento do jogo, as lutas, nunca são prejudicadas pela quantidade de elementos mostrados na tela. As animações, os efeitos de luz e dos especiais de cada lutador são lindíssimos, ocupando o campo de batalha inteiro com combos devastadores e posições de ataque dos tipos mais impossíveis.

A evolução gráfica em relação a "Street Fighter IV" é bastante notória em todos os pontos: iluminação, sombras e texturas estão bem mais precisas e melhor empregadas do que antes. Tudo roda em fluidos 60 quadros por segundo, o que torna os combates estáveis e faz o jogador se sentir confiante de que não será prejudicado por falhas na otimização. 

Mas nem tudo aparenta bem aos olhos. As animações dos coadjuvantes nos cenários estão lentas em relação à velocidade do jogo, o que causa uma sensação estranha de atraso que não encontra uma justificativa para realmente acontecer. É comum, por exemplo, estar lutando freneticamente e os toda movimentação ao fundo não acompanha o desempenho geral, passando uma impressão bastante robótica quase que totalmente fora do contexto dos combates.


Áudio
Músicas bacanas para ouvidos nostálgicos

"Street Fighter V" faz bonito no áudio. A trilha sonora retoma os clássicos temas dos principais personagens, o que gera uma ótima sensação de nostalgia para quem é fã de longa data. Os remixes estão bem balanceados, têm cortes precisos e são empolgantes, colaborando bastante na imersão. Os efeitos de pancadaria também estão bem condizentes com o que é mostrado na tela, realçando a grandiosidade dos combates durante a execução de algum combo destruidor ou especial monstruoso que domina os quatro cantos da tela. Fora isso, o jogo não possui dublagens em português, apenas em inglês, sendo que as vozes das animações e do Modo História são apenas satisfatórias.  

Da forma como se encontra no lançamento, "Street Fighter V" é apenas um bom jogo de luta. A evolução em relação ao título anterior é bastante evidente, trazendo gráficos competentes e novidades na jogabilidade que o deixaram acessível a um público de novos jogadores e igualmente exigente com os que querem continuar esbanjando habilidade.  

Só que boa parte do conteúdo previsto ainda não está disponível e existem diversos problemas crônicos de conexão no online que comprometem bastante a experiência e, consequentemente, a diversão. A questão fica um pouco mais delicada ao levar em conta que a versão para Playstation 4 custa R$280, valor injustificável pelo que é oferecido e pelas graves falhas numa das principais atrações do game.

Conclusão

 

Avaliação: Street Fighter V

História
6
Jogabilidade
10
Multiplayer online
6
Gráficos
8.5
Áudio
8

 

PRÓS
Jogabilidade extremamente prazerosa, responsiva e precisa
Acessibilidade: fanáticos e novatos podem se divertir igualmente
Ótima evolução gráfica: texturas, iluminação e efeitos lindíssimos
Temas clássicos dos personagens na trilha sonora
Cross-play entre PS4 e PC
CONTRA
Poucos modos de jogo, personagens e cenários  
Problemas gravíssimos anulam a experiência online
  • Redator: Andrei Longen

    Andrei Longen

    Jornalista pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andrei Longen é entusiasta por videogames desde os 7 anos, quando ganhou um Odyssey 2, seu primeiro console. Hoje tem PS4, PS3 e PS Vita e adora caçar troféus em todos os jogos. Colabora no Adrenaline com notícias, análises, artigos, colunas e vídeos.