Left Alive é o mais novo jogo do gênero de stealth (furtividade) produzido pela Square Enix e desenvolvido pela Ilinix com forte inspiração – ao menos em termos de jogabilidade – na franquia Metal Gear Solid. Apesar disso, seu enredo se passa no universo da série Front Mission, conhecida pelos RPGs táticos formando sua linha principal e por seus diversos spin-offs que se aventuram pelos mais variados gêneros: de shooters side-scrolling até MMOs. Se o game faz jus aos quase 25 anos de história da franquia, você descobre lendo a análise completa abaixo!

Gráficos

Os gráficos de Left Alive parecem uma viagem através das gerações de consoles dos últimos anos, com elementos que parecem ser tirados de uma combinação de jogos de PlayStation 2, Xbox 360 e da atual geração. Os personagens principais, por exemplo, ganharam bastante carinho e atenção, com uma modelagem de boa qualidade e uso de uma grande quantidade polígonos. O trabalho executado por essa divisão da equipe de arte foi competente, definindo de uma maneira visualmente identificável a personalidade de cada um e fazendo-os serem bastante únicos em relação ao resto do mundo.

Os gráficos de Left Alive parecem uma viagem através das gerações de consoles, passando por PlayStation 2, Xbox 360 e a atual geração

Menos consistente é a construção dos cenários onde o jogo se passa. Eles são recheados de texturas de baixa resolução e modelos de menor qualidade, muitos deles com bordas poligonais e pouco naturais. As localidades escolhidas para as missões são pouco variadas e o mesmo mapa é usado de maneira insistente durante a campanha. Essa parte dos gráficos de Left Alive mais parecem um game lançado para Xbox 360, época em que as GPUs eram menos poderosas e as memórias eram mais limitadas.

Os detalhes mais finos do mundo – livros posicionados numa estante, grades que protegem uma janela, cercas de arame farpado – parecem ter recebido apenas o mínimo de cuidado, resultando em assets de baixíssima qualidade e texturas extremamente borradas. Nesse aspecto, o game da Square Enix carrega visuais que, em alguns momentos, dão a impressão de ter saído de um título desenvolvido para PlayStation 2 (e não um dos bons).

Talvez o resultado final não seria tão inaceitável se o jogo ao menos rodasse bem. Mas esse não é o caso, já que mesmo com um computador acima dos requisitos recomendados não é possível atingir um desempenho constante com uma qualidade gráfica ao menos aceitável. Ao ativar as versões avançadas de efeitos mais exigentes como borrão de movimento e oclusão ambiental, o jogo começa a ter quedas severas na taxa de quadros durante momentos de maior ação. E isso acontece com qualquer hardware, não importa o quão poderoso seja. A única solução plausível é reduzir a qualidade dos efeitos até acabar com praticamente um game da geração passada, e finalmente obter um desempenho estável. Talvez se o game não usasse o sistema de DRM Denuvo, é provável que a performance fosse mais aceitável.

Jogabilidade

Se Left Alive fosse um herói mitológico da Grécia Antiga, ele seria Aquiles, e a jogabilidade seria o seu calcanhar. É uma tarefa ingrata tentar achar algo de bom para falar sobre a experiência de controlar seu personagem nesse título. Eu poderia dizer que é possível movê-lo em linha reta quando você deseja, mas a verdade é que obstáculos mínimos como lixos no chão ou até espaços vazios podem travar sua movimentação. Também seria possível falar que o sistema de crafting de Left Alive não é pior coisa do mundo, até lembrar que a ação não pausa ao acessar esse menu – deixando-o exposto a soldados que matam-no de maneira instantânea. Finalmente, o design de níveis seria até que decente, não fosse a repetição exagerada das poucas áreas realmente acessíveis, que são reutilizadas por várias missões em sequência.

É uma tarefa ingrata tentar achar algo de bom para falar sobre a experiência de controlar seu personagem nesse título

Como um jogo de stealth com claras inspirações na série Metal Gear Solid, Left Alive geralmente exige que o jogador vá do ponto A ao ponto B sem ser detectado por um inimigo. Há fortes elementos de sobrevivência no game, como a escassez de recursos e a necessidade de utilizar matérias-primas para criar apetrechos mais sofisticados através de um sistema de crafting. Caso seja detectado por um inimigo, a maior chance de sobrevivência do jogador é sair correndo e se esconder até que eles desistam de procurá-lo. Em alguns pontos, o combate é obrigatório, exigindo um uso mais racional e criativo dos recursos disponíveis.

Na prática, trata-se de uma bela premissa capaz de produzir uma experiência tensa e recompensadora. Mas a maneira pouco habilidosa como Left Alive foi desenvolvido acabou por matar todo esse potencial, transformando cada momento de jogo num verdadeiro sofrimento – e não do tipo que passa uma mensagem forte ou faz o jogador refletir. É o tipo de aflição onde executar ações básicas torna-se um verdadeiro desafio e passar de fase torna-se um teste de paciência e sorte.

Os inimigos são praticamente todos idênticos, tendo realmente só 3 variantes: humanos, máquinas e chefões. O que você mais encontra através da aventura são humanos sem qualquer distinção ou personalidade, todos escondidos atrás de uma armadura genérica. Eles tornam os momentos de furtividade numa verdadeira agonia, pois podem detectar o jogador de longe e até por trás de uma parede. Em outros momentos, porém, eles agem de maneira burra – sem saber de onde vieram 6 coquetéis molotov seguidos ou sem perceber que o personagem principal acabou de passar do seu lado. Essa inconsistência na inteligência artificial, junto do fato de que não há um botão para assassinatos stealth, tornam Left Alive numa grande roleta russa.

Não há qualquer diferença entre controlar cada um dos 3 personagens principais do jogo. Por essa perspectiva – e por muitas outras – faria mais sentido ter apenas um protagonista. A variedade das armas é bastante reduzida, e o único incentivo para variá-las é a aleatoriedade de qual você encontrou em cada fase. O jogo requer constantemente que o jogador fique gerenciando seu limitado inventário através de menus mal organizados e pouco intuitivos, que além de tudo não pausam o jogo. Há seções onde a possibilidade de plantar armadilhas e fios explosivos poderiam brilhar, mas o jogo não dá qualquer pista de que você precisaria dessas ferramentas enquanto ainda há tempo de utilizá-las. Quando você é alertado, não há como combinar as matérias-primas e ainda plantar as bombas antes dos inimigos chegarem. Eu poderia passar mais 9 ou 10 parágrafos detalhando cada falha ou problema grave na jogabilidade de Left Alive, mas vou poupá-los pois já dá para entender o tamanho do sofrimento.

Áudio

Talvez o aspecto mais positivo do áudio de Left Alive está nos menus de configuração: lá, você tem a possibilidade de desligar completamente todos os efeitos e sons do game – e talvez colocar sua playlist favorita no lugar. Afinal, diferentemente dos gráficos medíocres, que você é obrigado a encarar para poder jogar, o áudio ao menos é opcional. Caso seja seu desejo encarar uma experiência sonora, prepare-se.

Na melhor das hipóteses, as atuações estão apenas na média. Na maior parte do tempo, porém, o que se vê é um show de falas pouco naturais e de um falta de expressão que não teria lugar nem nos piores filmes B da Sessão da Tarde. Não há sequer a opção de legendas em português do Brasil, então muito menos teríamos uma dublagem. Curiosamente, a Square Enix resolveu focar seus esforços no ocidente com Left Alive, então o game não possui nem a opção de vozes em japonês – o que poderia ser uma alternativa mais fiel e menos agressiva aos nossos ouvidos. A decisão fica mais estranha ainda se considerarmos que o game teve um lançamento antecipado no Japão.

Para ser justo, a trilha sonora não decepciona, trazendo até um tom épico bastante adequado em alguns momentos.

Para ser justo, a trilha sonora é a única parte que não decepciona totalmente, sendo bastante consistente e trazendo até um tom épico bastante adequado em alguns momentos. Ela possui uma identidade própria e personalidade o suficiente para se posicionar como algo único no mercado dos games. As músicas se assemelham a trilhas orquestrais presentes em filmes de guerra e de suspense, mas com uma dinâmica única e a interatividade necessária para um videogame. Talvez só seria o ideal ter uma maior quantidade de faixas, pois elas começam a ficar repetitivas conforme o final da campanha se aproxima.

Mas não é preciso muito tempo para a imersão criada pela trilha sonora se desfazer e o jogador ficar irritado. Cada vez que um inimigo se aproxima, a inteligência artificial companheira do jogador fica repetindo "Cuidado, o inimigo está se aproximando". Isso acontece mesmo se for você quem está caminhando em direção aos oponentes. Seria até útil se tivesse algum contexto ou alguma variedade nesses alertas. Mas não, é sempre a mesma frase que é dita de novo e de novo a cada 30 segundos. Às vezes, a maneira mais prática de se locomover sem ser detectado é dando seguidas cambalhotas até chegar no seu destino. Você vai passar rapidamente pelo cenário e os inimigos vão lhe tratar como se você estivesse agachado. Mas, caso o áudio ainda esteja ativado, você terá que aguentar o personagem gemendo repetidamente sem qualquer variação de entonação.

História

O enredo de Left Alive se passa entre o final da história de Front Mission 5: Scars of the War – lançado em 2005 para PS2 – e o início de Front Mission Evolved, que saiu em 2010 para PC, PS3 e Xbox 360. A campanha se passa no ano de 2127, quando a nação fictícia de Ruthenia é atacada pela república vizinha de Garmoniya. Os invasores derrotam o exército local, que bate retirada da fronteira, deixando soldados, policiais e civis para trás. Os personagens principais do jogo vêm exatamente dessas três categorias: um soldado de Ruthenia, uma policial da cidade de Novo Slava (onde se passa o game) e um revolucionário de um movimento de liberação local que deu errado.

As grandes revelações do enredo são bem previsíveis e que os antagonistas são uma coleção de clichês sem grande personalidade

Como diz o nome do game, essas pessoas são deixadas vivas numa zona de guerra cheia de inimigos e precisam sobreviver de qualquer jeito. Ao longo do caminho eles vão evoluindo e se superando, e seus arcos de redenção estão longe de serem os piores já escritos para um videogame. Mas isso não muda o fato de que todas as grandes revelações do enredo são bem previsíveis e que os antagonistas são uma coleção de clichês sem grande personalidade ou tempo para se desenvolverem e brilhar. Os caminhos dos 3 personagens principais eventualmente se cruzam, mas sempre há uma desculpa para separá-los imediatamente – e evitar que eles apareçam ao mesmo tempo durante o gameplay.

Durante o enredo principal do game, o jogador irá se deparar com sobreviventes espalhados pelo mapa. Eles oferecem missões secundárias bem simples e com pouco contexto, que normalmente são resolvidas indo do ponto A ao ponto B. Dependendo de quais pessoas e de quantas o jogador salvar, o final da história do game é alterado. O problema é que é praticamente impossível salvar todos na primeira vez que se joga, por causa da escassez de habilidades e recursos. Isso até poderia dar um fator de replay para o game, não fossem todas as suas falhas. Há ainda um sistema de escolher as falas durante as cutscenes, mas que pouco impacta cada conversa individualmente ou o resultado final do enredo.

AVALIAÇÃO:

História

4

Jogabilidade

3

Gráficos

5

Áudio

3
Conclusão

Left Alive tinha um grande potencial para se tornar a mais nova sensação do mundo dos jogos AA – aqueles que se posicionam entre os indie e as super produções. Ele prometia trazer um ar fresco para a popular franquia Front Mission ao apostar numa jogabilidade de stealth aos moldes de Metal Gear Solid. O game foi produzido pela Square Enix e tinha até o designer de personagens da Kojima Productions, Yoji Shinkawa (que hoje trabalha em Death Stranding), a bordo.

Entretanto, todas essas promissoras peças não se encaixam bem e a péssima execução técnica foi a última pá de cal necessária para enterrar o projeto. A jogabilidade é sofrível, com animações ruins, inteligência artificial nada refinada e sistema de combates desequilibrado e inútil. Com exceção dos personagens principais, os gráficos parecem uma mistura de jogos para PlayStation 2 e Xbox 360 e é provavelmente melhor desligar o áudio do que ficar ouvindo "Cuidado o inimigo está se aproximando" a cada 30 segundos.

O game de stealth da Square Enix é um teste para a sanidade mental de qualquer um e é impossível recomendá-lo para qualquer uso além de um cruel método de tortura para seus piores inimigos. Talvez se você for muito fã da franquia Front Mission, adorar Metal Gear Solid e não tiver absolutamente mais nada pra jogar... não, ainda assim eu aconselho ir ver um filme ou dar uma volta na rua. Ninguém em sã consciência deveria jogar Left Alive e o preço de R$ 180 cobrado por ele é uma piada de mau gosto.


PRÓS
  • Modelos de personagens são bem feitos
  • Jogo não crasha nem tem saves corrompidos
  • É possível jogar do começo ao fim
  • Trilha sonora tem personalidade e momentos épicos
CONTRAS
  • Jogabilidade quebrada e desequilibrada
  • Inimigos genéricos e pouco inteligentes
  • Design de missões fraco
  • Gráficos inconsistentes e de baixa qualidade
  • Desempenho ruim mesmo em PCs potentes
  • Atuações pouco convincentes
  • Efeitos sonoros repetitivos