ANÁLISE: Saw II: Flesh & Blood (PS3)

ANÁLISE: Saw II: Flesh & Blood (PS3)

"Hello, readers... I wanna play a game"

Começar a escrever sobre um jogo baseado numa franquia famosa do cinema é pedir para cair numa onda de clichês das anÁlises de games desse tipo: cerca de 95% dos títulos produzidos a partir de obras da sétima arte é de qualidade bastante duvidosa, quase sempre demonstram resultado aquém do esperado e raramente agregam algo de positivo à indústria dos jogos eletrônicos.

Produzido pelo Zombie Studios e distribuído nacionalmente pela Konami, "Saw II: Flesh & Blood" pode ser classificado como um destes jogos. Mas não no nível mais extremo, pois mesmo que não seja um primor de produção em nenhum dos quesitos mínimos de avaliação, o jogo tem seus momentos interessantes e diverte pela proposta com a qual foi planejado: inserir o jogador no universo mórbido da trama da série "Jogos Mortais" do cinema.



É no embalo promocional do lançamento de "Saw VII 3D", mais recente – e suposto último – filme da marca que estreou em meados de outubro, que "Saw II: Flesh & Blood" chega ao Playstation 3 (e ao Xbox 360) para tentar trazer alguma novidade significativa em relação ao seu antecessor, que jÁ em 2009 fazia jus às torturas sanguinÁrias criadas pelo vilão-mestre Jigsaw, mesmo com vÁrios problemas técnicos.


Descobrir o que de fato pode ser considerado bom, e o que poderia ter sido melhor trabalhado e aproveitado no game é exatamente o propósito desta anÁlise. E você confere cada um destes detalhes nas próximas pÁginas. 

{break::História pra quê?}Um game que tem como proposta transmitir o clima de suspense e situar o jogador no universo de "Jogos Mortais" acrescentando apenas alguns pontos novos – e nada criativos – no enredo não deve ser levado muito a sério do ponto de vista da narrativa. E isso deve ser considerado com qualquer outro jogo baseado em filme.



A trama se apoia nos acontecimentos ocorridos entre o segundo e terceiro filmes da série do cinema. No controle de Michael Tapp, filho do detetive Danny Tapp (personagem de Danny Glover no primeiro filme), você deve ir atrÁs do paradeiro do seu pai, desaparecido desde o encerramento do filme.

Michael precisarÁ explorar cada trecho que percorrer para saber por onde anda ou o que aconteceu com seu ente querido. Por cada etapa que passar, deve coletar papeis, pistas de um quebra cabeça e fitas de Áudio que tragam informações úteis sobre o local e sobre os responsÁveis pela mórbida aventura de terror. É assim que o jogador passa a conhecer mais sobre o enredo.



Não existem animações que complementem o conhecimento do jogador sobre a narrativa. Isso, por um lado, até pode ser bom. Principalmente para aqueles que não ligam para histórias virtuais e se importam apenas com a mecânica de jogo. Por outro, para aqueles que buscam uma história mais sólida e densa, ficarão a ver navios, pois a falta de tais cenas obriga o jogador a sempre ter que consultar os arquivos recolhidos pelos cenÁrios e ler tudo de cabo a rabo se quiser descobrir detalhes importantes.

O problema é que, logo depois de alguns documentos coletados, ter que lê-los a todo instante começa a ficar chato, entediante e monótono. Ter que parar a dinâmica da aventura a todo instante a cada vez que se encontram novos (e são muitos) documentos quebra boa parte do clima pesado característico do game. Quer ver então quando se recolhem as fitas de Áudio: escutÁ-las do início ao fim é uma tortura quase comparÁvel às criadas por Jigsaw.


Exageros à parte, a verdade, por mais radical que possa parecer, é que não hÁ nada que empolgue muito ou faça querer desvendar o – fraco – mistério que cerca o local. Muito menos a correr atrÁs de informações sobre Danny Tapp. Não existe um envolvimento propício do jogador para com o personagem principal que o atice a querer ir muito longe. Se ainda assim prosseguir na partida, provavelmente é porque outro detalhe do game chamou mais atenção.

{break::Jogabilidade limitada}Esse detalhe talvez, não seja nem mesmo a jogabilidade.  Na tensa caminhada rumo à solução do mistério acerca de Danny Tapp, "Saw II: Flesh & Blood" também não demonstra uma boa apresentação nos controles.  

Para além de alguns comandos mais simplórios e corriqueiros, que acionam portas, armadilhas e mobilidade de peças de quebra-cabeças, não hÁ nada de muito chamativo por aqui. Logo no início da jogatina, ter que se acostumar com a câmera, posicionada atrÁs do jogador numa perspectiva em terceira pessoa (estilo "Residet Evil 5"), jÁ vale como um desafio à parte. Mas nada que cerca de meia hora treinando a sensibilidade do analógico para superar o pequeno trauma.


Percorrer cada localidade dos ambientes do significa enfrentar inúmeras armadilhas letais preparadas e posicionadas estrategicamente por Jigsaw e seu aprendiz.  Os comandos nessa hora são um pouco mais apurados, com direito a ter que apertar os botões correspondentes conforme aparecem em sequência na tela. Acertar e errar significa a diferença entre viver e morrer, tendo que voltar a um checkpoint mais próximo caso erre ou morra pelo percurso.

Destaque para a maneira como os quebra cabeças são resolvidos. Alguns realmente exigem certa dedicação do jogador raciocine antes de resolvê-los. É o caso de circuitos elétricos e combinações numéricas relacionadas entre vÁrios objetos. E o mais interessante: a cada vez que os inicia, as peças e a maneira de desvendÁ-los mudam. Ou seja, são aleatórios, seja para enigmas que envolvem números ou deslocamento e posicionamento de peças mecânicas em dispositivos diversos.



Além disso, escolher uma dificuldade mais alta significa puzzles também mais desafiantes. São agregadas mais peças, combinações maiores de números, fios de energia e outros itens que dificultam a resolução dos enigmas, adicionando ainda mais aleatoriedade ao jogo. A repetição dos mesmos tipos de puzzles, contudo, é um revés bastante considerÁvel, jÁ que muitos deles aparecem vÁrias vezes até mesmo em um mesmo estÁgio. É, ainda assim, o ponto mais forte e digno de todo o gameplay.

O sistema de combate, por sua vez, é um quase completo desperdício de processamento de engine. EstÁ certo que "Jogos Mortais" nunca teve muitas pessoas brigando ou se matando gratuitamente a todo instante. No mÁximo, algumas rÁpidas decisões propositais fomentadas pelo desespero de viver.


No game, os encontros com outros prisioneiros das armadilhas de Jigsaw são bastante espaçados e pouquíssimos elaborados. A ideia segue exatamente a maneira como os quebra cabeças são solucionados: basta deixar o inimigo se aproximar, apertar o botão que aparece na tela no tempo certo e continuar a aventura, não havendo qualquer liberdade de execução de ataques mais complexos. Combos então, nem pensar. Seria pedir demais.


A utilização de algumas armas, como clavas pontiagudas, facas, bastões, tacos de golfe ou beisebol aumentam a diversão dos que gostam de ver alguma brutalidade ou sangue jorrando na tela. E convenhamos que, se você escolheu esse jogo para se divertir, é porque no mínimo jÁ gosta da franquia cinematogrÁfica pelos mesmos motivos. Aqui, talvez, entra um incentivo a mais para continuar jogando.

{break::Visual mórbido imperfeito}Falar de grÁficos bonitos na atual geração é chover no molhado. No caso de "Saw II: Flesh & Blood", essa premissa não é de todo verdadeira. Para aqueles que buscam uma aventura repleta de detalhes, texturas bem apuradas e design de cenÁrios bem acabados, é melhor ir procurar em outra cortesia, pois o game apenas cumpre seu papel de não ser feio visualmente. A Unreal Engine 3, nesse game, estÁ literalmente cansada.


O próprio jogo não deixa reparar muito nos grÁficos: tudo é muito escuro, sujo, macabro e imperfeito, características que acabam colaborando muito na atmosfera de suspense e terror típico da franquia do cinema. Ainda assim, hÁ serrilhados por toda a parte e falta definição de texturas em superfícies diversas. A qualidade é, na verdade, aceitÁvel.

O design dos personagens que aparecem pelo game não é tão convincente assim também. Mesmo que queiram passar uma certa sensação de realismo e de desespero apurado por sempre estarem sujeitos às armadilhas mortais de Jigsaw, são bonecos que se movimentam de maneira estranha, duros e sem muita personalidade.  



O que realmente pode ser elogiado nesse quesito é a variedade de ambientes pelos quais Michael passa. Diferente do primeiro game, a ideia aqui é envolver o jogador colocando-o em situações de insegurança mórbida através de cenÁrios diversificados.

De esgotos a fÁbricas imundos, casas a prédios abandonados e caindo aos pedaços, becos chuvosos sem saída, telhados destruídos e hotéis repulsivos, tudo colabora na sensação de isolamento e de que algo o irÁ atacar a qualquer momento, seja à surpresa de uma armadilha bem armada ou o aparecimento súbito de algum psicopata marionete do vilão-mestre.


{break::Sonoridade no tom certo}Na parte sonora é onde "Saw II: Flesh & Blood" mais se destaca. A produtora parece realmente ter prestado mais atenção na trilha e nos efeitos ambientes de som para dar o toque final à sua obra de suspense e terror virtual, seguindo os mesmos passos dos filmes.

O tema que geralmente inicia ou encerra os filmes, logo após à primeira resolução da armadilha ou à resolução do enigma final estÁ logo estampado na introdução do jogo, e se arrastar até as opções do menu principal. Só isso jÁ atribui uma característica marcante que dÁ vida e identidade única ao game, trazendo-o mais próximo das situações sanguinÁrias que acontece nas obras do cinema.


No mais, não é raro caminhar pelas localidades e escutar barulhos estranhos e ameaçadores. Gotas pingando em poças (de Água e sangue), passos ao longe (atrÁs de portas), eco de gritos desesperados, barulhos de portas e objetos diversos batendo e caindo pelos cenÁrios, ferros desmoronando em atrito ensurdecedor com chão ou paredes e ossos se partindo são apenas alguns dos elementos que fazem a aventura se tornar bem mais atrativa do que os quesitos anteriores.


O mais legal, contudo, certamente fica para a dublagem espetacular de Jigsaw. O ator Tobin Bell foi escalado para dar mais vida ao seu famoso personagem e fez uma ponta no game de maneira bastante surpreendente. Ouvir os desafios ameaçadores do vilão e saber que o simples solucionar de um enigma pode jogar sua vida pelo ralo gera muita insegurança e desespero por parte do jogador, que mal pode esperar para saber o que tem que fazer para salvar sua pele das armadilhas.



Quer ver então quando uma televisão do nada acende e lÁ estÁ Billy Idol (o boneco imóvel característico) pelo qual o vilão fala com suas vítimas, relembrando situações nada dignas da sua vida e logo você deve passar por uma prova mortal letal cujo objetivo é descobrir se você é merecedor suficiente de ter uma segunda chance para recomeçar a sua vida. Tudo depende da sua força de vontade. E acredite: você terÁ uma súbita vontade de vencer.  

{break::Impressões finais}"Saw II: Flesh & Blood" chega aos consoles para complementar os eventos da franquia de suspense dos cinemas "Jogos Mortais". O game certamente agrada em cheio aos fãs da série, que terão ao seu alcance alguns enigmas cabeludos para resolver e momentos de puro terror psicológico e mórbido com a entrada triunfal de Jigsaw em algumas cenas. Sua vida serÁ literalmente testada.

Entretanto, para aqueles que buscam por um jogo decente de aventura, que mescle resolução de quebra-cabeças convincentes e boas doses de ação com combates livres e compostos com combos interessantes, hÁ uma penca de outros games de mesmo gênero no mercado para se divertir.



Principalmente porque quase a totalidade dessa mesma penca tem grÁficos mais chamativos, jogabilidade mais interativa e diferenciada, desafios mais diversificados e uma narrativa bem mais chamativa, que não obriga o jogador a ficar lendo documentos o tempo todo ou ouvindo a fitas de Áudio para tentar entender a confusão que estão acontecendo.

Mas caso alguém ainda esteja disposto a experimentar "Saw II: Flesh & Blood", uma recomendação final: vÁ assistir aos filmes. Você vai se divertir muito mais. Mas só veja os dois primeiros, porque os outros cinco são tão ou quase esquecíveis quanto o jogo. O aviso estÁ dado.

PRÓS
CONTRAS
Assuntos
  • Redator: Andrei Longen

    Andrei Longen

    Jornalista pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andrei Longen é entusiasta por videogames desde os 7 anos, quando ganhou um Odyssey 2, seu primeiro console. Hoje tem PS4, PS3 e PS Vita e adora caçar troféus em todos os jogos. Colabora no Adrenaline com notícias, análises, artigos, colunas e vídeos.