Chroma Squad é um projeto da Behold Studios, o estúdio indie brasileiro que nos trouxe Knights of Pen and Paper, e que tem uma premissa bastante inusitada: o jogador deve gerenciar uma série de TV de Super Sentai, aqueles esquadrões de heróis multicoloridos japoneses. Além de lidar com problemas típicos na produção de um programa, há também ameaças reais que surgem ao longo do jogo, tudo recheado de bom humor, meta linguagem e, é claro, coberto por nostalgia. E qual o resultado da mistura de tantas cores diferentes num jogo só? Confira na nossa análise!

Antes de mais nada, vamos entrar no clima correto. Escolha a sua trilha: trilha 1, trilha 2, trilha 3. Ah, e pros mais novos, vai aí uma trilha bônus. Pronto, seguimos agora com a programação normal.

História

A brincadeira com "programação normal" não foi um acidente, já que este game tem como temática principal do enredo a produção de uma série de TV. Uma série de Super Sentai, mais especificamente. Sentai significa esquadrão e o termo Super Sentai é usado para se referir aos seriados de heróis coloridos japoneses que já existem há quase 40 anos. Changeman, Flashman, essas coisas, pro pessoal mais antigo. Os mais novos devem conhecer os Power Rangers, que é uma adaptação dessas séries, unindo algumas ideias e cenas da versão original com uma versão "ocidentalizada", para ficar mais palatável ao público dos EUA.


Em Chroma Squad, 5 dublês trabalham numa produção desse tipo, mas estão descontentes com seu diretor. Eles decidem se reunir e criar seu próprio estúdio para fazer seu próprio seriado e vai caber ao jogador gerenciar esse estúdio. E tudo é customizável, você escolhe o nome do estúdio, da equipe, dos "atores, e inclusive, quais vai contratar, além de muitas outras coisas que serão melhor detalhadas na "Jogabilidade".

As decisões do jogador afetam a história e mudam a narrativa do jogo. Há múltiplos finais para se descobrir.

Conforme a história se desenvolve, o jogador vai tomar decisões baseadas em respostas de e-mails, e, assim, mudar a narrativa do jogo. Por isso, a história não é sempre a mesma e inclusive há múltiplos finais para se descobrir. E tudo se desenrola de forma muito leve e bem humorada. O diálogo às vezes é um pouco fraco, mas no geral a história se segura de maneira bastante interessante e algumas das piadas certamente vão arrancar risadinhas do jogador. Isso fora referências constantes a séries nostálgicas, que aumentam ainda mais o brilho deste game para os fãs de Super Sentai.

Mais adiante, no game, a história evolui para problemas mais realistas, de ameaças jurídicas a reais invasores perigosos, o que traz uma nova dinâmica para o game justo quando o simples "tocar um estúdio" estaria começaaando a cansar.

A fortíssima nota que este jogo está recebendo em sua história não é só pelo enredo, mas também pela temática. A ideia inusitada de se ter um jogo em que você deve gravar uma série de TV, mas que cada episódio é uma partida de um RPG tático, além do bom humor e, é claro, tudo isso baseado em séries japonesas com toneladas de nostalgia... É muita coisa pra assimilar e, certamente, contou muitos pontos pela sua originalidade. Outro fator que conta muitos pontos é a maneira como é captado o "espírito" das histórias do Super Sentai, do estilo "todo mundo apanha, herói vermelho se levanta, diz palavras de coragem e justiça e que não vai desistir, o resto do time renova suas energias e o bem prevalece", que coça aquela coceira nostálgica bem no lugar certo.

Jogabilidade

Como citado por cima na história, a jogabilidade é bem variada em Chroma Squad. Antes de mais nada o jogador vai definir o nome do estúdio, do esquadrão e escolher os dublês que compõem seu time, além das cores que cada um vai ostentar. Você pode, pela primeira vez, fazer um esquadrão em que o líder não é o vermelho, por exemplo (sacrilégio!). E a escolha do time não é meramente estética, cada personagem tem atributos diferentes e o jogador escolhe o papel que ele desempenha na equipe: Líder, Techie, Assault, Scout e Assist. Além de características que o personagem usa em combate, alguns têm pontos que ajudam no estúdio, como conseguir uma audiência maior por episódio, ou atrair mais fãs. Então logo no início o jogador vai perceber que ele precisa balancear ganhos para o estúdio e força para as lutas. Tudo isso ficaria mais fácil de entender com um tutorial mais detalhado. O que há no jogo é extremamente simples e se limita ao combate. Este é o principal ponto negativo da jogabilidade.

O tutorial que há no jogo é extremamente simples e se limita ao combate. Este é o principal ponto negativo da jogabilidade..

É na base da tentativa e erro que o jogador vai descobrir como se dá a movimentação dos personagens, seus truques e a melhor maneira de tirar proveito máximo disso tudo. Jogadores experientes em RPG tático não ficarão tão perdidos, mas quem nunca experimentou e foi atraído pela temática do game e não pelo seu gênero, vai sentir muita falta de um tutorial mais detalhado.

Depois de escolher o time, o jogador já cai de cabeça no game, com todas as opções do estúdio disponíveis. No estúdio é possível:

- Customizar as frases de efeito da equipe, nome do mecha, etc.
- Criar e reciclar equipamento, utilizando materiais obtidos, na maioria das vezes, em combate
- Comprar novos equipamentos diretamente na loja
- Contratar uma equipe de marketing que traz ganhos variados para o jogo
- Responder e-mails
- Escolher as habilidades e equipamentos dos heróis
- Melhorar o mecha
- Melhorar o estúdio
- Gravar um episódio

Na tela do estúdio, dois contadores ficam em destaque: dinheiro e número de fãs. O dinheiro, óbvio, é usado para comprar os equipamentos e melhorias do estúdio, bem como contratar equipes de marketing e pagar os gastos para a gravação de cada episódio. O jogador deve fazer bons capítulos para que sua arrecadação seja maior do que os gastos da produção, conseguindo juntar dinheiro. 

O número de fãs é determinante para a existência do programa. A cada temporada de 6 episódios é definido um limiar, cada vez maior, do mínimo de fãs que o jogador deve ter para não dar game over. Esse mínimo é ridiculamente baixo. Por exemplo, na quarta temporada do game eu tinha milhares de fãs, sendo que o mínimo pedido era 60. Além disso, o número de fãs determina as ações que a agência de marketing contratada pode fazer para lhe ajudar. Essas ações vão desde recursos para conseguir mais fãs ou mais dinheiro, ou até coisas que lhe ajudam no combate, como mais HP para os heróis, por exemplo.

Mas todo esse gerenciamento de estúdio fica um pouco tímido e não representa um desafio real no jogo. No fim das contas, o que importa mesmo é o combate, ele que define o sucesso do episódio. Capítulos bem sucedidos já garantem o dinheiro e número de fãs, o que, por definição, resolve qualquer problema do estúdio.

Cada episódio que o jogador vai gravar é uma fase de combate do game, com um número de capangas para vencer e um chefe no final. A luta, como dito anteriormente, se dá no estilo RPG tático e ganha muitos pontos porque ela realmente exige um trabalho em equipe para se vencer. É possível realizar acrobacias em que você usa um personagem para mandar o outro mais longe, ou fazer ataques em conjunto, que dão um dano maior e mais pontos de audiência.

Os pontos de audiência são o que determina o sucesso do episódio. Ao longo do combate, seguir determinados parâmetros e realizar feitos heroicos vão contar pontos de audiência para o jogador. Certos upgrades no estúdio e acordos de marketing, bem como algumas habilidades dos heróis, também colaboram para ganhos maiores de audiências no episódio.

A dificuldade do game está bem consolidada e, jogando-se no nível intermediário, tem-se um pequeno desafio, mas completamente vencível. Na verdade, o real desafio (e diversão) vem de se tentar cumprir as "ordens do diretor". Esses são parâmetros a serem executados durante a luta, como finalizar o chefe com um especial, ou vencer o combate num determinado número de turnos. As "ordens do diretor" variam bastante e ajudam a trazer um diferencial para o combate que, muitas vezes, é repetitivo.

 As "ordens do diretor" variam bastante e ajudam a trazer um diferencial para o combate que, muitas vezes, é repetitivo.

Outro recurso que ajuda a tornar o combate menos repetitivo é a luta com mechas, um grande clássico dos Super Sentai. É quando os heróis chamam suas máquinas gigantes para pilotar um robô imenso que luta contra uma versão aumentada do monstro em cima de uma maquete. Com o tempo, essas lutas com mechas ficam igualmente repetitivas, mas para os fãs de heróis multicoloridos, elas nunca deixam de ser divertidas.

A jogabilidade, que no geral é bem legal, porém, perde pontos pela falta que faz um simples tutorial mais completo, pelo gerenciamento do estúdio que fica muito em segundo plano e pelos combates, eventualmente, tornarem-se repetitivos. Deixando uma coisa clara: para fãs de Super Sentai, o game se segura muito bem em sua jogabilidade, mas para quem não é tão doido pela temática e é mais exigente com o gênero, deixa um bocado a desejar.

Gráficos

Como a grande maioria dos games indie, Chroma Squad traz seus gráficos no estilo 8bits pixelizado. Não é uma opção que agrada a todos e, honestamente, está ficando um pouco saturada, mas para um game que se ampara tanto na nostalgia como este, o estilo se torna bastante válido.

As artes são feitas com capricho e os personagens são ricos em detalhes. Além disso, há diversas opções de customização e novos trajes se refletem em novas aparências para o seu esquadrão, o que ajuda a manter a estética do jogo renovada. Um grande destaque aqui para os designs dos chefes, sempre muito detalhados, bem trabalhados e, diversas vezes, até divertidos e engraçados.

Um elemento extra muito bem-vindo aqui é uma espécie de filtro que dá à cena uma aparência de que você está vendo a tela através de uma televisão velha, assim que o jogo carrega e a nova imagem aparece. Esse filtro vai gradativamente sumindo, dando uma impressão que o jogador está "entrando" na TV aos poucos. Um recurso simples, bonito e excelente para a imersividade. 

Os cenários, infelizmente, se repetem com frequência, o que na verdade acontecia muitíssimo nos seriados de Super Sentai das antigas, então fica difícil saber até onde isso aqui foi limitação do desenvolvimento e até onde estão seguindo a tradição. Mas o combate já tende a ter uma jogabilidade repetitiva e, às vezes, isso é agravado pela repetição do cenário, então alguns pontos são perdidos aqui. E a customização do mecha também deixa um pouco a desejar. Fãs das antigas sabem o momento épico que era a aparição do robô gigante colorido, e seria melhor se tivéssemos mais opções para escolher a aparência do nosso.

Som

Seguindo a estética do game, a música é aquela que você ouviria jogando um game no Nintendinho. Não há dublagem, todo o diálogo se dá por textos (com opções de português ou inglês), ficando a nota de som toda por conta da trilha sonora e dos efeitos sonoros.

A sonoplastia, aliás, é muito boa. Há uma ótima variedade de efeitos sonoros e o impacto dos golpes emite um som satisfatório, daquele que faz o jogador ter vontade de dizer "toma essa". Isso é ainda melhor nas lutas com o mecha. Em escala gigante, os sons ficam "estourados", emitem ecos, e o impacto é bem maior. Tudo contribui para o aspecto de clímax que essas lutas têm e fica otimamente executado.

A trilha sonora, por sua vez, é inteiramente original, o que conta pontos, mas tende a ficar um pouco, adivinha, repetitiva. De novo, junto com o cenário e o sistema de combate, não ajuda. Mas, no geral, são músicas gostosas de serem ouvidas que contribuem para a ambientação do jogo e distração do jogador, que passa horas ali sem nem perceber.

AVALIAÇÃO:

História

9.0

Jogabilidade

7.5

Gráficos

8.0

Som

8.0
Conclusão

A Behold Studios nunca escondeu que Chroma Squad é uma obra feita de fãs para fãs, com as vantagens e desvantagens que isso traz. A intenção do jogo, principalmente, é agradar os entusiastas das antigas séries de Super Sentai e ele faz isso com perfeição. Amantes do gênero tático RPG, que não ligam para os esquadrões multicoloridos, provavelmente não verão muita graça neste game, que é bem mais superficial e simples. Mas isso é vantagem para quem não é fã do gênero e veio pela temática. Tendo uma jogabilidade simplificada, o jogo se desenrola de maneira leve e divertida, e você passa horas jogando sem nem perceber. Perfeito para ser jogado naquelas tardes chuvosas de fim de semana.

Como dito antes, muitas vezes Chroma Squad alcança aquela coceira nostálgica no lugar certinho e você sente que valeu a pena passar por mais um combate. A tendência do game em ser repetitivo pode não ser um problema tão grande pra quem gostar do sistema. Pessoalmente, me divirto durante as lutas e em tentar cumprir as ordens do diretor, então não ligo para a repetição. Aliás, vale a pena lembrar que os próprios Super Sentai das antigas eram extremamente repetitivos. Praticamente 40 episódios de "filler" entre 10 que realmente avançavam e concluíam a história.

Além de ser extremamente original, o principal atrativo de Chroma Squad, talvez, é que o game é gostoso de se jogar.

Além de ser extremamente original, o principal atrativo de Chroma Squad, talvez, é que o game é gostoso de se jogar. Depois que o jogador consegue aprender como se dá a jogabilidade, o game segue por horas divertindo. Aí, quem não se convence pela temática, se contenta porque teve algumas horas de entretenimento. Quem é fã, continua por horas a fio, com um sorriso no rosto e um calor no coração.


PRÓS
  • Nostalgia na medida certa para os antigos fãs de Super Sentai
  • Arte caprichada e rica em detalhes
  • Combate com foco pesado no trabalho em equipe
  • Lutas épicas com o robô gigante
  • História bem humorada e interessante
  • Estúdio brasileiro fazendo um ótimo game
CONTRAS
  • Tende a ficar repetitivo
  • Falta de um tutorial detalhado
  • Diálogos ocasionalmente fracos
  • Gerenciamento do estúdio fica em segundo plano
  • Criar equipamentos na maioria das vezes não vale a pena
  • Mecha poderia ter mais opções de customização