Depois de fazer seu retorno em 2014, a franquia Wolfenstein tem prosseguimento em "The New Colossus", ambientado em anos 60 distópicos onde os nazistas dominaram o mundo e onde William "B.J." Blazkowicz assassina tudo que estiver com uma suástica desenhada na tentativa de reverter essa realidade. É um game em primeira pessoa com foco total na ambientação e nos tiroteios em uma experiência exclusivamente de um jogador, ou seja, nada de modo multiplayer por aqui.

Análise: Wolfenstein: The New Order - O retorno de um clássico dos FPS

História e Ambientação
DOOOOOORGAS manolo!

Wolfenstein já contou com soldados-zumbi, Hitler em um mecha e até uma viagem para o inferno na busca por um artefato sacrossanto, e se tem uma coisa que a nova fase da franquia tem usado é a liberdade artística para "viajar na maionese". "The New Order" imaginou o que teria acontecido se a evolução tecnológica acelerada dos nazistas tivessem levado à vitória do Eixo e Hitler tivesse conseguido impor uma nova ordem social com suas armas. "The New Colossus" mantém o embalo.

O jogo tem a premissa de parar no último nível antes de ser completamente satírico, e às vezes erra um degrau. O game não esconde em nenhum momento que é um exagero dos filmes de heróis da resistência, acentuando ao limite os feitos de seu grupo de revolucionários e transformando os nazistas na coisa mais diabólica e detestável possível. E quando acerta, ele é muito divertido.


Você vai querer muito socar essa cara ao longo do jogo

Wolfestein II "viaja na maionese" e muitas vezes isso é muito divertido

"The New Colossus" se aprofundou nas relações dos personagens, especialmente do grupo que forma o Kreisau Circle, criando um conjunto de personagens bastante carismáticos, especialmente quando decidem "encher a cara". As diferentes personalidades e os conflitos entre eles são excelentemente exibidos em cutscenes que merecem elogios por sua qualidade artística, com efeitos de luz e enquadramentos bem pensados e que adicionam dramaticidade às cenas.

Mas nem tudo são acertos no enredo. Wolfenstein é basicamente sobre matar nazistas, sempre foi, e caiu de para-quedas em um momento curioso de revisionismo histórico. Ele aproveita o embalo e até tira onda dessa corrente ultranacionalista americana, algo demonstrado pela presença da KKK e de americanos apoiando a ideologia conquistadora nazista (algo com uma curiosa verossimilhança histórica).

O jogo aprofunda as relações entre os personagens

Mas aí temos momentos em que acho que o jogo falhou. Criar um background de abusos na infância de Blazkowicz não foi uma ideia ruim, mas a execução não me agradou. O jogo não perderia nada sem esse trecho e a parte em que ele volta a lidar com o pai. E o enredo tem diversas outras "forçações de barra" que às vezes colam, às vezes não. Quando colam, criam momentos épicos como tiroteios e nocautes de um Blazkowicz cadeirante ou maluquices em Vênus onde mora Hitler.

Às vezes essa maluquices parecem passar do ponto, e criam bizarrices com nudez de uma grávida, tiroteio, banhos de sangue e desmembramentos (sim, tudo isso é na mesma cena). Longe de mim fazer parte desse moralismo em conteúdos culturais que vem virando tópico por aqui no Brasil, é um jogo para maiores de idade e eu vim pra ver sangue (e não vou me opor a nudez). A cena me perde pela aleatoriedade, e porque ela parece ter sido criada apenas com o objetivo de chocar, com um resultado final que nem ficou legal.

Tem partes que o jogo erra a mão, e acaba surgindo coisas desnecessárias

Colocado tudo isso, acho que no geral o saldo do enredo sai mais no positivo que no negativo. Só esteja pronto para entrar nele com uma mente bem aberta para coisas inesperadas.

Jogabilidade
Jogo de tiro em sua mais pura essência

O enredo tem seus momentos de diversão, mas se você veio até aqui, veio para matar nazistas. E Wolfenstein transforma isso em uma arte. Com classificação indicativa para maiores de idade, ele não pega leve nos desmembramentos, queimaduras, perfurações, contusões e qualquer outra ação que possa levar à morte outro indivíduo. A mecânica está muito redondinha e é muito prazeroso trocar tiros pelos corredores das instalações nazistas ou por cidades demolidas. 

Um grande problema dos jogos que dão a opção de "ser stealth" ao jogador é dificuldade de implementar esse recurso de forma balanceada. Em muitos games você é forçado a ser discreto, seja por ser punido pelo jogo moralmente ou no enredo, ou em casos mais bruscos um "game over" automático quando você falha. Wolfenstein lhe dá a opção de "ser ninja", te recompensando quando fizer isso, mas ao mesmo tempo não penalizando em excesso as outras possibilidades. 

Wolfestein é um dos shooters mais prazerosos de ser jogado

Funciona da seguinte forma: há comandantes ao longo das fases, e eles são capazes de chamar reforços. Se você for visto, os gritos por pedido de ajuda eventualmente chegam a eles, e levam a pedidos de reforços. Assim você tem vários caminhos possíveis: chegar chutando a porta e matando tudo que se mova (inclusive os reforços), ir discretamente pelos cenários e avançar matando menos inimigos (tem certeza que você comprou o jogo certo?), ou matar os comandantes e matar os soldados da região em um número consideravelmente menor do que caso reforços tivessem sido chamados. Assim o jogo agrada todo mundo: quem quer ser stealth se sente recompensado pela maior eficiência que irá ter para passar a fase, quem quer bancar o Rambo vai ganhar ainda mais coisas para atirar nelas. Só não há nenhuma recompensa para quem passar uma fase se matar ninguém, nem mesmo uma conquista. Se não está afim de matar nazistas, não devia ter comprado um game da franquia Wolfenstein.

Os upgrades se adaptam muito bem a diferentes estilos de jogadores

Além da mecânica dos reforços, o jogo também apresenta variações ao sugerir diferentes upgrades possíveis ao longo da campanha. Assim você pode optar entre um corpo que se comprime e passa por locais apertados, uma couraça resistente que possibilita dar carga contra paredes e objetos e destruí-los ou pernas retráteis para ganhar altura e ganhar vantagem no tiroteio. Cada uma dessas variantes também traz benefícios adicionais como slowmotion temporário quando você é visto pela primeira vez em um cenário (precioso para matar um guarda antes dele pedir ajuda) ou mais agilidade para atirar objetos como granadas e machadinhas, dependendo de qual evolução você optar. Essas variações são interessantes porque se encaixam bem com estilos de jogos bem distintos: contrair o corpo e se enfiar em frestas e dutos é excelente para o stealth, as pernas retráteis são ótimas para jogadores táticos que querem vantagem no campo de combate e o "modo aríete humano" é pra quem quer o caos e arrebentar tudo que estiver pela frente. Além dessas melhorias, você desbloqueia novas habilidade na medida que as usa, assim seus headshots passam a dar ainda mais dando depois de um tempo, por exemplo.

Entrar no tiroteio com uma metralhadora em cada mão é diversão certa

Outro elemento importante da mecânica do jogo são as armas, e Wolfenstein II possui uma interessante variedade de armas e usos delas. Graças a um mecanismo de upgrades, é possível modificar o funcionamento das armas, e dar munição perfurante para a Sturmgewehr foi algo muito importante para meu estilo de jogo, por exemplo. Além da variação de armas e suas modificações, o game traz novamente a possibilidade de usar uma arma em cada mão, com o acionamento alternado entre o botão esquerdo e direito do mouse (ou se você estiver jogando errado com um controle, nos gatilhos). Isso é especialmente divertido quando a coisa desanda para um tiroteio desenfreado e que ter uma escopeta em uma mão e uma metralhadora na outra é o melhor jeito de solucionar o problema.

Meu único problema com o gameplay aconteceu no mecanismo de cover. Ao pegar cobertura e clicar com o botão direito o personagem se projeta na borda para atirar aproveitando a proteção do objeto à frente. O resultado foi tão randômico que se tornou inútil fazer isso, na minha experiência. Em alguns momentos o jogo não sabia se mirava por cima ou pela lateral de um objeto, mudanças de posição da mira faziam variar o posicionamento do personagem, tiravam o ângulo de tiro e atrapalhavam a pontaria. Não foram poucos os momentos onde desisti de pegar cobertura, me levantei e fui pro meio do confronto tomando tiro.

Gráficos e Som
Excelente trilha sonora e gráficos

Desde o anúncio do primeiro game ficou evidente o cuidado que a MachineGames teria com a trilha sonora dessa nova fase de Wolfenstein, e "The New Colossus" entrega muitos momentos excelentes. Trilhas de Rock devidamente encaixadas com momentos "badass" de explosões dão um tom de pura diversão. As músicas também dão expressão e ritmo às cutscenes que, como já elogiei no trecho sobre o enredo, são muito bem executadas. Escuta essa aqui e você nem precisa de vídeo para saber a energia que algumas trilhas dão a trechos do jogo.

Eu sempre recebo bem o esforço de publicadoras que localizam o áudio em português, mas infelizmente só deve optar pela dublagem para o Brasil os jogadores que fazem questão de não ler legendas. O trabalho dos dubladores brasileiros é regular, eventualmente tirando a emoção de algumas cenas, porém o que mais senti falta foram os sotaques. O pai de Blazkowicz deixa de ser um caipira, Set Roth é um cientista menos maluco e, para mim, o pior foi ver Irene Engel, a antagonista do jogo, oscilar de uma voz quando fala em alemão para outra quando fala em português. Na versão em inglês a mesma  dubladora alterna entre o alemão e um inglês carregadíssimo de sotaque, algo que na versão em português é totalmente perdido e descaracteriza muito a personagem.

Enredo e os gráficos estão bem alinhados para tornar a experiência bem imersiva nessa realidade alternativa

Os gráficos também estão em um excelente patamar. Os cenários são ricos em detalhes e possuem efeitos de luz que dão muito volume e expressividade aos ambientes. Armas, personagens e objetos tem boas texturas e é difícil notar falta de capricho em algum elemento do jogo. Os menus também são claros e diretos, e possuem artes interessantes, bem encaixadas na proposta meio "futuro do pretérito" do game. Com os gráficos bem construídos e uma narrativa bem alinhada com a proposta, a imersão nesse game é um de seus pontos altos. 


Algumas cenas são carregadas de expressividade

Graças ao uso da Vulkan, o game é leve para o processador, mas seus gráficos tem potencial de dar trabalho para placas de vídeo. Joguei em uma GTX 980 e foi preciso usar o pre-set médio para evitar eventuais quedas abaixo dos 60FPS que aconteciam no pre-set alto. Abaixo, vocês podem ver a nossa luta para rodar o game no PC Baratinho:

AVALIAÇÃO:

História

9.0

Jogabilidade

9.5

Gráficos

9.5

Som

10
Conclusão

Wolfenstein II: The New Colossus mantém o tom divertido e satírico do primeiro game dessa nova fase da franquia e garante muita diversão, seja por sua história "bem viajona" ou por seus tiroteios bastante satisfatórios. A boa variação nos estilos de combate e armas faz com que o jogo se adapte a praticamente qualquer tipo de jogador, exceto aqueles que não curtem matar nazistas de formas brutais ou alguém que não está afim de ver um enredo meio mirabolante.

Precisei de aproximadamente 13 horas para fechar a campanha na dificuldade "Do or Die", fazendo principalmente as missões principais e gastando um tempo adicional por tentar fazer várias delas de modo stealth. Para jogadores que querem caçar missões paralelas e itens colecionáveis, além de decifrar todos os códigos enigma e caçar os ubercommandants no mapa, seu gameplay pode chegar a mais de 25 horas, de acordo com estimativas do site How Long to Beat.

Se você gosta de jogos de tiro, essa é uma compra certa

Não acho a duração insuficiente, porém o final é um pouco frustrante por trazer uma nítida situação de "vamos parar aqui pra já ter terreno para o próximo jogo". Isso é ruim especialmente porque o jogo termina em uma ascendente do grupo de revolucionários, algo bastante anticlimático para o jogador. Colocando isso em consideração, mesmo não sendo necessário jogar o primeiro game para aproveitar Wolfenstein 2, talvez seja melhor para quem não jogou pegar o The New Order (que está com um preço bem mais camarada) enquanto espera por preços melhores do The New Colossus, algo que ao mesmo tempo reduz o tempo de espera que terá para o próximo game.

Para mim, agora o jeito é esperar por um próximo jogo. Já matamos Hittler uma vez em Wolfenstein, mal posso esperar pela próxima.


PRÓS
  • Mecânica de tiro muito divertida
  • Bons graficos e trilha sonora excelente
  • Enredo maluco e satírico
  • Dá pra fazer muitas coisas com um nazista e uma machadinha
  • Não tentaram por um multiplayer sem necessidade
CONTRAS
  • Mecânica de atirar com cobertura meio bugada
  • Alguns trechos "força barra" na história
  • Final obviamente feito para ter uma continuação
  • Dublagem em português descaracteriza os personagens