Marvel vs. Capcom: Infinite marca a entrada da franquia de luta mais caótica da Capcom na geração atual dos consoles, bem como estreia um modo história para um jogo que tem o fanservice como principal premissa e que fica difícil imaginar um enredo. O jogo tem uma forte ênfase no Universo Cinemático da Marvel (MCU) e, até por isso, traz de volta as Joias do Infinito para o gameplay! E como será que ficou essa bagunça toda na hora de jogar? Confira em nossa análise!

História e Ambientação
Falta Espaço pra uma Realidade tão maluca

A história de Marvel vs Capcom: Infinite é tão maluca quanto se espera de um jogo com uma premissa dessas. Dá pra ver que os roteiristas tiveram que suar para dar algum sentido a essa mistura de personagens e o resultado são algumas ideias boas espalhadas num enredo que não é dos melhores. Quando consegue fazer algum sentido, a história de MvCI simplesmente não é muito boa.

Na parte das "ideias boas" podemos citar as fusões que acontecem entre o universo da Marvel e os muitos jogos da Capcom. Como os trailer já tinham mostrado, o principal vilão é Ultron Sigma, uma junção das mentes artificiais do inimigo robótico dos Vingadores e do eterno vilão do Mega Man X. Uma ideia muito interessante para trazer um antagonista representativo para os dois universos e que é de certa maneira inédito. Mas não é apenas este personagem que mostra essa fusão dos diferentes universos. Temos B.O.W.s com simbiontes, uma Monster Hunter subordinada ao Pantera Negra na nação de "Valkanda" e NY se tornou New Metro City. Ou seja, Mike Haggar é o prefeito do Homem-Aranha neste jogo e eu acho isso o máximo.

Na parte das "ideias boas" podemos citar as fusões que acontecem entre o universo da Marvel e os muitos jogos da Capcom

Mas nada disso é tratado com calma ou dá tempo para o jogador digerir. Parece que a história está sempre com pressa, as pessoas se encontram e às vezes elas já se conhecem ou não, de maneira completamente aleatória. Uma hora parece que nenhum personagem da Capcom conhece Thanos, o que faz muito sentido, mas logo depois Chris encontra o Homem-Aranha como se fossem velhos amigos.

Esses problemas ainda seriam pequenos, mas se juntam à falta de capricho geral que permeia toda a história. Buracos no enredo, informações desconexas, enfim, tudo que faz uma péssima história. Um dos maiores problemas aqui é como os autores tratam a Capcom como se fosse um universo só, como se todos os seus jogos pertencessem à mesma realidade. Imagine Resident Evil e Mega Man X numa mesma realidade que você nota o problema sério de se fazer isso.

E tudo isso é agravado pelas legendas, com numerosos e problemáticos erros de tradução que podem mudar o sentido de toda uma frase. No encontro de Chris com o Homem-Aranha mesmo, por exemplo, o protagonista de Resident Evil leva um susto e diz "eu poderia ter atirado em você". A legenda escreve "eu deveria ter atirado em você", uma diferença relevante de diálogo.

o que importa mesmo num Marvel vs. Capcom é o gameplay

Isso significa que o jogo é ruim? Não, claro que não. Marvel vs Capcom nunca teve história e, pra mim, nunca fez falta. Mas não posso avaliar a história sem critério só porque não precisava ter. Se decidiram fazer, que fizessem direito. Da maneira que está, é uma oportunidade perdida. Só que o que importa mesmo num Marvel vs. Capcom é o gameplay e é isso que vamos discutir a seguir!

Jogabilidade
O verdadeiro Poder do jogo

De longe a melhor parte do jogo, é na jogabilidade que MvCI realmente se destaca. Foram feitas mudanças no gameplay que certamente vão agradar os críticos de MvC 3 (que mudou bastante os comandos) e ao mesmo tempo ser um tanto receptivo com novos jogadores. Vamos começar falando do que o gameplay tem de bom.

Voltou a estrutura de soco fraco/soco forte e chute fraco/chute forte, algo que alinha mais o jogo com seus títulos anteriores e quase qualquer outro jogo de luta 2D, tornando ele mais intuitivo para quem já acompanhava a série ou que já joga outros títulos do gênero. Outra coisa que volta é a estrutura de dois personagens por jogador, em vez de três, algo que vamos discutir melhor depois. Além disso há atalhos para os especiais e um novo combo automático que vão ajudar muito quem nunca jogou nenhum game assim. Basta apertar soco fraco que nem um louco que o personagem vai fazer um combo aéreo completo.

Essa estrutura de combos e especiais automáticos impacta em como o jogo é balanceado. Agora os personagens são mais duráveis no combate porque é mais fácil realizar os combos. Se eles arrancassem a mesma vida de sempre as lutas seriam muito rápidas e os jogadores não sentiriam a necessidade de fazer combinações diferentes do que apenas apertar o mesmo botão várias vezes e fazer o combo. O resultado final é que os novatos vão sentir que estão conseguindo fazer alguma coisa logo de cara no jogo enquanto o pessoal mais veterano pode aproveitar o auto-combo pra começar uma combinação e depois seguir com golpes mais avançados pra alcançar aqueles momentos devastadores. E isso é muito ajudado pelo "active switch".

MvCI mata os famosos "assists" em que você podia trazer um dos personagens reserva para dar um golpe e emendar no meio do combo, por exemplo. Agora só dá pra trazer o outro lutador para trocar mesmo, mas em compensação ele já chega batendo e pode continuar um combo que você começou com o primeiro personagem. Isso traz uma dinâmica inédita para a série e, na minha opinião, ficou muito bem implementada. Pessoalmente nunca fui fã dos "assists" que sempre acreditei deixarem mais bagunçado ainda um jogo já muito caótico, além da minha fúria profunda pelo pessoal que usa o Homem-Aranha com Web Ball no assist. O "active switch" é mais simples de dominar e, mesmo assim, ainda permite combos extremamente avançados, emendando dois especiais diferentes numa só saraivada, por exemplo. É extremamente satisfatório moer um inimigo com a Gamora e terminar com a Ascensão Divina pra emendar um Proton Cannon angulado. 70 hits como se não fosse nada.

A adição das Joias traz muita variedade para o gameplay e é extremamente bem-vinda, sendo o recurso mais original do jogo.

Mas é claro que o grande destaque aqui vai para as Joias do Infinito, algo que não víamos desde Marvel Super Heroes. Uma das seis Joias pode ser selecionada na tela de escolha dos personagens e cada uma tem efeitos diferentes, como seria de se esperar. O mais interessante aqui é que, além do "especial" da pedra, que sem chama "Tempestade Infinita", cada uma tem também um "golpe", ativado no L1 ou no LB se você joga num dos controles. Pra quem joga no teclado, procure ajuda. A Joia do Poder, por exemplo, faz uma pequena explosão que arremessa o adversário contra a parede e permite emendar um combo aéreo. Na "Tempestade Infinita", todos os seus golpes ficam mais fortes e não podem ser "tankados". 

A adição das Joias traz muita variedade para o gameplay e é extremamente bem-vinda, sendo o recurso mais original do jogo. 

Como nada é perfeito, existe um problema sério em MvCI que aparece no gameplay: a falta de novos personagens. Para começar, não temos nenhum dos X-Men. Isso por si só já é um problema, mas é algo extremamente agravado por causa da desculpa esfarrapada dada por um dos produtores do game para não termos alguns dos personagens mais icônicos criados pela Marvel:

"O seu fã moderno da Marvel talvez nem se lembre de alguns dos personagens do X-Men, mas eles conhecem alguns dos personagens dos Guardiões ou o Pantera Negra."
Michael Evans, produtor do game em entrevista ao GameSpot

Seria muito mais aceitável dizer que a Fox não liberou a licença e seguir adiante. Mas disputas de direito intelectual à parte, qual a desculpa para o jogo ter tão poucos personagens inéditos? A grande maioria é um port direto de UMvC 3, com algumas poucas novas adições. 

Uma das coisas mais legais a cada novo Marvel vs. Capcom sempre foi ver quais personagens loucos seriam introduzidos no gameplay, mas dessa vez já conhecemos a maioria deles.

Fica a impressão de que, sabendo que os personagens inéditos são os mais interessantes, a Capcom decidiu reservá-los para DLC

E o que agrava aqui é que lutadores inéditos como o Pantera Negra, Monster Hunter e Sigma já foram prometidos como DLC, ficando a nítida impressão de que, sabendo que são os novos personagens que mais interessam, a Capcom decidiu reservá-los para vender separadamente. Golpe baixo.

Multiplayer
Você vai precisar imaginar as partidas na sua Mente

Com um multiplayer mais vazio que o coração do Jedah, a maioria das partidas vai acontecer na sua imaginação. Buscando em diferentes dias e horários com as configurações mais abrangentes possíveis, em todas as regiões e com qualidade de conexão mínima, consegui encontrar uma partida. Isso tende a melhorar com o tempo, mas, da maneira que está, não conte com o multiplayer online como algo para incentivar sua compra. Mesmo que melhore um pouco, com a natureza altamente intensa desse jogo, ficar esperando encontrar adversários vai quebrar toda a diversão e aquela vontade de jogar na hora.

Faltam pessoas e mais modos no multiplayer

"Mas, João! Falta de pessoas não é culpa do jogo!" Mais ou menos, né? A falta de conteúdo, gráficos pouco atrativos e preço alto certamente impactou na falta de pessoas interessadas em experimentar MvCI logo no lançamento. Mas vamos falar, então, especificamente sobre a parte que cabe à Capcom.

O multiplayer é extremamente simplório e pouquíssimo variado, contando apenas com os modos "obrigatórios" num jogo de luta. Você tem as partidas ranqueadas, as casuais e a "liga de iniciantes", que são a mesma coisa que as partidas casuais, mas só podem participar jogadores entre o 15º e o 14º ranking. E acabou. Nada de campeonatos ou outros modos mais criativos para dar um "tempero extra" no multiplayer. 

Gráficos
Parece que faltou Tempo e dedicação nessa parte

Os gráficos de MvCI foram muito criticados assim que o game foi anunciado, principalmente por causa da aparência dos personagens. Em especial as sobrancelhas da Chun-Li, algo que chamou tanto a atenção que chegou a ser consertado. Infelizmente, parece que os jogadores precisavam reclamar de cada problema em cada design, um de cada vez, para que fossem consertados, porque os patches dos gráficos pararam aí. Dante tem um rosto estranho e inexpressivo, parece um boneco, enquanto o Capitão América parece que foi desenhado pelo infame Rob Liefeld.

Alguns dos personagens até contam com um design bacana. O Homem de Ferro não está nada mal e o X também não ficou dos piores. Mas mesmo em seus melhores momentos, os gráficos do game nunca chegam a impressionar ou ser um destaque.

Enquanto os personagens têm os problemas que ressaltei acima, os cenários são um pouco melhores. Os ambientes são variados e contam com uma riqueza interessante de detalhes, especialmente quando há a presença de alguns personagens coadjuvantes de outros games das franquias da Capcom ou do universo Marvel.

Os cenários acabam ganhando esse destaque extra, mas ainda assim não são dos melhores que vimos na geração atualmente. Eles estão dentro do que se espera para jogos atuais e se contentam em "não decepcionar". 

A maior pontuação dos gráficos vai para os efeitos especiais dos golpes e hypercombos, especialmente no uso das Joias do Infinito, que ficaram bem trabalhados e dão uma boa sensação do poder e do impacto das habilidades.

Som
Trilha sonora sem Alma e dublagem variada

Quem acompanha o Adrenaline há bastante tempo deve saber como já fui fã da Capcom. E um dos principais motivos pra isso sempre foi a qualidade das trilhas sonoras já criadas para títulos da empresa, algumas das mais icônicas da história do vídeo game.

Já faz tempo que a Capcom não é mais a mesma, então não esperava grandes coisa para as músicas de MvCI. A trilha sonora não chega a ser ruim, mas não chama a atenção, nem vai ficar na memória.

A qualidade da dublagem varia bastante

Mas num game como este, a parte mais interessante mesmo é reparar na dublagem, já que temos mais de 30 personagens com vozes diferentes para avaliar. E a qualidade varia bastante. Grandes destaques vão para o Homem de Ferro e o Homem-Aranha, com vozes que parecem que saíram direto do cinema e ficaram muito boas nos personagens. Vale a pena mencionar aqui algumas vezes quando colocamos o aracnídeo para enfrentar Spencer e ele diz "você tem um braço de metal? Isso é tão legal!", uma ótima sacada tirada diretamente da participação de Peter Parker no filme da Guerra Civil da Marvel. Outra dublagem que ganha elogios é a do Hulk, que tem um apelido carinhoso para chamar cada um dos personagens quando fazemos a troca. É ótimo quando ele grita "cachinhos dourados!" para trocar pro Thor.

"Cachinhos dourados!"

Só que nem todos os personagens mantêm o nível de qualidade. A voz do Ryu é completamente estranha, mesmo no meio da luta dá pra notar o esforço que o dublador está fazendo pra soar mais grosso e isso acaba com a imersão. O Thor e o Capitão América sofrem do mesmo problema, e não consegui decidir ainda se gosto da dublagem da Morrigan. 

Essa qualidade variável se manifesta bastante durante as cutscenes, em que até os melhores dubladores sentem dificuldade de sincronizar suas falas com as animações exageradas e completamente não naturais dos personagens.

AVALIAÇÃO:

História

6.5

Jogabilidade

9.0

Multiplayer

7.5

Gráficos

8.0

Som

8.0
Conclusão

Marvel vs Capcom: Infinite tem muitas desvantagens, mas, no fim, o verdadeiro problema do jogo é o preço. O modo campanha sem pé nem cabeça e os gráficos mais ou menos são pormenores completamente ignoráveis num jogo de luta com um gameplay bom o suficiente para se sustentar. E o gameplay de MvCI é excelente! Mas a falta de personagens novos e modos de multiplayer tornam muito difícil aceitar os R$ 250 sendo cobrados pelo jogo nos consoles. Os R$ 120 na Steam dá até pra conversar, pros mais viciados na franquia.

Resumindo, temos um ótimo jogo que ainda não parece pronto

A impressão que fica é que MvCI foi mais uma vítima da pressa da Capcom em lançar um novo jogo de luta antes da EVO, assim como aconteceu com Street Fighter 5 no ano passado. E isso combinado com a política da empresa de separar seus melhores conteúdos para DLC. Resumindo, temos um ótimo jogo que ainda não parece pronto. Não ficaria surpreso se, em conteúdos futuros, tenhamos não apenas novos personagens, mas também outros modos de multiplayer e até mesmo single player, quem sabe. Até na campanha é possível ter mais coisas, já que a história não termina de maneira propriamente dita. Então a sugestão é a de sempre para casos como este: esperar o jogo ficar pronto antes de comprar. 


PRÓS
  • Gameplay divertido e dinâmico
  • Bastante receptivo para novos jogadores
  • As Joias do Infinito foram uma excelente adição
CONTRAS
  • Poucos personagens inéditos
  • Os X-Men fazem falta
  • História sem pé nem cabeça
  • Dá pra notar o conteúdo que foi cortado pra DLC
  • Preço