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eletrônicos categoria : eletrônicos | 25.02.2010 / 08h35

iPad: trajetória e estratégia

autor: risastoider

O iPad chegou. Depois de meses, até mesmo anos, de rumores, especulações, imagens conceituais e muita expectativa em cima das funcionalidades do novo brinquedinho da Apple, Steve Jobs  subiu ao palco em evento em São Francisco, nos EUA, e exibiu sua nova criatura para o mundo.



Mas, quanto maior a esperança, maior a queda. Fato é: quando se  trata da gigante de Cupertino, qualquer sinal de um novo produto transforma-se praticamente em um mito. E, é claro a empresa se aproveita disso para atrair os holofotes para si, criando uma expectativa tão grande que, até mesmo quem não é fã, acaba curioso para saber o que vem por aí.

E, quando vem, nem sempre agrada. Foi assim com o iPad. E, embora as pessoas tenham que esperar ainda um tempo para por as mãos em um, já chovem críticas em cima do aparelho. Os blogs e sites especializados não esperaram para fazer piada, como esta:



Quem viveu em 2008 deve lembrar. É praticamente a mesma anedota do lançamento do iPhone 3G.



Sim, ninguém dava nada por ele no início. Porém, pouco tempo depois, o smartphone da Apple virou referência no mercado, inspiração para outras fabricantes e objeto de desejo de muita gente. E o iPad, como fica nessa?

Era uma vez...



Os primeiros rumores começaram muito, muito antes de o iPad mostrar-se real. O site Fast Company elaborou uma linha do tempo interessante a respeito do assunto, que mostra que, em 2007, falava-se em um retorno do antigo Apple Newton.

O Newton é citado frequentemente quando o assunto são os “micos” da Apple. Especialmente porque o aparelho não se popularizou muito e logo foi ofuscado pelo lançamento dos Palms, que passaram a dominar o ramo dos PDAs. Mas o que esse Newton tem a ver com o iPad?



O equipamento é um PDA, mas havia sido projetado, inicialmente, para ser um tablet. Com Steve Jobs fora do comando, o então CEO da companhia, John Sculley, idealizou um equipamento diferenciado, do tipo que anteciparia as necessidades do consumidor. No final das contas, seria um tablet do tamanho de uma folha A4, custando o mesmo que um desktop comum.

Acontece que a empolgação foi tanta, que o projeto final  acabou mostrando um produto com muitos recursos acumulados, o que tornaria a novidade excessivamente cara. Foram muitas idas e vindas, pressões e mudanças no conceito, até o produto concreto, o PDA Newton, chegar ao mercado,  bem diferente do que era a concepção original.



Lançado em 1993, o Newton nada mais era do que um PDA, no estilo do Palm Pilot, lançado três anos depois, e de mais uma enxurrada de produtos inspirados nesse conceito. O gadget tinha uma tela sensível ao toque, com a qual o usuário interagia com uma caneta stylus, além do seu maior atrativo: o reconhecimento de escrita, algo revolucionário na época. O aparelhinho tinha vários recursos comuns nos eletrônicos portáteis de hoje em dia, como capacidade de enviar e-mails, além de vir com utilitários para organizar tarefas e contatos.



Mas, se agora essas funcionalidades são praticamente o básico exigido pelo usuário, talvez, naquela época, a maioria das pessoas não sentisse necessidade de nada disso e nem queriam pagar caro por um dispositivo portátil um tanto parrudo.

Portanto, muita gente discorda ao ver o Newton figurando na lista de fracassos da companhia da maçã. Em 2006, por exemplo, o CNET travou uma batalha de gadgets entre o Newton e o Samsung Q1. O vencedor? Apesar de mais antigo e com algumas limitações, como tecla monocromática, o Newton levou os méritos, mostrando-se mais estável com uma duração de bateria até 12 vezes maior que a do adversário.


Samsung  Q1, um pioneiro no ramo dos tablet PCs, versus o PDA Newton


O Newton não foi um grande sucesso, nem de público e nem de crítica. Mas a ideia ficou ali, guardada. Até que, em 1998, Jobs retornou ao comando da Apple e, em 2007, ele mostrou ao mundo aquele que iria revolucionar o mundo dos  smartphones: o iPhone, o "pai" do  iPad e... "filho" do Newton?



Totalmente touchscreen, com a grande novidade da tela capacitiva com suporte para reconhecer toques de vários dedos, inicialmente o celular da Apple foi duramente criticado. Mas,  um tempo depois, o aparelho logo estava inspirando outras marcas, além de ser descaradamente copiado em larga escala pelos chineses. Assim, pouco a pouco, o iPhone foi mostrando suas vantagens e redefinindo o cenário dos eletrônicos de consumo.


Hiphone, um dos "célebres" clones do iPhone


Acostumando o mercado



Quando o iPhone chegou, foi aquela coisa... a câmera é ruim. Não é multitarefa. Não suporta Flash. Usar um teclado virtual na touchscreen deve ser horrível. Que porre é não poder plugar o aparelho na USB do computador e arrastar suas músicas, vídeos e aplicações direto para ele...

Mas vejam, o modelo de App Store está servindo de inspiração para muitas outras empresas e suas respectivas plataformas. A Nokia tem sua  Ovi Store, e os usuários do sistema Android também podem puxar programas através de uma loja de aplicativos, por exemplo. É impossível negar que é um modelo bastante intuitivo para quem não é muito geek, basta buscar qualquer coisa para o seu aparelho, comprar e instalar diretamente.



A câmera do aparelho pode não ser uma maravilha, mas cumpre seu papel. Talvez porque a Apple pense que um celular deve ser um celular, e não uma poderosa câmera de alta resolução. Isso também ajuda a não levar o preço às alturas e atingir um público maior.

Na realidade, o grande apelo é para o público “comum”. Não necessariamente para o usuário que busca requisitos técnicos superiores, mas para quem se encanta com um brinquedinho que pode ser muito útil, mas que também oferece uma variedade de bobagens para puro entretenimento. Basta dar uma olhada nos aplicativos disponíveis na App Store.

E assim, o iPad segue o mesmo modelo, que conta, também, com as mesmíssimas limitações.

Na época do lançamento, os grandes atrativos  do iPhone não eram, exatamente, suas especificações de hardware, mas sim a “mágica” de redimensionar imagens com os dedos, navegar por capas de CDs como em uma prateleira virtual, jogar boliche com o acelerômetro e, por fim, ter à disposição uma loja com milhares de músicas, vídeos, séries de TV, trailers e aplicativos para download diretamente pelo aparelho.



O que a Apple faz é tentar antecipar tendências, o que deu certo com o iPhone. E, provavelmente, está tentando fazer a mesma coisa com o seu tablet. Por isso, algumas das limitações dos seus produtos podem não ser totalmente compreendidas à primeira vista. Falo, especialmente do suporte ao Flash.

Ultimamente,  tem-se falado bastante no HTML5, que promete revolucionar a linguagem das páginas da web. Uma das suas principais vantagens é eliminar a necessidade do Flash para a visualização de vídeos via streaming. O Youtube já colocou no ar uma versão de testes com o novo padrão que, se vingar, pode mesmo tornar o Flash obsoleto.

Está claro que a Apple está tentando forçar a adoção do protocolo, se considerarmos as críticas que Jobs têm lançado contra a Adobe. Após apresentar  o novo iPad ao mundo, o executivo reuniu-se com os funcionários da empresa em uma reunião interna, na qual, basicamente, referiu-se ao Flash como bugado demais, a  ponto de causar a maior parte dos travamentos no Mac OS X. Isso, em parte, justifica a ausência do recurso no iPhone, no iTouch e no iPad. OK, é fácil colocar a culpa nos outros quando alguma coisa dá errado... mas é inegável que a internet evolui e, com ela, também muda a forma como os conteúdos são disponibilizados.  

Se o iPhone é um sucesso, o iPad também pode ser. E, antecipando tendências, pode ajudar na adoção em massa do HTML5. Não necessariamente para sepultar o Flash, mas emergindo como mais uma alternativa. Desse modo, cada usuário poderá optar pelo padrão que melhor lhe serve. E que vença o mais estável, rápido e seguro de acordo com as necessidades de cada um.


Viu os "buracos" na tela? Por enquanto, é assim que páginas com elementos em Flash são vistas no iPad.

Filho de peixe... "peixão" é?

Três anos depois do lançamento do iPhone, apesar das críticas e das limitações aparentes, o iPad simplesmente reaproveita a ideia e joga em uma tela maior. Ao menos é o que parece, enquanto o equipamento não chega às mãos dos consumidores.



“O iPad é um iPod Touch grande”, muitos dizem. Vale ressaltar, porém, que esse fato traz uma vantagem: como o próprio Jobs enfatizou no evento, já existem cerca de 75 milhões de pessoas que “já sabem” usar o iPad, pois são proprietárias de iTouchs e iPhones.



Agora, se essas pessoas irão encontrar alguma vantagem em adquirir um produto parecido, com funções e usabilidade semelhantes, é uma outra história, que só iremos conhecer a partir de março, quando a novidade chegará às prateleiras. Ao menos nos Estados Unidos, já que, por aqui, a novidade ainda deve demorar.

As especificações do produto incluem:

Steve Jobs crê que a novidade pode ser melhor do que um netbook. Não há como negar, porém, que seu funcionamento é diferente. Resta esperar a chegada do iPad ao mercado para sentir, definitivamente, como é manusear um. Mas uma coisa é certa: melhor ou não, o tablet da Apple encontrará seu nicho,  nem que seja somente entre os  fãs dos produtos da companhia.