Depois de muitos meses de espera e especulações, a Nintendo finalmente anunciou o seu próximo console, o Switch. Muitos dos rumores que havíamos publicado por aqui acabaram sendo confirmados, como ele ser um híbrido de console e portátil e que ele tem um processador Nvidia Tegra em seu interior.

E é exatamente nessa segunda parte que eu gostaria de focar um nessa coluna. Como é de costume da Nintendo, a companhia não entrou em detalhes sobre as especificações do seu hardware. E nem mesmo a Nvidia, que publicou sobre o assunto em seu Blog, chegou a mencionar o que exatamente veremos dentro do console. Por isso, quase tudo que eu vou falar aqui fica mais no campo da especulação, mas baseado na experiência que eu tive com dispositivos da fabricante de placas de vídeo. E, no final, isso vai fazer bastante sentido dentro do quebra-cabeças que eu gostaria de montar.

Além de ser utilizado para equipar veículos com sistemas de entretenimento mais complexos, os chips Nvidia Tegra também já equiparam uma bela quantidade de dispositivos. Depois de lançar uma primeira geração de chips que equiparam equipamentos de GPS automotivos, o Tegra 2 se tornou um verdadeiro SoC para dispositivos móveis. Ele equipou uma série de aparelhos como o Motorola Atrix 4G, o LG Optimus Pad e o Sony Tablet. Também estava um tablet bem pesado e ineficiente que se tornou meio primeiro aparelho do tipo, o Acer Iconia A500. O já falecido Acer não tinha nada de especial, então não é nele que vou focar aqui.

Depois, veio o Tegra 3, que equipe produtos como o primeiro Microsoft Surface e o popular Nexus 7, considerados por muitos o melhor tablet Android que existiu por um bom tempo. Mais impressionante que isso, ele está dentro do revolucionário carro elétrico Tesla Model S. Definitivamente foi nessa época que a Nvidia começou a mostrar a que veio no mundo mobile. Poucos chips eram tão potentes quanto ele, ainda mais para tarefas com gráficos intensivos. Só é uma pena que não existia uma demanda para isso, com exceção da indústria automotiva.

Primeira peça: entra o Tegra 4 e a linha Shield

Mas foi em 2013 que a Nvidia resolveu que iria pular no barco do Android por iniciativa própria. E foi assim que surgiu o Nvidia Shield Portátil, dispositivo que eu tive o prazer de testar aqui para o Adrenaline. Seu SoC Tegra 4 tinha um desempenho melhor do que os smartphones topo de linha da época, e que ultrapassava até mesmo os recém-lançados Nintendo 3DS e PS Vita. Isso rolou graças a uma GPU Nvidia com 72 núcleos personalizados.

Podia não ser o aparelho mais desejado do mundo, mas ele tinha uma proposta inovadora. Além de ser um portátil com sistema operacional Android, ele permitia jogar games de PC via streaming, a partir de um PC com GeForce GTX 650 ou melhor. Ele servia até mesmo como um pseudo-console caseiro, já que tinha uma saída HDMI e um modo console, que o otimizava para uso em TVs. Com o tempo, vimos soluções de streaming do PC para a TV da sala, como o Steam Link e alguns dispositivos Android, se popularizarem um pouco. Ou seja, a Nvidia fez muito bem em experimentar com isso, e já veremos o motivo.

Segunda peça: Shield tablet, Tegra K1 e GPU com arquitetura Kepler

No ano seguinte, saiu o Shield Tablet, que também tive a oportunidade de analisar.. Tratava-se de um dispositivo móvel Android com o poderoso processador Tegra K1, o primeiro a trazer uma GPU com arquitetura de desktop para o Android. No caso, era a arquitetura Kepler com 192 núcleos de GPU. Ele era um dispositivo comercialmente muito mais viável, já que tinha um formato conhecido que facilita o consumo de vídeos e o uso de redes sociais. Mas seu hardware não estava para brincadeira, e ele destroçou o iPad Air, o Shield Portátil e os smartphones topo-de-linha da época em termos de desempenho.

Era uma GPU tão potente que poderia até mesmo rodar o Shadowplay, tecnologia da companhia que captura vídeos quase sem perda de desempenho. O K1 a primeiro SoC mobile a rodar a Unreal Engine 4, e já suportava até mesmo o DirectX 11. Ou seja, mais uma vez, era um dispositivo que combinava muito com o ótimo ecossistema que a Nvidia já tinha criado nos PCs. Uma boa pedida para muitos PC Gamers, já que ele tinha os mesmos recursos de jogar por streaming que o Shield portátil.

Terceira peça: Nvidia Shield TV e o entretenimento caseiro

O último lançamento da linha Shield aconteceu no começo de 2015, com a chegada do Shield TV. Equipado com o sistema operacional Android TV, ele se tornou o que muitos consideram o melhor set-top-box já lançado com o sistema da Google. Um dos segredos para isso é o potente chip Tegra X1, que traz uma GPU de arquitetura Maxwell, 256 núcleos e suporte a CPUs 64-bits com múltiplos cores. Ela suporta DirectX 12, OpenGL 4.5 e Vulkan. Junto dela, estão 3 GB de RAM e opções de 16 GB ou 500 GB para armazenamento interno, duas portas USB 3.0, saída HDMI, WiFi e Bluetooth.

O Shield TV já tinha muito mais poder que o Xbox 360 e o PlayStation 3, como o vídeo acima do pessoal do Digital Foundry mostra. Nele, jogos nativos como Doom 3 BFG Edition, Trine 2 e War Thunder. Infelizmente, alguns jogos como Resident Evil 5 acabaram não chegando bem otimizados ao console, por falta de trabalho de otimização dos desenvolvedores. A própria Nvidia fez um trabalho fraco com o port de Half-Life 2 Ep 2, por exemplo.

O que tudo isso significa para o Nintendo Switch

Ok, então até aqui a linha Shield teve um portátil, um Tablet e um dispositivo de entretenimento caseiro. A Nvidia fez muito bem seus experimentos em 2013, 2014 e 2015, respectivamente. Mas para que isso tudo serviu mesmo? Bom, basta olhar para o anúncio da Nintendo com o Switch e ver que ele nada mais é do que o produto definitivo dos experimentos com a linha Shield. Ao menos em termos de hardware.

Primeiro, o Shield Android TV é o Switch conectado numa televisão. Por isso, fica a expectativa para que o sistema operacional próprio da Nintendo que será utilizado possa competir com o PS4 e o Xbox One em termos de entretenimento. Imaginar aplicativos como Spotify, Netflix e HBO Go não seria um absurdo. Até mesmo conteúdo em 4K é uma possibilidade, já que o próprio Tegra X1 já suporta isso. Considerando que a GPU do Switch será uma Pascal, não há motivos para não suportar isso.

Depois, quando você tira o Switch da sua base, claramente sua tela tem um formato de tablet. Só que aqui, existe uma abordagem que a Nvidia ainda não tinha testado: controles bastante modulares e acoplados à tela. Porém, dá para usar o console da Nintendo da mesma maneira que o Shield Tablet: apoiado numa mesa e com um belo controle.

Já quando você sai de casa, o Switch vira o Shield Porátil. Nisso, a expertise da Nvidia de criar chips de altíssimo desempenho com espaço e capacidade de consumo de energia limitados, certamente virá e muito a calhar. Muita gente aposta que o Switch vai ficar entre o X360/PS3 e XOne/PS4. Eu acho que a Nvidia, com seu histórico de chips de alto desempenho, pode mais do que isso. Afinal, a empresa já conseguiu até melhor colocar em notebooks GTX 1070 igualzinhas ao modelo de desktop, como o Avell G1746 Iron que já testamos aqui.

Ainda mais com a quantidade de desenvolvedoras third-party que declararam apoio à Nintendo, não é nenhum absurdo que o Switch tenha capacidades próximas do PS4 e do Xbox One, e rode muitos jogos multi-plataforma sem uma perda de qualidade muito grande. Mas acho que isso só vamos saber no ano que vem.