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GAMER - FPS na tela do cinema

autor: mauro

Imagino que você que está lendo esse texto gosta de jogos de tiro, e, se tiver 20 anos ou mais, sente saudades dos filmes de ação bad-ass, no melhor estilo Schwarzenegger e congêneres, certo?

Mas, em uma época em que o maior representante do lema “muita ação e poucas palavras” se tornou praticamente um ícone intelectual em seu atual “papel” de governador, há poucos filmes na tela grande que fazem jus ao estilo desenfreado dos áureos anos 80 ou 90. Essa tarefa hoje em dia está mais para os games do que para o cinema blockbuster, que segue na tendência do “herói humanizado”.

O filme Gamer, que está em cartaz nas salas nacionais, reúne esses dois universos, tentando resgatar um pouco da ação e violência no cinema através do contexto dos videogames. Tarefa essa que não parecia ser algo difícil para a dupla de diretores e roteiristas Mark Neveldine e Brian Taylor, responsáveis pelo sucesso Adrenalina.

Leônidas versus Dexter

Em Gamer, temos aquele velho cenário do “futuro não muito distante” onde dois games, criados pelo mago da tecnologia Ken Castle (uma alusão a figuras pop desse meio, como uma mistura bizarra de Bill Gates e John Romero), fazem enorme sucesso. E é a partir desses dois games que gira toda a trama. A grande diferença deles para os games atuais de nossa realidade está no fato de que o jogador controla humanos de verdade, e não polígonos renderizados em um cenário virtual.

Um deles é Society, uma espécie de Second Life ou The Sims muito mais hardcore. Os personagens na verdade são humanos que aceitam serem controlados pelos jogadores como uma espécie de sub-emprego. Assim, eles dançam, correm, brigam, se machucam, participam de festas e fazem sexo – tudo de verdade, enquanto estereotipados (mas que, convenhamos, existem na vida real) jogadores obesos enviam os comandos por trás dos monitores, no conforto de seus lares.

O outro game é Slayers, um game de tiro em primeira ou terceira pessoa (pelo visto não foi preocupação dos diretores definir isso) em que presidiários condenados à pena de morte lutam em frenéticos campos de batalha, com explosões e mortes a cada segundo. É aqui que entram as cenas de ação, mostradas logo no início do filme, assim como o protagonista Kable, vivido por Gerald Butler (o Leônidas, de 300). 

Neste game, os presidiários têm a chance de serem libertados após sobreviverem a 30 (!) partidas, e Kable está quase lá, sendo controlado por um prodígio dos games de 17 anos de idade. O que nem todos sabem é que o delay entre os comandos do jogador e a resposta no jogo abre espaço para que Kable mostre sua habilidade de batalha na prática, o que o torna, pelo menos em parte, responsável pelo seu sucesso no game. É claro que sua missão é escapar, e para isso, será ajudado por um grupo de hackers rebeldes que pretendem abrir os olhos da sociedade para as más intenções manipuladoras do poderoso Ken Castle - vivido por Michael C. Hall, o Dexter do seriado de TV.

Jogador controlando o "personagem"

Em meio a tudo isso, há representações muito claras de todo esse rally tecnológico-social em que vivemos na última década. Destaque para as cenas em que Simon – o jogador por trás de Kable – está conectado à uma “versão 4.0” da Internet, comandando videochats, sites pornô, games e outras atividades on-line através de telões holográficos e gestos no ar, no melhor estilo Project Natal. Mesmo com tanta informação, ele não é visto em nenhum momento interagindo com outra pessoa em sua casa, sempre fechado em um ambiente escuro.

Depois desse resumo da trama (não exatamente tão resumido assim), já dá pra perceber que se trata de um típico roteiro cyberpunk: corporação no poder, tecnologia tão presente quanto a alienação na sociedade, e rebeldes lutando contra tudo isso. Mas não se engane se você é fã do gênero, pois o roteiro não é exatamente o forte do filme. Apesar da premissa interessante, a execução não é muito aprofundada, mas é o suficiente para provocar um pouco de reflexão, mesmo que superficial. Não temos aqui um Blade Runner ou um THX 1138, mas para um filme onde a ação deve estar em primeiro plano, até que não decepciona.

Falando em ação, o jogo Slayers é responsável por cenas eletrizantes na tela, sugerindo um FPS de guerra urbana totalmente realista. Em algumas cenas, temos a visão do jogador com o personagem correndo pelas ruas em chamas e ícones de caveirinhas surgindo sempre que um inimigo se aproxima na tela, além de outros indicadores típicos dos games. Pena que esse “fanservice” para os gamers da vida real passe tão rápido, e na maior parte das cenas de ação temos muitas, muitas câmeras tremidas, no melhor estilo Cloverfield (para citar um filme mais recente) – o que deixa tudo um pouco agitado demais, tornando difícil entender o que se passa na tela. Mas se você é fã desse estilo de filmagem, vai adorar.

Em meio a tantos tiros, correria, pancadaria e explosões, temos nosso protagonista Kable. Gerald Butler está muito bem no que é necessário para o papel: postura de “exército de um homem só” enquanto luta e cara de “por que tenho que fazer isso?” nas cenas mais calmas que explicam o background do personagem. Em outras palavras, sua performance faz jus à velha escola dos filmes de ação, fazendo-o despontar como um dos destaques desse gênero na atualidade, ao lado de Jason Statham. 

Campo de batalha mais realista, impossível

Do outro lado da moeda, temos Michal C. Hall interpretando o vilão Ken Castle. Cínico como somente o Dexter da TV poderia ser, Michael é o destaque do elenco desse filme, não decepcionando quem esperava pela experiência de vê-lo finalmente como um antagonista declarado em uma película de grande orçamento. Pena que, pela construção estranha do roteiro do filme, ele fique tanto tempo sem aparecer na tela. Destaque para a cena da entrevista logo no início do filme, e para a dança antes do conflito final – que à primeira vista parece algo estranho, mas que logo é justificado.

Ainda sobre as atuações, vale a pena mencionar duas breves aparições de atores que dão um gás a mais ao filme. Primeiramente, John Leguizamo, fazendo o companheiro de cadeia esquisitão de Kable. Mesmo que ele praticamente só tenha duas ou três cenas de diálogo, investe toda sua experiência em papéis “freak” no personagem. Segundo, eis que surge Terry Crews como um assassino psicótico que persegue Kable durante boa parte do filme. Não lembra dele? É o pai de Chris Rock no seriado Everybody Hates Chris, mas aqui interpretando o papel bem mais agressivo do típico brutamontes.

Fazendo o balanço geral do filme, trata-se de uma boa produção que garante sua dose de entretenimento, principalmente para quem simpatiza com temáticas cyberpunk ou está habituado aos games on-line da atualidade. A idéia um tanto exagerada e moralmente pesada que o roteiro sugere (controle de pessoas visando o realismo das experiências virtuais) encontra a base adequada no clima sombrio proporcionado pela fotografia “dark” e pela trilha sonora encabeçada pela clássica versão de Marilyn Manson para a música Sweet Dreams, que toca duas vezes durante o filme.

Pena que talvez a duração do filme – menos de 90 minutos – seja tão pouca para desenvolver bem as idéias propostas. Mas fica o questionamento: será que mesmo nos conectando cada vez mais por meio da tecnologia, não deixamos de lado a alienação e o isolamento? Muita comunicação significa de fato que estamos ouvindo e sendo ouvidos? Até que ponto pode chegar nossa necessidade crescente por exposição, atenção e experiências interativas? Estamos vivenciando tudo isso, mesmo que ninguém esteja morrendo de verdade a cada clique do mouse.

Imagens: Rotten Tomatoes






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