O lançamento de "Metal Gear Solid V: The Phantom Pain" marca dois eventos simultâneos: a saída definitiva do renomado designer japonês Hideo Kojima da Konami e a conclusão de uma das sagas mais complexas e icônicas da indústria dos jogos eletrônicos. O resultado não poderia ser outro: o game é espetacular do começo ao fim, traz excelentes novidades na jogabilidade da franquia e sustenta com maestria a responsabilidade de figurar entre os concorrentes a Jogo do Ano em 2015.

Abaixo você confere a análise de "Metal Gear Solid V: The Phanton Pain", baseada na versão para Playstation 4. O título também está disponível para PC, Xbox One e consoles da geração passada.  

A última - e mais importante - missão de Big Boss

A história de "MGS V: The Phantom Pain" começa exatamente onde o prólogo "MGS V: Ground Zeroes" parou: o lendário soldado Big Boss sobreviveu a uma explosão e a uma queda de um helicóptero e, após 9 longos anos em coma, acorda em um mundo amplamente modificado nas políticas sócio-econômicas.

Grandiosas organizações militares independentes agora ditam a nova Ordem Global, controlando a maioria dos países em negócios altamente lucrativos, como o comércio ilegal das tecnologias mais modernas e poderosas já inventadas. Seu papel é construir seu próprio exército e ajudar esses países reféns a retomarem sua hegemonia, além de exterminar quaisquer insurgentes que ameacem a paz mundial.    

Parece complexo? E é. "MGS V: The Phantom Pain" recupera toda a complexidade e o eterno dilema de valores morais e psicológicos tão bem trabalhados em toda a franquia. O certo e o errado nem sempre significam realmente os seus sentidos mais puros na trama e tudo costuma terminar numa questão de perspectiva, dependendo de vários pontos de vista, do que se faz e se dá como consequência nos campos de batalha.

A história privilegia a bagagem de conhecimento do fãs de longa data. Novatos na série se sentirão deslocados e descontextualizados com a quantidade de referências e informações expostas

É, em outras palavras, a reprodução em forma do jogo a maneira como os seres humanos vivem diariamente: cada um luta pelos seus propósitos até que os choques entre diferentes ideologias é inevitável, culminando em conflitos, guerras, genocídios e desastres diversos, seguidos pela paz temporária. A História sempre se desenvolveu dessa forma.   

Os acontecimentos do enredo em "MGS V: The Phantom Pain" definitivamente são melhor assimilados pelos fãs da saga, que já têm o respaldo de quase 30 anos de pura intriga militar, que envolve não apenas personagens, organizações, grupos e entidades secretas com diversos nomes e pseudônimos, mas também temas complexos como genética, clonagem, nanomáquinas, patriotismo, armas nucleares e seres fantásticos (poderes sobrenaturais e elementais).

Por isso, quem não for adepto da franquia vai se sentir bastante deslocado pela falta de contextualização geral do porquê certas cenas acontecem e que, naquela hora, talvez nem façam sentido para o jogo como um todo, mas que podem explicar trechos mostrados em outros games da franquia. Esse é o padrão de encruzilhada de narrativas adotada por Hideo Kojima na sua franquia mais conhecida.

E ainda tem um outro porém a se considerar. Julgando apenas pela história, "MGS V: The Phantom Pain" deixa escapar trechos sem explicação e não consegue cativar tanto quanto outros títulos da saga. O clima da narrativa não costuma direcionar para um clímax, mas segue num revezamento de altos e baixos entre momentos que esquentam, mas logo esfriam, quebrando parte da imersão e da experiência como um todo. É uma proposta de apresentação e de conduta de enredo menos concisa e coesa do que antes, mas ainda muito envolvente. 

A mecânica de espionagem mais completa já produzida num jogo do gênero

O melhor de "MGS V: The Phantom Pain" é a jogabilidade. Esse é definitivamente o jogo mais prazeroso de se jogar em toda a série. Você realmente se sente um agente secreto poderoso, capaz de explorar todos os cantos e de se infiltrar em qualquer tipo de ambiente. Só que, para agir como tal, é preciso dominar os comandos de Big Boss, que são muitos e demandam bastante tempo de experiência para assimilar tudo.

Num primeiro momento, a impressão é que tudo está aparecendo ao mesmo tempo na tela, deixando o jogador um pouco perdido com a quantidade de informação e possibilidades que aparecem em pouco tempo. Entretanto, basta pegar o jeito e se acostumar com a dinâmica dos controles - muito bem adaptados, inclusive - para sacar que essa é a melhor, mais variada e completa mecânica de espionagem já produzida em um jogo do gênero. Uma vez que esteja confortável com a profundidade de movimentos, tudo começará a fazer sentido e a ser altamente divertido. 

As variantes aqui são muitas. Desde se movimentar sorrateiramente, correr em alta velocidade, passando pelo controle de dirigibilidade de veículos e do cavalo como meio de transporte, ao uso de armas e suas opções de mira em primeira pessoa ou terceira pessoa, além de ativação de equipamentos secundários de suporte.

A quantidade absurda de movimentos na jogabilidade pode confundir num primeiro momento. Mas uma vez que se aprenda tudo e se sinta confortável com a mecânica, o game logo se torna o mais prazeroso e recompensador de se jogar na saga

Você também tem à mão sequências de ataques corporais a curta distância (CQC - Close Quarter Combat), abrindo opções para interrogar, fazer desmaiar ou matar os oponentes, abrindo um leque de estratégias à jogabilidade. Usar cada um destes recursos garante uma liberdade impressionante e recompensadora de ações em mundo aberto que realmente precisam ser analisadas e planejadas com muito cuidado. A meta sempre é a execução perfeita e, muitas vezes, é comum colocar tudo a perder com uma simples decisão precipitada.   

A estrutura de missões em "MGS V: The Phanton Pain" se divide em principais e paralelas. Os tipos podem ser jogadas sem uma ordem específica, desde que sejam liberadas aos poucos por já completar as já disponíveis. As principais desenvolvem a história e garantem cenas épicas das mais variadas, com cenários complexos para explorar, além de trazerem tarefas secundárias que não são obrigatórias, mas que se cumpridas garantem pontos extras no ranking ao final de cada missão, além de itens, armas ou equipamentos para usar em outras missões.

Já as paralelas (Side Ops) servem basicamente para acumular PMB, o dinheiro do jogo. Essas trazem objetivos com diferentes níveis de dificuldade e prêmios de recompensas ao resgatar prisioneiros, capturar e extrair algum alvo inimigo importante, destruir o maior número de veículos em tempo determinado, caçar tipos diferentes de animais, reunir documentos para fabricar algum nova arma, entre muitos outros tipos. A quantidade de coisas a se fazer é tão grande que é comum gastar muitas horas só cumprindo missões paralelas para se fortalecer e voltar às principais só quando der vontade pela curiosidade do que vai acontecer na sequência. 

Construindo seu exército de super soldados na Mother Base

Uma das grandes inovações introduzidas por "MGS V: The Phanton Pain" à franquia é a Mother Base, a sua própria base de recrutamento, treinamento e desenvolvimento de soldados. Ao longo da campanha, seja nas missões principais ou paralelas, você pode usar o Fulton, um balão que transporta qualquer tipo de objeto, pessoa ou espécies de animais e plantas diretamente para seu novo centro militar, desde que ele tenha um nível correspondente para carregar cargas com pesos e medidas variados.

Quanto mais itens ou aliados conseguir, mais espaço e recursos vai precisar para gerenciar suas novas posses, podendo expandi-la mais tarde com plataformas adicionais com finalidades bem específicas, como pesquisa e desenvolvimento científico, suporte de grupos de base, inteligência e apoio militar, comando de operações gerais e recursos médicos. Cada uma destas plataformas requer tipos também específicos de soldados para que tenham um rendimento de acordo com as suas características mais fortes.

O sistema de recrutamento FULTON é um dos maiores legados deixados por MGS V: The Phantom Pain. Recrute soldados, construa sua própria base militar, leve seus aliados como ajudantes em missões ou envie-os a expedições mercenárias em busca de recursos

Essas características são conhecidas durante as missões, através do binóculo especial usado por Big Boss. Quando localizados e marcados no mapa, o jogo aponta, por graduação alfabética, quais as habilidades dos inimigos mais se adaptam à Mother Base caso sejam capturados. Alguns desses soldados capturados ainda podem ser personagens centrais da trama, como a misteriosa e habilidosa Quiet, ficando disponíveis mais tarde para serem usados como parceiros em qualquer tipo de missão. 

Mas não adiantar nada ter centenas de soldados e recrutar ajudantes se você não tem mantimentos que garantam o gerenciamento da sua base. Aqui entra a importância de vasculhar todos os cenários do jogo em busca de combustível, metais preciosos, materiais biológicos e projetos armamentistas, itens responsáveis por garantir o progresso sustentável dela. Além disso, é fundamental manter suas contas em dia: o PMB precisa estar sempre com saldo positivo para que tudo caminhe dentro dos conformes.

É possível juntar PMB completando repetidamente qualquer uma das missões disponíveis. Vender itens armazenados em grande quantidade também rende boa quantia. Mas ainda existe uma outra opção bacana: enviar grupos de soldados a expedições mercenárias, trazendo não apenas mais dinheiro à sua conta, como também novos itens coletados e mais recrutas à sua base. Essas operações variam ainda em nível de dificuldade e em percentual de sucesso, cabendo ao jogador julgar se o risco do envio das tropas vale a recompensa pelo valor de PMB a ser recebido, número de novos soldados que podem se juntar à equipe ou mais itens recebidos.  


Capricho técnico mostra gráficos e áudio dignos de superprodução

"MGS V: The Phanton Pain" também esbanja capricho nas questões mais técnicas. Os gráficos, desenvolvidos com as ferramentas da FOX Engine, estão sensacionais, com um trabalho soberbo no design dos cenários, replicando perfeitamente o sentimento presencial de algumas regiões do planeta, trazendo ainda texturas muito bem aplicadas e uma modelagem que impressiona pelo nível de realismo e de detalhes.

A FOX Engine apresenta tecnologia robusta traduzida em gráficos lindíssimos e áudio perfeito. Tudo sempre rodando em FULL HD e a 60 quadros por segundo - algo raríssimo em consoles

Outros aspectos que chamam a atenção é o preenchimentos dos cenários com construções diversas, densas florestas, bases militares e cavernas isoladas em meio a imensas paisagens cercadas com vida selvagem e estruturas que ajudam a consolidar a presença do jogador naquele mundão virtual. Além disso, o sistema dinâmico de tempo e de clima, com chuvas torrenciais e tempestades de areia, são muito imersivas, agregando valor não apenas no visual, mas também na jogabilidade. E tudo, claro, sempre rodando em 1080p e a estáveis 60 quadros por segundo.

O áudio também está impecável. A trilha sonora é absurdamente envolvente, trazendo melodias que combinam com todos os momentos do jogo, seja uma fuga épica e desesperada com helicópteros e tanques de guerra na sua cola ou nos quase silenciosos momentos de infiltração, em que um simples ruído já ativa uma sequencia de composições que se alternam conforme as consequências das suas ações no jogo. Fora isso, as dublagens (não tem em português brasileiro) estão muito boas, sendo que a substituição de David Hayter para a voz de Snake (Big Boss) por Keifer Sutherland foi uma escolha certeira, praticamente sem perda de importância ou de qualidade.      

AVALIAÇÃO:

História

9

Jogabilidade

10

Gráficos

9

Áudio

10
Conclusão

"Metal Gear Solid V: The Phanton Pain" entra fácil para o hall de melhores games de 2015 ao arriscar numa proposta em mundo aberto que reinventa a franquia com novidades inovadoras na mecânica. Obrigatório para os fãs, o jogo traz uma variedade de possibilidades na jogabilidade que transmite um senso inigualável de ser um agente secreto, o que o torna o mais prazeroso e recompensador de se jogar em toda a saga.

Alguns tropeços na história impedem o título de ser o melhor em toda a série, mas o adeus de Kojima da Konami é digno de todos os aplausos, provando que valeu a pena esperar por mais um clássico instantâneo no mundo dos games. É possível, ainda, que este seja o último jogo da franquia, já que a produtora pretende focar na produção de games mobile, deixando quase todas as suas superproduções de lado


PRÓS
  • A experiência mais completa no papel de um agente secreto
  • Jogabilidade em mundo aberto traz muita liberdade e uma avalanche de missões
  • Centenas de horas de entretenimento e diversão sem fim
  • Sistema FULTON de recrutamento de soldados é inovador
  • Mecânica de construção e gerenciamento da sua base militar é extremamente funcional
  • Cenas de cinema lotadas de momentos épicos e impactantes
  • Esmero técnico nos gráficos e no áudio
CONTRAS
  • Metal Gear V: Online ainda indisponível
  • Enredo pouco acessível aos novatos na série
  • Novidades na jogabilidade confundem no começo
  • Sdds, Kojima :/