Kingdom Come: Deliverance faz parte de uma curiosa safra de "super indies": jogos que não contam com suporte de grandes produtoras ou publicadoras, mas que ainda assim são ambiciosos em sua escala. São jogos que unem investimentos de grande porte comparado a outros jogos indies, mas ao mesmo tempo se arriscam fora da zona de conforto onde os "AAA" se limitam (afinal tem muito executivos para serem agradados, e correr riscos não é uma boa ideia). É assim que games como Hellblade: Senua's Sacrifice tratam de temas como distúrbios psicológicos, enquanto Kindgom Come Deliverance tem a coragem de criar um simulador aprofundado de como era viver na Idade Média. Mesmo a vida naquela época sendo "um saco".

Análise - Hellblade: Senua's Sacrifice

KCD é um game indie, mas com ambição de um título AAA

KCD se passa no começo do século XV na Boêmia, região central da Europa que hoje corresponde à República Tcheca. O game tem como principal foco tentar retratar a sociedade da época de forma precisa, o que por um lado traz uma imersão fantástica sobre como eram as coisas nesse período, mas por outro lado tornam o gameplay bastante lento e quase tedioso, por outro. Sim, a Idade Média é bem menos divertida do que costuma ser retratada nos filmes e games que consumimos, e a maior parte do tempo você vai estar coberto de lama ou sangue. Ou uma mistura dos dois.

Será que vale a pena passar algumas dezenas, talvez centenas, de horas nesse mundo? Vejamos no resto da análise!

História e ambientação
Prepare-se para jogar um livro de história

Se você não pulou a introdução, já sabe que aqui está o grande trunfo do game. Kingdom Come Deliverance não pega leve no detalhamento da sociedade medieval da Boêmia, e cada pouco o jogador é impactado pelas minúcias da época. É preciso entender as relações de poder nas castas, quem pode falar com quem, quem pode fazer o que, como você deve se portar, etc. Como você é um mero filho de ferreiro, sua simples presença em um ambiente já é ofensivo para alguns personagens. Se abrir a boca, então...

Você assume a pele de Henry, e sua baixa projeção social cria uma situação curiosa: você não é protagonista de muitos dos principais eventos do jogo. Mantendo o realismo que KCD se propõe, sua vida e destino estão sempre sendo definidos por fatos distantes de seu controle. Seja por ataques e pilhagem dos vilarejos onde vocês está, seja pelos caprichos de seus senhores. Você tem liberdade de realizar missões e definir alguns de seus caminhos, mas nos grandes eventos da história você é um personagem fora de foco, assistindo o desdobrar dos fatos sem poder fazer muito a respeito.

A histórias que surgem ao longo do game
são bem trabalhadas e interessantes

Isso não impede de participar de forma ativa em diversas narrativas interessantes, seja roubando cadáveres, seja bancando o investigador em uma espécie de CSI: Medieval Ages, ou seja bebendo até vomitar com um padre e depois ter que dar o sermão no lugar dele. As diversas histórias que vão surgindo ao longo de sua jornada são o principal motivo para jogar KCD e ficar imerso nesse mundo.

A grande quantidade de material escrito no Codex do game dão um belo apoio a essa imersão, e se você tiver paciência para ler alguns dos vários artigos que vão sendo inserido na medida que você avança na história, acabará aprendendo algumas coisas sobre esse período histórico e até mesmo entendendo algumas das complexas relações entre diferentes personagens da trama.

Ficou faltando localização em português

Com tanta ênfase nos diálogos, é um sério problema para gamers brasileiros não haver disponível nem sequer legendas em português. Se você não domina alguma das línguas estrangeiras em que esse jogo está disponível, há um sério motivo para evitar gastar seu tempo aqui.

Apresentação
Bonito, mas nem tanto

Kindgom Come: Deliverance usa o motor gráfico Cryengine, consagrado na nada leve série Crysis. Com um jogo com pegada realista, e um mundo aberto disponível para o jogador, não é nenhuma surpresa que esse game é bem pesado, rodando com dificuldades para manter uma taxa de quadros constante nos consoles. 

A estética do game é bem trabalhada, seja na densidade de vegetação das florestas, seja na complexidade dos castelos e dos vilarejos ao seu redor. O problema é que ficaram evidentes as concessões necessárias para viabilizar esse jogo. A mais marcante são os pop-in de texturas, aquele curioso efeito em que primeiro é carregado a modelagem do objeto e a textura só aparece depois. Isso causa uma quase frequente sensação de que o mundo está "se construindo ao seu redor". Se não bastasse uma parede lisa subitamente ganhar tijolos, esse efeito é notável em personagens, então não é incomum o resto da cara da pessoa que você está conversando surgir do nada. Para um game que se propõe a ser imersivo, isso é bem contra-imersivo.

Bugs e falta de polimento tiram
um tanto da beleza do game

Há diversos cuidados na estética desse jogo, como uso de uma fonte que remete à caligrafia utilizada na época para as legendas, mapas, HUD e interfaces com artes no estilo da época e trilhas sonoras bem ambientadas. As variedades de roupas, armaduras, armas e construções tornam interessante encontrar novos personagens ou descobrir uma nova vila. A sonoplastia acompanha bem o estilo do restante do jogo, com trilhas com temas medievais e bastante barulho de metal sendo batido, vento balançando folhagens e "barulhos de vilarejo". As trilhas sonoras em muito do tempo não chegam a ser um destaque, porém em cenas mais impactantes dão intensidade a algumas partes da história.

Algo que ficou faltando nesse jogo foi uma melhor direção de arte, principalmente nas cutscenes. Em algumas delas falta um cuidado com enquadramentos, transformando cenas épicas em algo quase cômico porque a câmera está posicionada de um jeito engraçado. Algumas cenas chegaram ao absurdo de demorarem mais tempo para serem carregadas do que levaram para ser exibidas, e depois que são mostradas eu sou jogado para... outra tela de carregamento.

Jogabilidade
Suficiente para funcionar como game, mas que pode ser bem irritante

A jogabilidade é um ponto complicado em KCD. Por um lado ela se destaca pela complexidade e variedade de formas de evoluir seu personagem, seja aprendendo artes de um herbalista, evoluir sua oratória ou seu carisma para ganhar discussões "no papo" ou simplesmente aprender a partir uns capacetes com um porrete. O jogo abre diversas formas de resolver um mesmo conflito com essas variações. 

Por outro lado, os desenvolvedores não parecem saber quando deviam parar de complicar as coisas. Você precisa se preocupar com aspectos como a alimentação de seu personagem, seu tempo de sono, estado das roupas, limpeza... tudo isso influencia nas possibilidades de diálogos ou até mesmo sua capacidade de combate. Em alguma medida isso cria situações interessantes, já que você precisa "calcular" seu dia, contando o deslocamento de cavalo, o tempo para realizar a missão e um planejamento para voltar durante o dia, para evitar ser atacado na estrada no meio da noite. E se lavar antes de falar com alguém, caso contrário vai ser difícil conseguir convencer alguém de alguma coisa se você parece feito de lama.

Uma coisa que precisava ser revista é o mecanismo de combate, e é pra mim atualmente a grande falha do game. Seguindo uma lógica semelhante ao que vemos em For Honor, o jogador tem múltiplos ângulos para atacar e defender, fazendo a leitura do adversário e buscando contra-atacar, se esquivar ou bloquear. O problema é que foi feito um erro grave: colocar duas funções essenciais em botões semelhantes.O mecanismo que escolhe o ângulo de ataque é o mesmo que serve para virar o personagem quando ele destrava do inimigo, algo feito com o mouse nos PCs ou o analógico da direita no controle. O resultado é que você nunca tem certeza se vai posicionar sua espada à direita de seu corpo ou se não vai acabar virando seu personagem para a direita e na sequência tomar uma espada atravessada em seu crânio do lado que deixou exposto após esse giro. 

As instabilidades por conta dos botões usados para combate e muitas esquisitices na física fazem com que as lutas sejam frustrantes, e muitas vezes você morre porque não conseguiu executar um comando. Como alguém que está sobrevivendo a maratonas de Dark Souls, sei bem a diferença em ser difícil porque o jogo é difícil (e o desafio é gratificante), ou ser difícil porque a mecânica não é bem realizada. Você acaba se irritando com a sequência de comandos que não são executados e a falta de um feedback para entender porque o golpe não encaixou piora tudo (esse jogo devia ter seus combates em 3ª pessoa, talvez). O cenário também não ajuda, e uma missão stealth acaba indo por água abaixo porque você ficou travado em uma moita.

A mecânica de combate é bastante frustrante,
e o jogador eventualmente é forçado a usá-la

Eventualmente me irritei tanto com o estilo de combater em KCD que acabei evoluindo meu personagem para compensar essa característica: com roupas leves e de boa aparência, e trabalhando muito o carisma e a oratória, criei um personagem que resolve os conflitos através do convencimento. E nos momentos que "a coisa aperta" e começa a pancadaria, quase sempre consigo fugir. Aí outro problema surge em alguns pontos do jogo: em um game que se propõe a dar liberdade do jogador desenvolver seu personagem, eventualmente sou completamente forçado a lutar, sem conseguir ajuda, em situações criadas por cutscenes. Quando a mecânica de luta é inevitável, o game tem alguns de seus piores momentos. Ainda bem que treinei o arco o bastante para resolver tudo na base de flechadas na garganta ou em outra abertura das armaduras.

Outro elemento mais anti-imersivo nesse jogo são as telas de carregamento. O jogo precisa de alguns segundos para carregar praticamente qualquer diálogo, e isso tira muito a espontaneidade de alguns diálogos. Você olha o NPC, pensa em iniciar uma conversa mas... aí lembra que vai perder um tempo esperando a conversa carregar, olhando para uma tela completamente preta. Não são só nos encontros inesperados que isso acontece: entre uma cutscene e outra, muitas vezes acontecendo no mesmo espaço (ou seja, sem novos cenários e personagens aparecendo) há uma espera desproporcional para ver o diálogo ocorrer. Isso quando o o jogo não trava...

Esse game abusa das telas de carregamento

AVALIAÇÃO:

História

10

Jogabilidade

6.5

Gráficos

8.0

Áudio

8.0
Conclusão

Kingdom Come Deliverance tem acertos que o tornam um game que deve ser cogitado por fãs de RPGs complexos, que curtem a temática medieval e tem gosto por histórias bem desenvolvidas. É um jogo para quem está afim de explorar vilas, conversar com muitos NPCs, mexer em seus equipamentos e treinar seu personagem até evoluir suas estatísticas e não tem medo de gastar talvez uma centena de horas no processo.

Mas quando ele escorrega, traz vacilos que tornam difícil de recomendar para os jogadores que saem do perfil descrito no parágrafo anterior. O maior problema parece ser relacionado a falta de polimento do jogo. Os próprios desenvolvedores já admitiram que gostaria de ter tido mais tempo para aprimorar o jogo antes de seu lançamento, algo que é evidente nos eventuais bugs, transições lentas de carregamento e algumas mecânicas mal-implementadas, especialmente a de combate. O sistema de arrombar fechaduras também não está na minha lista de coisas favoritas nesse jogo, e só conseguia realizar a ação no teclado e no mouse (eventualmente jogo no controle, e lá é quase impossível).

KCD tem cara de ser um jogo que estará
melhor daqui a alguns meses

A desenvolvedora tem melhorado o jogo, algo evidente no mais recente patch que tornou mais frequente os salvamentos automáticos (ufa) e também melhorou algumas interfaces, como a de destravar cadeados e fechaduras. Esse é um jogo que tem cara de que estará melhor daqui a alguns meses. Ou seja: melhor comprar mais tarde, quando os bugs estiverem corrigidos e o preço, possivelmente, menor.


PRÓS
  • Pesquisa detalhada de aspectos da época
  • Mundo complexo e várias missões para serem realizadas
  • História imersiva e interessante
  • Múltiplas formas de evoluir seu personagem
CONTRAS
  • Falta de expressividade em cenas e personagens
  • Muitos carregamentos e vários bugs
  • Péssima mecânica de combate
  • Sem legendas em português