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internet categoria : internet | 03.04.2009 / 16h25

Last.fm: o fim da revolução social musical?

autor: mauro

“A revolução social musical” – este era, e ainda é, o slogan do Last.fm, site nascido no Reino Unido e popularizado a partir de 2005, permitindo ao usuário ouvir músicas gratuitamente ao mesmo tempo em que cria uma página com seu perfil musical personalizado a partir das músicas que escuta, seja na rádio ou em seus arquivos mp3 ou CDs – tudo a partir do plugin Audioscrobbler. O sucesso do site entre internautas entusiastas de música foi crescente, tendo se tornado uma espécie de “Orkut musical”, com mais de 30 milhões de usuários em 195 países, segundo a equipe do site.


A fórmula do serviço do Audioscrobbler somado ao discurso de “integrar o mundo através da música” representa a peça-chave do sucesso do site. No entanto, esse discurso foi posto em contradição no dia 27 de março, quando um anúncio oficial no blog da equipe dizia que o serviço de rádio passaria a ser cobrado de todos os usuários (€3,00 ao mês), exceto aqueles que residem nos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha. O motivo seria a necessidade de aumentar a receita, que não seria mais suficiente para remunerar os artistas e gravadoras pelos direitos autorais da veiculação de suas músicas.

Em tempos de Internet e globalização, e indo de encontro com a proposta do site até então, a declaração foi recebida de forma negativa pela maioria dos usuários, sendo que alguns chegaram a deixar comentários enfurecidos (a página teve que ser bloqueada, após 1.651 comentários terem ido ao ar). A diferenciação de países feita através da exigência ou não do pagamento, contradizendo a anulação de barreiras geográficas que caracteriza a Internet, foi o que mais decepcionou os “fãs” do Last.fm, conforme comenta o usuário brasileiro Juliano Polimeno: “Acho injusto, e até mesmo um pouco de preconceito, que 192 países tenham que pagar e somente três países – sendo países ricos – não. Ainda mais se considerarmos que existe publicidade brasileira no site. Encerrei minha conta no site como forma de protesto”.

Atitudes semelhantes à de Juliano foram tomadas por um número significativo de usuários, desde imagens parodiando o logotipo da empresa a comunidades e músicas temáticas gravadas em protesto. A exclusão da conta no site é a atitude mais radical, e está sendo tomada por um grande número de pessoas. “Agora eles devem perder muitos usuários, e consequentemente o banco de dados do site – que é a ‘menina dos olhos’ deles – deve diminuir bastante, o que vai fazê-los perder anunciantes. Considero esta uma péssima jogada de marketing”, analisa Juliano, que é fundador da Phonobase, agência que presta serviços de marketing e produção para músicos e atualmente conta com três artistas com músicas inseridas no catálogo musical do Last.fm. Aí entra outro ponto da questão: Os artistas independentes que enviam faixas gratuitamente para o site serão pagos, já que o site passa a cobrar de seus usuários? Nada disso foi esclarecido até então.

Mas nem todos pensam como Juliano. Há usuários que acham justa a mudança, como é o caso do estudante de psicologia João Henrique Furtado, de 19 anos, que diz: “Se o site fosse brasileiro e as cotas de publicidade de outros países não compensassem, não seria mais do que justo os brasileiros tivessem prioridade para os serviços do site? Pode soar como xenofóbico, mas temos que entender qual o público-alvo deles”. João Henrique comenta ainda que o principal serviço do site, para ele, não são as rádios, mas sim a rede de relacionamentos: “O que a rádio Last.fm faz qualquer Youtube ou  qualquer rádio online faz. O legal é ter um perfil que mostra as músicas que você escuta no seu PC, e com isso você não só acha bandas parecidas com as que você escuta, mas pessoas com um gosto parecido com o seu. Sem contar que você se aprofunda em bandas que você já conhece. Eu mesmo descobri álbuns e bandas muito boas - e isso eu não fiz através da rádio”.

Mesmo com opiniões de apoio ao site como as de João Henrique, a enorme quantidade de reações negativas pressionou a equipe a adiar indeterminadamente a decisão de cobrar a polêmica taxa, segundo anunciado no blog oficial no dia 1º de abril, data em que o serviço de rádio passaria a ser bloqueado para usuários não-pagantes. E não foi pegadinha do Dia da Mentira, não. Será que os administradores do Last.fm não esperavam por uma reação tão negativa? Se for este o caso, acabaram sendo vítimas do próprio “monstro” que criaram: sua enorme comunidade de usuários, que estranhou a atitude corporativista de um site que até então era visto como uma alternativa para a política de negócios conservadora adotada pelas grandes gravadoras. Bom, o Last.fm foi adquirido em 2007 pelo conglomerado CBS, que engloba grandes e enormes empresas de comunicação. Será que isso significa alguma coisa?