ANÁLISE: Mortal Kombat X

Mortal Kombat X era um dos lançamentos mais aguardados para o ano que, além de trazer novidades para a franquia como novos personagens e as variantes de estilos de luta, estreia também um recurso especialmente importante para nós, brasileiros: localização em português. Mas o décimo lançamento de uma das franquias de luta mais icônicas do mundo vai muito além de uma dublagem da Pitty. Por isso, confira em detalhes tudo que achamos do game em nossa análise!


História

Geralmente é complicado falar de história em games de luta, mas podemos agradecer à NetherRealm por ter mudado isso quando falamos de Mortal Kombat. No game anterior foi implementado seu novo estilo de campanha, em que o jogador varia de personagem para acompanhar o desenvolvimento da história, recurso aproveitado novamente no título atual. Nesta análise, vamos começar falando dos pontos negativos, depois dos positivos.

A história aqui gira, principalmente, em torno de quatro personagens novos. E "novos" em dois sentidos, porque são estreantes na série e, também, porque são muito jovens. São eles: Cassandra Cage, Jaqueline Sonya Briggs, Takeda Takahashi e Kung Jin. Cada um dos quatro tem algum nível de parentesco direto com personagens mais "klássicos" da série, e teria sido melhor se as motivações deles para se tornarem lutadores fossem melhor exploradas durante a campanha. A NetherRealm parece ter reservado a história deles só para os quadrinhos, mas seria bom pelo menos um pouco mais do passado desses jovens. Takeda é o único que ganha um pouco desse tratamento, enquanto os outros dão a impressão que só estão ali por causa de sua descendência.


Outro probleminha que a NetherRealm encontrou foi que ela quis contar uma história muito diferente em MKX, mas, ao mesmo tempo, continuar os acontecimentos de MK9. Tendo matado a maior parte dos seus personagens no título anterior, ficou um pouco "mal contado" como o enredo muda de assunto para este título e algumas pontas soltas acabaram sendo inevitáveis. Isso fora a descaracterização de alguns personagens, sendo Scorpion e Johnny Cage as maiores vítimas disso. Cage, aliás, principalmente. Ele deixou de ser um ator perdido num mundo real de luta e morte para se tornar um Special Forces engraçadinho.

Até aqui fica parecendo que eu não gostei da história em Mortal Kombat X, mas, pelo contrário. No geral, a trama é excelente. Só falei dos problemas antes para tirá-los do caminho. Antes de mais nada, a história é daquele tipo que faz você querer saber o que vai acontecer e jogar pra ver, o que, por si só, já daria à desenvolvedora o direito de dizer "missão cumprida". Mas não só isso, parece que a experiência de fazer Injustice: Gods Among Us trouxe à NetherRealm o "know-how" que faltava enquanto ela fazia MK9 e a história aqui se desenrola como se o jogador estivesse lendo quadrinhos ou assistindo a um filme. As lutas, de certo modo, são todas justificadas (algo que não acontecia no título anterior) e em nenhum momento dá pra sentir que o jogo estaria apenas "enchendo linguiça", entregando um enredo satisfatório do início ao fim e de boa duração. Algumas reviravoltas acontecem (e são muito bem-vindas) e a quantidade de mortos do título anterior, apesar de ter causado um começo meio desastrado para a história de MKX, acabou resultando também num "efeito Game of Thrones", no qual você nunca sabe quem vai morrer. Esse clima é imprescindível para o universo de Mortal Kombat.

A quantidade de mortos do título anterior, apesar de ter causado um começo meio desastrado para a história de MKX, acabou resultando também num "efeito Game of Thrones", no qual você nunca sabe quem vai morrer.

 

Por fim, os quatro personagens novos, em torno dos quais gira a história, são ótimos. Carismáticos em boa medida, às vezes bregas, mas sempre divertidos, eles conduzem bem o enredo e foram uma ótima escolha. A NetherRealm merece elogios não pela sua ousadia em mudar tanto o curso da história de Mortal Kombat e colacá-la nas mãos de estreantes, mas sim por ter feito isso tão bem.

Jogabilidade

Elogiei a ousadia do estúdio em amarrar sua história em torno de personagens estreantes, mas isso não se compara à dificuldade, e o risco, que é implementar tantos lutadores novos, ao mesmo tempo em que a desenvolvedora tenta incorporar novas mecânicas e, de quebra, tira do game kombatentes icônicos, muitos deles favoritos dos fãs. Isso foi bem arriscado e a NetherRealm acertou em cheio.

Os novos lutadores e as variações de estilo trazem um respiro merecido e necessário para a série. Claro que o bom e velho Noob Saibot me faz falta, mas a saudade fica bem menor quando eu encaixo uma satisfatória chuva de socos com o Takeda. Aliás, esse é o melhor elemento da jogabilidade em MKX: é extremamente satisfatório jogar. Num game de luta o mais importante não é a história, mesmo que a deste título tenha sido ótima, mas sim a qualidade do gameplay. Encaixar os combos, fazer os golpes especiais, ou somente emendar aquele bom e velho gancho com gosto, tudo isso deve fazer o jogador se sentir bem. E MKX cumpre com tranquilidade essa função. É bom demais experimentar os novos lutadores e as variações de personagens antigos.

Do Injustice vieram também as interações com o cenário. Ainda não foi alcançada uma interação perfeita, integrada à luta, mas já é feita aqui melhor do que no título de luta com os heróis da DC e, com certeza, muito bem-vinda. Interagir com o cenário combina muito com o estilo de luta oferecido por MKX, até pela sua proposta. São duas pessoas lutando num combate sem regras que pode resultar na morte de uma delas. Nada mais justo, então, que pegar aquele toco de madeira ali pra quebrar na cara do seu adversário.

Os Brutalities já apareceram antes, mas a maneira como são feitos e o resultado final deles mudou tanto que dá pra chamar de um recurso completamente novo.

Outra adição excelente para o título, e que traz muita variação, são os brutalities. Eles já apareceram antes, mas a maneira como são feitos e o resultado final deles mudou tanto que dá pra chamar de um recurso completamente novo. Alguns simples, outros bem complicados, os brutalities agora são executados atendendo a certas exigências durante a luta. Elas variam entre o número de golpes especiais efetuados, ou fazer certo combo, etc. Cada personagem tem 5 brutalities e eles encerram a luta imediatamente, com a morte do oponente. O efeito é bem bacana, trazendo uma morte instantânea, diferente do oponente ficar balançando esperando por um Fatality.

Os Fatalities, aliás, obviamente ainda estão aqui. A impressão, neste título, é que a desenvolvedora procurou fazer execuções mais realistas e violentas do que malucas. Em MK9 talvez tenhamos Fatalities mais surpreendentes no nível do inusitado, mas agora, eles estão mais chocantes pelo seu realismo e riqueza de detalhes. E eles chegam aliados às Faction Kills, novidades para este título.

A Faction Kill é, essencialmente, um Fatality. É executada durante o "Finish Him" e há varias opções. A diferença é que elas variam de Facção para Facção e não entre personagens. Falaremos mais das Facções no segmento sobre o multiplayer do jogo.

Somando-se Fatalities, Brutalities e Faction Kills, não faltam maneiras de matar seu adversário e dá para fazer torres inteiras sem nunca repetir uma execução do inimigo. Diversão macabra, bem do tipo que jogadores de Mortal Kombat procuram.

E há, é claro, a excelente variedade em modos de jogo. Além da campanha e das lutas diretas (local ou online), temos as torres, os desafios e a Kripta.

A Kripta evoluiu muito do MK9 para o MKX e, em sua versão atual, já podemos considerá-la um mini-game. Antes de mais nada, a Kripta traz "unlockables", o que já é muito digno de elogio na era atual. Não se engane, não faltarão DLCs para MKX, mas, mesmo assim, ainda temos um gostinho de como era jogar para destravar features, e, na Kripta, encontramos novos Fatalities, Brutalities, novas skins, artes conceituais, etc. E tudo isso "às cegas". Você destrava um recurso sem saber o que ele vai ser e fica na expectativa do que vai ganhar, é ótimo.

O aspecto "mini-game" da coisa vem do fato de que você deve explorar a Kripta e nem todo lugar é imediatamente acessível. O jogador encontra items e resolve puzzles (extremamente simples) para encontrar novas áreas e destravar novos conteúdos. Só uma dosezinha extra de gameplay que acaba sendo muito divertida. 

Mas a jogabilidade não tirou 10 e há motivos pra isso. Primeiro, porque as variações ainda não são perfeitas. Enquanto há personagens com variantes que realmente mudam seu modo de jogo, passando de ofensivo, pra defensivo, por exemplo, há alguns personagens que não sentem grande diferença de variação para variação, trazendo apenas, alguns golpes especiais novos, e por isso, alguns combos diferentes. Não chega a mudar muito o estilo de jogo, o que foge um pouco à proposta de se ter uma variação.

Outro problema é a presença de personagem na história que não estão disponíveis para escolher no jogo. Já sabe, né? Serão DLCs. Durante a campanha você enfrenta a já anunciada no Kombat Pack, Tanya, mas também luta com Rain e Sindel, por exemplo. Esses personagens provavelmente (pra não dizer certamente) serão disponibilizados para compra mais tarde. Enquanto é normal que a produtora queira ganhar um extra com a venda de personagens, tirar lutadores que estão dentro da história do game para serem vendidos já é demais. 

E não, a polêmica dos "Fatalities fáceis" não tira pontos do jogo. É um recurso tolo e, sinceramente, sem graça, mas que em nada compromete o gameplay de quem optar por não comprá-los.

Multiplayer

O multiplayer de Mortal Kombat X ganha alguns pontos extras pela tentativa da NetherRealm de implementar uma novidade com as Facções, mas esses pontos não serão muitos porque, na prática, esse novo recurso não traz tanto valor ao jogo.

São 5 Facções dentre as quais o jogador precisa escolher uma logo que começa o jogo, sendo possível trocar depois, a qualquer momento. O que as Facções trazem de mais interessante, com certeza, são as Faction Kills, mas há também modos específicos de jogo online com algumas novidades interessantes.

A ideia aqui é que, quando você joga num desses modos, você soma pontos para a Facção que escolheu, a fim de colocá-la na frente das outras. A maioria dos jogadores, provavelmente, não vai ligar pra isso a maior parte do tempo, mas para quem "vestir a camisa" da Facção, dá pra se divertir um pouco tentando ajudar a manter seu time por cima.

Fora isso, há os modos clássicos de multiplayer, um contra um por rank, ou aleatório e lutas em times. Não confunda, o "tag" de MK9 realmente foi embora, a luta por time aqui é que jogadores contam pontos juntos em partidas de 2 vs 2, 4 vs 4, etc.

O maior problema do multiplayer, entretanto, é a instabilidade dos servidores. Frequentemente lutas são desconectadas no meio e, muitas vezes, é difícil até de começar uma partida. Esses problemas foram vistos para o PC, não tivemos condições de avaliar como está a experiência na PSN e na Xbox Live.

Gráficos

Os gráficos de MKX estão incríveis. Os cenários são grandes, ricos em detalhes e "vivos". Dos mais parados como a Sala de Treinamento aos mais movimentados como o "Mercado da Exoterra", há diversos elementos para se observar que enriquecem o jogo. E as lutas, algo que contribui para a jogabilidade, sempre acontecem travadas nos 60fps.

As lutas sempre acontecem travadas nos 60fps.

O design dos personagens, entretanto, é o que torna esse título mais digno de pontos. Há os que são mais sem graça, menos ricos em detalhes, como a Jacqui Briggs. Mas outros, como Scorpion e Sub-Zero, são incrivelmente detalhados e as animações de todos os lutadores são muito bem trabalhadas e trazem maior imersão ao game. A câmera dinâmica que se aproxima e se afasta, dependendo do posicionamento dos lutadores na partida, é o que fecha muito bem a conta de belos cenários com excelente design de personagens.

Uma observação importante aqui: O jogo não está muito bem otimizado para o driver mais recente da AMD, o Catalyst 14.12 (Omega). Em placas Radeon, no cenário Floresta dos Mortos (Dead Woods), especificamente, a imagem fica pixelizada, com rastros e, no geral, horrível (ainda que jogável). Em fóruns da Steam, usuários disseram que resolveram usando a versão 14.07 do driver, mas essa é uma solução não testada e que o Adrenaline não recomenda, uma vez que o downgrade do driver pode comprometer o desempenho em outros jogos. - CORRIGIDO no patch do dia 25/04/2015.

Som

O som foi um ponto polêmico no lançamento de MKX no Brasil. A ideia infeliz da produtora de chamar a Pitty para dublar um personagem tão central ao game, Cassie Cage, teve um resultado tão horrível quanto o esperado. É nítida a falta de respeito da Warner nessa escolha, que estava mais preocupada em trazer hype ao jogo do que em entregar um trabalho digno para os fãs da série. Nenhuma ofensa à cantora aqui, que realmente não tem nada que saber dublar mesmo. O erro é de quem a convidou para a dublagem.

Para piorar um pouco a situação, não é possível optar "in-game" pelo áudio original. Para jogar MKX em inglês, é necessário mudar o idioma do sistema (PS4, XOne ou Steam), o que deixa também os menus e as legendas em inglês, longe do que seria uma configuração ótima para nós, brasileiros.

Esses problemas ofuscam o que, no geral, é uma excelente dublagem. É triste ver que duas decisões tão erradas manchando o que teria sido somente elogios à desenvolvedora. É o primeiro título da série totalmente localizado e temos aqui excelentes atuações, com destaque para o dublador de Shinnok. Aliás, já deixo outra crítica. Todo mundo sabe que a Pitty dublou a Cassie Cage, mas boa sorte para descobrir quem são as pessoas que fizeram um trabalho ótimo e profissional para as vozes dos outros personagens.

É por esses motivos que o som de MKX, apesar de ótimo, leva a nota mais baixa das categorias.

Este é o melhor Mortal Kombat já feito. A NetherRealm poliu e consolidou elementos da jogabilidade da franquia, além de ter incorporado novos recursos com maestria. Se as interações com o cenário e as variações ainda podem ser melhor trabalhadas, isso não significa que já não foram executadas muitíssimo bem e só mostra o potencial que elas trazem para o universo de Mortal Kombat.

A maneira como os brutalities foram inseridos no game e como novidades são destravadas na Kripta adicionam muito valor de replay e de realmente se dedicar ao game para se tornar um excelente jogador de MKX. A Kripta, aliás, ganha muitos pontos pelo valor nostálgico de nos trazer de volta os "unlockables" num momento da história dos games em que eles se tornaram tão escassos.

A Kripta ganha muitos pontos pelo valor nostálgico de nos trazer de volta os "unlockables" num momento da história dos games em que eles se tornaram tão escassos.

 

Os DLCs se tornam aqui um ponto controverso. É triste ver lutadores da história sendo cortados para poderem ser vendidos separadamente, ao mesmo tempo em que algumas adições malucas como o Jason e o Predador são bem-vindos e até fazem sentido serem colocados como personagens extras.

O problema com conteúdo extra e a triste decisão de colocar gente famosa pra dublar em vez de profissionais, piorada pela falta de opção de mudar o áudio em game, tiram a nota 10 da mão deste jogo. Mas Mortal Kombat X ainda é, seguramente, um dos melhores títulos do ano, o melhor jogo da franquia e, com certeza, um dos melhores games de luta já produzidos.

Mortal Kombat X é, seguramente, um dos melhores títulos do ano, o melhor jogo da franquia e, com certeza, um dos melhores games de luta já produzidos.

Conclusão

 

Avaliação: Mortal Kombat X

História
8.5
Jogabilidade
9.5
Multiplayer
8.0
Gráficos
9.0
Som
7.5


PRÓS
Novos personagens
Variações dos lutadores
Brutalities
Faction Kills
Excelentes gráficos
História muito acima da média para um game de luta
CONTRAS
Guerra de Facções desinteressante
Pitty
Falta de opção para mudar o áudio in-game
Personagens da história sendo vendidos como DLC
  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.

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