Desde 2002, a Electronic Arts tem disputado de maneira firme com a Activision o título de melhor jogo militar de tiro em primeira pessoa do ano, com a série Call of Duty se tornando a principal rival de Battlefield. Para se diferenciar, o estúdio da EA responsável pela série, a DICE, tem apostado em visuais mais realistas e em modalidades multiplayer com foco em trabalho em equipe e em batalhas de grande escala com até 64 jogadores.

Enquanto a Activision levou 4 jogos para largar suas raízes da 2ª Guerra Mundial em 2007, Battlefield 2 já incluía armas e batalhas modernas em 2005 — isso depois de Battlefield 1942 e suas expansões estrearem com o grande conflito e Battlefield Vietnam se passar durante o conflito que durou até 1975. Portanto, Battlefield 5 acaba sendo muito menos uma volta às origens para a DICE do que CoD: WW2 foi para a Activision no ano passado. Mas com um passado tão recheado de games que exploram a 2ª Guerra, a EA precisa de algo especial para se diferenciar. Se é isso que eles conseguem com seu novo game, você sabe na análise completa abaixo!

Gráficos
Das montanhas e nevascas da Noruega ao terreno lameado da França

Os visuais de Battlefield 5 são a prova definitiva de toda a evolução do motor gráfico Frostbite, que surgiu há 10 anos com Battlefield: Bad Company e cresceu para abrigar praticamente todos os games da Electronic Arts. Seja em seu uso em Star Wars Battlefront, Mirror's Edge: Catalyst ou até mesmo na série FIFA, cada iteração da engine foi de grande importância para chegar na fidelidade e na versatilidade que ela proporciona hoje. E isso aparece com força total em Battlefield 5.

Talvez a parte single-player do game que melhor represente isso seja a campanha "Nordlys", que se passa no inverno norueguês. O game lhe coloca no meio de montanhas cobertas por neve, e se aproveita de todos os efeitos que isso proporciona. Isso inclui pegadas, marcas de esqui e rodas de carro que ficam marcadas no chão, ou coisas mais sutis como a fumaça causada pela respiração ou os objetos acumulando neve. São gráficos de alta fidelidade em cenários amplos, e que ultrapassam o que a série Call of Duty tem oferecido nos últimos anos.

E não dá para reclamar de falta de variedade em termos de cenários. Na história de guerra "Tirailleur", o game te transporta para o interior da França, no que parece ser o outono de 1944. Isso traz um cenário preenchido com paleta de cores mais marrom, mas não no estilo de games de ação de uns 10 anos atrás, onde essa visão dominava a tela sem um maior contraste. Em Battlefield 5, você tem o laranja das folhas secas misturado com o verde da grama que ainda não secou, dando uma bela profundidade para as detalhadas cenas.

Não dá para reclamar de falta de variedade em termos de cenários

As animações são outro departamento onde este jogo de tiro em primeira pessoa brilha, e é uma área onde títulos do gênero não costumam ganhar o devido crédito. A EA já provou que tem um dos estúdios de captura de movimento mais incríveis do planeta com games como Mirror's Edge e FIFA, e faz isso mais uma vez com Battlefield 5. A maneira como seu personagem segura as diferentes armas do game enquanto caminha ou corre, o jeito que ele recarrega a arma ou como atravessa pelos diferentes obstáculos mostram um trabalho da maior qualidade nesse aspecto. Talvez o que permite que todas essas animações individuais brilhem da maneira que o fazem é a forma como elas se conectam. A transição é sempre suave e é muito raro de se ter a impressão de que cancelar uma ação gerou qualquer reação pouco natural do personagem.


Battlefield 5 é o primeiro game da história a suportar Ray Tracing em tempo real, mas isso está ao alcance de poucos hoje

Áudio
Dublagem fiel na campanha, mas patética no multiplayer

Apesar do produtor executivo do game, Aleksander Grøndal, ter dito que "sempre vamos colocar diversão sobre a autenticidade" em termos de prioridade, a equipe fez um ótimo trabalho na criação de elementos de época de verossimilhança. Isso inclui personagens que falam apenas em sua língua nativa, sem opções de dublagem em outras línguas. A qualidade acima da média das atuações de personagem como Solveig (uma jovem da resistência norueguesa) ou de Deme (um soldado dos Tirailleurs senegaleses) carregam a sensação de que você está vendo histórias alternativas e não contadas de uma guerra que todos achamos conhecer tão bem. Ela fala apenas em norueguês enquanto ele se comunica com seus companheiros numa variante do francês que é falada em Senegal. Mas o game proporciona legendas em português brasileiro para facilitar a compreensão. Agora, quanto menos a gente falar das atuações na campanha "Under no Flag", com atores ingleses, melhor...

No multiplayer, você ganha acesso a uma gama muito mais ampla de línguas para as falas, incluindo aí dublagens brasileiras. O problema é que elas não trazem a qualidade das vozes das histórias de guerra, mesmo em sua versão original (em inglês). Mas pelo menos a dublagem original serve como som de fundo para partidas online, se misturando com os barulhos de tiros e explosões sem muito destaque. As vozes em português, por outro lado, são apenas sofríveis. Tem uma dublagem para o momento onde o seu soldado está caindo no chão e pedindo pela ajuda de um médico onde ele berra de uma maneira tão amadora e pouco convincente que eu não esperaria ver nem num episódio de Malhação.

As vozes em português, por outro lado, são apenas sofríveis

Jogabilidade
Incentivo ao stealth é traído por herança de Battlefield

O modo single-player de Battlefield 5 enfrenta o sério problema de colocar o jogador em situações que não combinam com as características e com a herança de gameplay da série. Isso é especialmente verdade no fato de que as 3 fases da campanha trazem largas porções onde você é encorajado a usar furtividade para passar despercebido por grandes quantidades de inimigos. Especialmente em Under No Flag, a sensação é de que há muita inspiração na série Far Cry, com a presença de alarmes que você pode desativar e tudo mais. O problema é que você não tem as mesmas ferramentas para isolar inimigos e derrubá-los um a um.

Quase sempre, eu acabava sendo descoberto e tinha que enfrentar ondas e mais ondas de inimigos até decidir ir abrindo meu caminho até o objetivo – onde é reproduzida uma cutscene pré-renderizada e você atinge um checkpoint. Pelo menos você tem várias opções para cumprir seus objetivos. Ainda em Under No Flag, uma hora eu simplesmente cansei e roubei um veículo pesado de guerra alemão e saí atropelando todos os guardas, o que sinceramente foi muito divertido. Numa parte dessa missão, o jogador ganha acesso a um avião da Luftwaffe, o que é totalmente opcional e passou batido na primeira vez que joguei.

Uma hora eu simplesmente cansei e roubei um veículo pesado de guerra alemão e saí atropelando todos os guardas, o que sinceramente foi muito divertido

A grande exceção onde esse estilo de jogo funcionou bem e combinou com a história foi em "Nordlys", a campanha na Noruega. Aqui, você tem acesso a facas que podem ser atiradas e é possível encontrar uma pistola com silenciador no mapa. Além de que o design da fase em geral tende a ser mais propício para o stealth, ao menos no começo. Ter a nevasca para diminuir a distância de visão também ajudou com isso. De qualquer maneira, eventualmente você é incentivado a dar uma de rambo e atirar em todos os inimigos – isso em todas as campanhas.

Multiplayer
As inovações ainda não chegaram

Battlefield sempre foi conhecido pelos seus amplos mapas e o suporte a uma grande quantidade de jogadores na mesma partida, com a possibilidade de até 64 jogadores desde o primeiro game da franquia. A série aposta nessa mesma identidade, tentando recriar uma guerra de amplas proporções em ambientes altamente povoados. É aqui onde realmente dá para se sentir no meio de um grande conflito, algo que apenas um pequeno trecho da campanha permitiu. O maior problema é que o modo que costumava ser o carro-chefe da série, Conquest, não combina muito bem com a seleção de mapas disponíveis. Em geral, eles possuem muitos caminhos circulares que incentivam confrontos desequilibrados, mais baseados na sorte do que na estratégia.

O carro-chefe da série, Conquest, não combina com a seleção de mapas disponível

Isso deve mudar com o tempo, já que a EA preparou um esquema de "jogo como um serviço" para Battlefield 5, através do que a empresa está chamando de "Tides of War". A empresa vai trazer uma série de conteúdos gratuitos para o game, com novos modos de jogo – um deles co-op – novos mapas e até uma nova War Story chamada "The Last Tiger", que vai trazer a perspectiva alemã da guerra. Também serão essas atualizações que trarão o que é mais aguardado de todos os modos multiplayer: Firestorm, que vai trazer a experiência Battle Royale para Battlefield 5.

Sobre o pouco que já temos disponível no game, posso comentar que as disputas multiplayer estão mais dinâmicas e aceleradas, com o fim da aleatoriedade dos tiros de Battlefield 1. Com armas mais precisas, está mais rápido de matar os adversários, trazendo uma espécie de buff para os soldados a pé. A DICE implementou um sistema conhecido como "Attrition", que tenta incentivar mais o trabalho em esquipe, especialmente com seu squad. A vida se regenera parcialmente e você precisa de kits de primeiro socorro para se recuperar 100%. É aí que entram os médicos, que podem jogar pacotes do tipo para seus parceiros. A classe Recon é a única que pode identificar inimigos para a equipe e as Support e Assault proporcionam mais munição, cada uma de seu jeito. Isso coíbe jogadores que querem ser o "Rambo", mas não é o suficiente para transformar Battlefield num verdadeiro jogo em equipe como Overwatch, CS:GO ou Rainbow Six: Siege.

História
Os lados ocultos da 2ª Guerra

A equipe de escritores da DICE merece elogios pela sua escolha de explorar lados da 2ª Guerra Mundial que são muito pouco contados, especialmente nos videogames. Um deles é das mulheres – que lutaram sim no grande conflito – algo que gerou uma série de reações por parte de alguns fãs. Independente disso, a campanha de "Nordlys" é um dos pontos altos do jogo, retratando a resistência norueguesa durante a invasão alemã em 1943. Todas as War Stories do game são fictícias, mas são usadas como forma de representar faces da guerra que realmente existiram. As personagens de Solveig e sua mãe não são os personagens melhor construídos, mas também não tem muito o que fazer com apenas 18 minutos de cutscenes. Os momentos mais memoráveis se dão durante o gameplay, mas o previsível final ainda mantém uma certa potência pelas relações que se criam nessa jornada.

Só que o verdadeiro ponto baixo, em termos de narrativa, é "Under No Flag". Essa campanha é inspirada em operações da Special Boat Section britânica e tenta mostrar um lado menos militar da guerra através do prisioneiro Billy Bridger. É uma viagem cheia de piadas sem graça e clichês que tenta dar um tom mais leve para a série, o que simplesmente não funciona.

É bastante oposto ao que nos é apresentado em "Tirailleur", certamente a mais poderosa e relevante das campanhas. Ela fala sobre os Tirailleur de Senegal, que foram convocados juntos de várias outras colônias francesas para lutar na guerra. A história de Deme e seu batalhão é motivada por atos mais nobres, mas também por um desejo mais egoísta de glória. O mais comovente mesmo é o fato de que um racismo estrutural apagou dos documentos oficiais as conquistas de divisões como essa, que só foram reconhecidas oficialmente há pouco tempo, muitas décadas após a guerra. E o jogo mostra na prática, um pequeno vislumbre de como isso acontece.

O mais comovente mesmo é o fato de que um racismo estrutural apagou dos documentos oficiais as conquistas de divisões como essa

AVALIAÇÃO:

Gráficos

10

Áudio

8.0

Gameplay

8.0

Enredo

8.5

Multiplayer

7.5
Conclusão

Do ponto de vista técnico, Battlefield 5 continua o excelente trabalho que tem sido feito desde 2008 na série com Battlefield: Bad Company com seus amplos mapas e cenários destrutivos – e até por todos os estúdios que usam a Frostbite em seus jogos. Os gráficos são de ponta, a jogabilidade é muito fluída e o som é digno de cinema (com exceção da dublagem do multiplayer). A franquia da EA e da DICE continua evoluindo como parte da vanguarda técnica da indústria, o que é comprovado pelo uso bastante experimental de Ray Tracing em tempo real.

O problema é que, por mais que o game tenha tantas qualidades, parece que seu lançamento foi apressado. A EA até pode tentar disfarçar isso ao transformá-lo num "jogo como serviço", mas a verdade é que grande parte do conteúdo ainda não está no jogo. Apenas 3 das 4 campanhas single-player estão disponíveis, ainda não chegou o modo co-op e nem o Battle Royale e ainda não estão disponíveis mapas que funcionem bem com o modo Conquest. Isso sem contar os bugs, que podem incluir partidas que não carregam ou não terminam e travamentos incômodos.

No momento, o game de tiro da DICE é uma aposta arriscada por R$ 239

Apesar de ter completado todas as campanhas e de ter jogado uma várias horas nos diversos modos multiplayer do game, eu e qualquer outra pessoa ainda estamos muito longe de ver tudo que Battlefield 5 tem (ou terá) a oferecer. O jogo está distante de estar completo, com a expectativa de que seus principais modos de jogo e inovações só chegarão nos próximos meses. No momento, o game de tiro da DICE é uma aposta arriscada por R$ 239, mas que pode se tornar um ótimo investimento dependendo do que a EA adicionar no futuro.


PRÓS
  • Gráficos de ponta
  • Dublagens fiéis na campanha
  • Mostra um lado diferente da 2ª Guerra
  • Animações de grande qualidade
  • Mutliplayer ainda proporciona grandes momentos
CONTRAS
  • Jogo parece incompleto
  • Bugs atrapalham experiência
  • Seleção limitada de mapas atrapalha Conquest
  • Campanhas com foco em stealth não combinam com gameplay