| | | -
Por que a crítica, hoje, não é bem-vinda Por que a crítica, hoje, não é bem-vinda
Julio Daio Borges
A crítica nunca esteve tão desacreditada como nos dias de hoje. Entre leigos, a crítica é aquela de cinema, que sempre enche de estrelinhas os filmes difíceis de entender, ao mesmo tempo em que desqualifica a escolha da audiência. Para os artistas, é aquela senhora mal-humorada, que não compartilha do desbunde em relação à obra, chegando às vezes ao requinte de esculhambar seu realizador. E, para os críticos, a crítica é pura nostalgia, de um tempo em que eles ditavam o gosto, destruindo ou construindo reputações.
Lamentavelmente, hoje, a crítica é, em geral, vista como elitista (no sentido que as esquerdas conferiram ao termo). Numa época de democracia reinante (mesmo que fictícia), não se admite que uma minoria intelectual decida por uma maioria consumista. Para a indústria, aliás, não interessa que haja um padrão de qualidade mínimo, pois isso implicaria numa exclusão automática de quem (ou o quê) não atingisse os (pré-)requisitos.
Ao encontro de uma necessidade mercadológica (vender o que quer que seja mesmo que ruim) e de um imperativo ideológico (igualdade, liberdade, fraternidade), toda uma nomenklatura veio neutralizar qualquer pensamento crítico a partir do século XX. A começar pela idéia de nobrow.
Quem é mais ou menos versado sabe que highbrow corresponde, aproximadamente, à alta cultura (erudita, clássica, considerada inatingível) e lowbrow corresponde à baixa cultura (popularesca, primitivista, sem sofisticação). Como ninguém vive só de Bach, Mozart e Beethoven, e como é preciso sobreviver na cultura pop (para não se isolar do resto do mundo), inventaram o middlebrow. Era, nos 1900s, uma maneira de conciliar Shakespeare com Lennon&McCartney, Picasso com o universo das HQs, Villa-Lobos com Agatha Christie. Até aí, uma coisa razoável. Digo, até surgir o nobrow.
O nobrow é a ausência de brow, ou seja, é o fim das classificações entre alta, baixa e média culturas. É o vale tudo. É o qualquer maneira de amor vale a pena. É o cada um na sua. É o tal (do) gosto [que] não se discute que, para a crítica, foi um tremendo de um golpe.
Gosto se discute, sim, por vários motivos. Se não há crítica, não se avança. Ficamos sempre na estaca zero. Afinal, o crítico é aquele que, supostamente, conhece o assunto que aborda e vai dizer se determinada manifestação artística é válida ou se deve ser descartada. A partir do momento em que o crítico não consegue trabalhar (ou por que não lhe oferecem trabalho ou por que a crítica caiu em desuso), vive-se o caos. Como estamos vivendo agora: universitários assistindo a reality shows e gostando; governantes semi-analfabetos que não sabem quem são os colunistas da principal revista semanal (porque não lêem nem essa); as telenovelas como única forma de ficção a ser consumida, enquanto o mercado editorial míngua tiragens de alguns milhares (num País de muitos milhões); a imposição de um língua ortografica e gramaticalmente errada, uma vez que a certa seria considerada impopular e opressiva (já que a ignorância é dominante). Entre outras coisas.
Crítica é, também, falar mal algo que o politicamente correto coíbe do início ao fim. Com eufemismos, e só com eufemismos, não há como fazer crítica. E, na era dos superadvogados e dos megaprocessos jurídicos, abrir a boca pode ser um perigo. No Brasil, ainda persiste o péssimo hábito da unanimidade. Assim, criticar uma figura unânime não é apenas uma maneira de ir rumo ao tribunal, é igualmente uma forma de declarar guerra a um fã clube (cujo radicalismo beira o dos fundamentalistas islâmicos).
A crítica, na verdade, está tão contida que só passa em forma de piada. Não admira que os mais populares colunistas da imprensa, hoje em dia, sejam os humoristas que de uma maneira ou de outra fazem... crítica. Crítica séria nem pensar. Vira ofensa. E os ofendidos são cada vez em maior número, embora sejam ainda considerados, eufemisticamente, minorias. Se você, por exemplo, tem uma opinião formada sobre um determinado grupo, e aplica sua opinião a um membro desse grupo, é logo chamado de preconceituoso.
Há muito tempo, eu digo que não tenho preconceitos mas conceitos. Se eu tenho uma opinião sobre determinado tipo de pessoa, e aplico essa mesma opinião a uma pessoa que a meu ver cabe nesse tipo específico, sou logo tachado de preconceituoso. Por quê? Ela tem penas, bota ovos e cria pintinhos que depois viram frangos... Digo de uma vez: É uma galinha!. Ao que alguém me responde: Imagine que é uma galinha. Como você está sendo preconceituoso!. (Claro, pode ser um elefante... Ou uma mosca...)
Felizmente, com a internet, parece que a crítica está voltando. Infelizmente, porém, prolifera nela o crítico amador, que é quase o anticrítico. Na maioria das vezes (há exceções), a critiquinha que vemos surgir na Web é aquela de alguém que começou ontem, tem centenas de opiniões (infundadas) sobre diversos assuntos e acredita estar fazendo jornalismo da melhor qualidade. É um erro. E você não pode falar nada, porque está sendo contra, por exemplo, a liberdade de expressão. (Contra os blogs...) Sinceramente, não acho que qualquer pessoa pode ser um crítico; como qualquer pessoa não pode ser um médico, um astronauta, um cientista apenas porque quer; apenas porque, certo dia, acordou com vontade de criticar alguém ou alguma coisa.
Sou a favor da crítica e sou contra a crítica bem-comportada de hoje. Mas não apóio a crítica irresponsável. Exibida. Intolerável. Doutrinária fingindo, digamos, criticar as ideologias em geral, mas, no fundo, impondo (nas entrelinhas) sua própria ideologia. Crítica pode ser manipulação também, e o desejo de transmitir juízo crítico a quem lê pode se converter em uma maneira de, aí sim, transmitir preconceitos, idéias e pensamentos preconcebidos. Portanto, os critiquinhos deveriam desistir do ofício.
A crítica, contudo, deve, de alguma forma, voltar. O público clama por orientação e isso é nítido. Desde a popularidade dos manuais de auto-ajuda até o fanatismo religioso ressuscitado, todo mundo se sente destituído de certezas e não agüenta mais essa realidade relativística onde tudo é válido. A crítica não é determinismo e não vai obrigar ninguém a seguir por essa ou por aquela via vai, simplesmente, iluminar o caminho. Aprendi o que sei com críticos; e não apenas jornalistas mas gente que assumiu a tarefa de separar o joio do trigo. Você, aliás, pode até discordar de mim, mas garanto que, em algum momento, precisou igualmente de orientação. E de crítica.
Julio Daio Borges
São Paulo, 25/6/2004 -
-
sempre que esse jabubu postar, pode esperar que ele vai responder algo assim
mas dessa vez concordo com ele
nem li²¹²² -
Essa ficou difícil de ler mesmo, mas eu não gosto desses críticos de filmes...o Omelete tem umas críticas muito inúteis! | What if I got it wrong |
And no poem or song | Could put right what I got wrong |
Or make you feel I belong (What If - Coldplay) -
Muito boa essa frase =)
Sou a favor da crítica e sou contra a “crítica” bem-comportada de hoje. Mas não apóio a crítica irresponsável. Exibida. Intolerável. Doutrinária – fingindo, digamos, “criticar” as ideologias em geral, mas, no fundo, impondo (nas entrelinhas) sua própria ideologia.
-
 Postado originalmente por Dark Blow sempre que esse jabubu postar, pode esperar que ele vai responder algo assim
mas dessa vez concordo com ele
nem li²¹²² Pior... Dessa vez... -
 Postado originalmente por Panda! Pior... Dessa vez... heuaheuaheauhuhauehauhuahuhuah Intel E4400@2.00Ghz | Asus P5N-E SLI | 2GB DDR2-667 Kingston | ATI Radeon HD4830 512MB 256 bits PCI-E | HD 250GB Seagate SATA2/16MB | NET Vírtua 12MB/800kbps
Permissões de Postagem
- Você não pode iniciar novos tópicos
- Você não pode enviar respostas
- Você não pode enviar anexos
- Você não pode editar suas mensagens
Regras do Fórum |
Marcadores