Ao lado de "Chroma Squad" e "Krinkle Krusher", Toren" é um dos expoentes recentes da produção brasileira de games. Mas diferente dos dois primeiros, o game da produtora gaúcha Swordtales foi o primeiro a ser financiado com a ajuda da Lei Rouanet de incentivo à cultura nacional. Foram ao menos R$400 mil investidos na produção e 4 anos de desenvolvimento.

Será que o resultado valeu a pena? É isso o que você vai descobrir na análise abaixo, baseada na versão para Playstation 4. O título também está disponível para PC


A confusa ascensão da Criança da Lua 

"Toren" narra a história da Criança da Lua, a protagonista que tem como único objetivo ascender aos céus e garantir a salvação da humanidade das suas tentações mais profundas. O mais legal da história é acompanhar a evolução da menina, desde a sua fase de bebê que mal consegue engatinhar até à fase adulta. E mesmo que não diga uma palavra sequer durante o jogo, ela consegue ter uma personalidade marcante, do tipo que você chega a se importar com o gigantesco fardo que carrega. Principalmente porque ela está sozinha naquele mundão cheio de simbolismos e perigos em cada esquina.

Com a ajuda do Mago, um ser superior misterioso, a Criança da Lua passa a conhecer os lados bons e ruins da conduta humana, tudo pela perspectiva dos seus próprios sonhos. Lendo assim, parece algo grandioso, épico e bem trabalhado. Só que não é: tirando a positiva ambição de trazer algo diferenciado ao mundo dos games, a trama não funciona porque é, acima de tudo, bastante confusa, com diálogos imprecisos e nada esclarecedores, dificultando bastante seu entendimento. O maior pecado aqui é que a história quer parecer ser épica e forçar essa impressão ao jogador a todo momento, falhando em ser relevante, envolvente e, sobretudo, divertida. Algo que jamais deve acontecer em um jogo que precisa de uma história que sirva de pretexto mínimo para continuar jogando - ainda mais quando consideramos um game de aventura.


Crise de identidade na jogabilidade problemática

A jogabilidade de "Toren" se apoia na mistura de resolver puzzles, lutar contra dragões e usar novas habilidades para enfrentar os próximos desafios. Não deixe essas três opções te passarem a sensação errada: embora soem bem trabalhadas e contextualizadas, todas elas têm mecânicas bem rasas, do tipo que mal conseguem empolgar ou divertir. Os próprios comandos da Criança da Lua não respondem muito bem, trazendo problemas nos controles mais básicos: o pulo é bastante esquisito e nem sempre a menina responde da maneira como deveria, podendo ficar, ainda, presa em alguns pontos (bugs de colisão chatos) e até mesmo acabar fazendo a ação oposta do esperado, prejudicando a experiência.

Numa clara influência "Ico" e "The Legend of Zelda", mas sem a genialidade destes clássicos, os puzzles de "Toren" se resumem a arrastar algumas plataformas ou estátuas e encaixá-las numa parte já demarcada pelos cenários, além de acionar alavancas óbvias e mover outros elementos básicos para progredir. Com baixo desafio, todos os quebra-cabeças são extremamente simples, automáticos e ninguém vai ter dificuldades em completá-los, tirando praticamente toda a graça e eliminando toda recompensa que o jogador teria ao ter que pensar para resolvê-los, característica que aqui não existe.

 

 

As batalhas contra os dragões, que poderiam ser o ápice da aventura ou servir de alívio diante dos monótonos puzzles, são entediantes. Além da Criança da Lua ter apenas uma única opção de ataque, os próprios grandalhões não têm liberdade de movimentação. Sendo praticamente estáticos (dão apenas alguns pulinhos laterais e depois voltam à posição padrão), não possibilitam qualquer tipo de estratégia mais elaborada de combate. Acertar alguns golpes logo garante a vitória, denunciado mais uma vez o baixíssimo grau de desafio da jornada.


Alguns desses encontros ainda exigem resolver novos quebra-cabeças durante os próprios combates, o que adiciona uma certa variedade à mecânica. Mas até você absorver isso, o estrago já foi feito e a má impressão sobre o game impera de forma fulminante. No fim das contas, "Toren" se esforça para passar uma imagem de ser bem elaborado ao adotar várias mecânicas simultaneamente, mas que, infelizmente, não consegue executar nenhuma delas de maneira decente, criativa e divertida.

O melhor de Toren: gráficos e áudio

Se tem algo em "Toren" que funciona bem são os aspectos áudio-visuais. Começando pela trilha sonora, as composições misturam tons épicos, emocionantes e melancólicos, casando bem com a aventura. Nos momentos mais calmos, as melodias potencializam a sensação de isolamento e solidão da protagonista na sua jornada rumo aos céus. Nas batalhas contra dragões, as músicas ganham batidas mais agitadas, denunciando o perigo das armadilhas que aparecem pelos cenários, a fúria dos grandalhões que cospem fogo e o (pouco) desafio dos encaixes das peças nos quebra-cabeças. 

Os gráficos de "Toren" também são bacanas e ajudam a construir a beleza fantasiosa e cheia de misticismo daquele universo singular. O destaque fica mesmo para os cenários, que são bonitos, bem variados, têm coloridos exagerados propositais e direção de arte que esbanja claras influências de clássicos como "Ico" e "Shadow of the Colossus". Os efeitos de luz também são decentes e ajudam na imersão do jogador. Só que esse vigor visual nem sempre é positivo: o cuidado máximo com a parte artística dos ambientes foi deixada de lado nos elementos mais básicos da produção, como texturas, vegetação e outros itens de composição e preenchimento, bem abaixo do esperado em ternos de qualidade, impacto .     

AVALIAÇÃO:

História

5

Jogabilidade

5

Gráficos

6

Áudio

7.5
Conclusão

É totalmente louvável a iniciativa da Swordtales em querer deixar seu legado na indústria brasileira de games, que ainda engatinha e não são todos os jogos que chegam a ser lançados para as principais plataformas do mercado. E dá até uma certa sensação de culpa em apontar tantos defeitos em "Toren", que demonstrava bastante potencial justamente por exalar inspiração em clássicos como "Ico" e "The Legend of Zelda".

Mas o resultado aqui é fraco, infelizmente. Tirando a trilha sonora bacana e a estética gráfica interessante, praticamente todo o resto não deixa "Toren" brilhar. A história insiste em querer, sem sucesso, ser épica e trazer textos complexos com várias simbologias, ao mesmo tempo em que os controles falham com respostas problemáticas, pulo esquisito, puzzles simplórios e combates rasos, deixando a experiência muito automática e monótona. É... vai ficar mesmo para a próxima ;) 


PRÓS
  • Trilha sonora emocionante
  • Estética gráfica
  • Produção brasileira financiada pela Lei Rouanet de incentivo à cultura
CONTRAS
  • História bem confusa e com diálogos difíceis de entender 
  • Puzzles extremamente simplórios
  • Batalhas contra dragões não empolgam
  • Combates rasos
  • Baixíssimo desafio
  • Controles não respondem bem (pulo esquisito e bugs de colisão)
  • Mal aproveitamento da protagonista