A série Dragon Age está de volta, para a alegria dos fãs de um bom RPG e também do estilo característico de desenvolver games da BioWare. Além de manter personagens marcantes de Dragon Age II, Inquisition procura ampliar o mundo de Thedas, com um mapa muito mais amplo que o usado nos games anteriores da série. Como costuma ser neste gênero, Dragon Age: Inquisition é um daqueles games para se mergulhar por horas e horas na aventura. Vale a pena? Vamos te contar ao longo desta análise!

Enredo elaborado e participativo

Dragon Age: Inquisition se passa um ano após o final de Dragon Age II. Você encarna um personagem que sobreviveu ao atentado no Templo das Cinzas Sagradas que matou toda a líder da Chantria e muitos membros, além de muitos dos principais templários e magos. Com todas as principais lideranças assassinadas, e os possíveis substitutos indo na mesma cajadada, o enredo é baseado na Inquisição, um grupo emergencial criado por Casandra, a "mão direita" da antiga líder da Chantria, para restaurar a ordem. 

O enredo central de Dragon Age: Inquisition é uma "operação tapa-buraco"

No ataque, começaram a surgir aberturas por onde criaturas estão escapando do Fade - para quem não conhece a franquia, pense um mundo para onde vão as almas quando os seres vivos morrem ou estão sonhando - e aterrorizando a população. Seu personagem possui uma marca na mão, e é capaz de utilizá-la para fechar estas aberturas. Esta capacidade o torna um messias para alguns, enquanto que para outros você é o principal suspeito de ser o responsável pelas calamidades e o atentado. 

Neste game, você se une à Inquisição para tentar por "ordem na casa", e é no desenvolvimento deste grupo militar/político, e seu relacionamento com outros grupos, que está escorado todo o enredo do game. 

Uma informação importante: comecei a jogar Inquisition sem conhecimento algum da franquia Dragon Age. Por conta disto, posso afirmar que ter jogado os games anteriores é interessante, afinal você começa a partida conhecendo alguns personagens e compreendendo os conflitos entre os grupos políticos, mas não é obrigatório. Na medida que você avança na história é possível entender as facções, as localidades e os principais personagens e seus relacionamentos, e para isto basta ter curiosidade de ler as informações que encontrar ao longo do caminho e travar o máximo de diálogos com os personagens que for conhecendo. Como todo RPG, Inquisition é um game para quem quer estar imerso na narrativa, e mesmo as pessoas que não tiveram contato com os jogos anteriores conseguirão aproveitar a história. Se você não tem muita paciência para ficar acompanhando esse tipo de coisa, nem deveria estar jogando Dragon Age ou qualquer outro game do gênero RPG.

Ter jogado os games anteriores é interessante, mas não é obrigatório. Ao longo do jogo você consegue ir conhecendo o mundo e os personagens da franquia, e aproveitar o enredo de Inquisition 

Entre as característica mais marcantes dos games da BioWare está a imersividade no enredo, mérito dos desenvolvedores de nos inserir constantemente nos diálogos. Cada nova frase de seu personagem precisa ser decidida por você, o que traz uma sensação de "estamos participando da história" que poucas desenvolvedoras conseguem colocar em seus games. Até mesmo na criação do personagem há muito espaço para customizações, sendo possível escolher a espécie, o gênero, a classe e a aparência de seu personagem, e essas decisões iniciais irão influenciar na postura das pessoas em relação a você e em momentos da história. Em nome da zueira, tentei fazer meu personagem parecer com Shepard, de Mass Effect, algo possível para alguém que se dedique um pouco mais na edição.

Separados pela minha preguiça de editar um personagem

Em algumas partes, as decisões terão grande impacto no jogo, mudando a forma como fases irão acontecer e determinando o transcorrer da narrativa. Estes momentos, porém, são pontuais, e é uma pena que a BioWare não tenha sido mais ousada - e até mesmo punitiva com o jogador por más escolhas - na criação de decisões cruciais e difíceis em múltiplos momentos da narrativa. 

Inquisition tem características de um jogo de mundo aberto, apesar da BioWare evitar comparações com games como Skyrim. E há um bom motivo: o game expandiu bastante as localidades, comparado aos Dragon Age anteriores, mas não está no mesmo nível que a franquia da Bethesda. Ainda assim, Inquisition traz um bom nível de exploração, com mapas amplos, algumas surpresas e muitas missões secundárias ao longo do caminho. Enquanto algumas das sidequests são verdadeiras "encheção de linguiça", com missões insípidas de "vá lá, mate uns caras e me traga um treco", outras trarão pequenos enredos interessantes,ou abrirão a possibilidade de incorporar novos personagens ao seu grupo. Pena que nunca dá para saber quais serão estas missões secundárias interessantes, e o jeito é ir jogando cada uma para descobrir.

Agrada do estrategista ao "quero algo para bater" 

Dragon Age Inquisition mantém a jogabilidade híbrida. Na hora dos combates, você consegue focar apenas em um personagem e realizar seus ataques ou mudar para um modo tático. Este modo traz uma mudança interessante na forma de jogar, mostrando o mapa de uma câmera mais aérea e trazendo mais elementos de estratégia para dentro do RPG. Você distribui os comandos para cada personagem, e pode encarar os monstros de uma forma mais estratégica, combinando as ações dos personagens de forma mais eficiente, ao invés do caótico "pega pra capar" do campo de batalha visto por apenas um dos personagens.

Esse modo tático é recompensador ao possibilitar vencer batalhas antes impossíveis jogando de forma individualista, ao combinar as habilidades de todos os personagens e se preocupar com aspectos como posicionamento no campo de batalha. Principalmente nos níveis de dificuldade mais altos, usar este modo faz a diferença. Porém, utilizá-lo não é tão simples, e especialmente no controle é preciso uma curva de aprendizado. Outro ponto negativo é o ritmo, pois as batalhas ficam bem mais lentas, e cada instrução leva um tempo para ser designada aos personagens. Quem não curtir este modo, consegue jogar apenas controlando um personagem e, na pior das hipóteses, baixando o nível de dificuldade, se necessário.

Falando em dificuldade, Inquisition tem boas variantes de níveis de desafio, conseguindo ir desde um jogo que não vai trazer muito esforço para ser fechado, uma boa pedida para quem quer mesmo acompanhar a história, até inimigos que precisarão ser estudados e até mesmo localidades que você não tem nenhuma chance de sobreviver, se não estiver devidamente preparado. O game não é muito punitivo: se você morrer, só vai regredir ao último auto-save, algo que costuma representar "o último instante antes de entrar nesta batalha que você não devia ter entrado".

O problema da dificuldade é a falta de balanço com a evolução de seu personagem. Na medida que surgem novas missões primárias, há um nível recomendado para realizá-las, algo como "do nível 4 a 6". Se você se se empolgar demais nas missões paralelas ou na exploração do mundo, pode passar deste limite, o que torna os objetivos fáceis demais. Um novo balanceamento dos desafios, baseados em seu nível, poderia resolver este problema que principalmente os fãs de RPG, que não deixam uma pedra sem ser revirada, vão enfrentar. 

O game traz uma grande variedade de ajustes do equipamento e das habilidades de seu time, que irá desbloquear novas magias na medida que sobe de nível, e novas armas e armaduras mais poderosas irão surgir ao longo do caminho. A BioWare foi bastante precisa nestes ajustes, e dá para perder um bom tempo preparando seu time para as batalhas - perder, no bom sentido. Longe de mim querer reclamar da desenvolvedora incluir este recurso, meu porém é outro: ele é trabalhoso, e nem todo mundo quer fazer esse tipo de administração, que acaba representando uma quebra no ritmo do gameplay. Ele é indispensável, ainda mais considerando que estamos falando de um RPG, mas acho que seria positivo para os gamers que não estão interessados em ver qual armadura fica melhor na Cassandra poderem selecionar um modo "automático" para a evolução do time e uso de equipamentos, mesmo que isto represente a formação de um time menos adaptado à sua estratégia favorita. Até tem um botão "Auto Level Up" nas habilidades, mas não há nenhuma opção do tipo "totalmente automático para sempre e não quero mais falar nisso".

Inquisition traz muitas possibilidades de ajustes em seu time. Mas dar a opção do jogador customizar habilidades e equipamento em múltiplos personagens é uma coisa. Obrigar, é outra

Na movimentação temos um estilo bastante "arcade". O terreno influencia pouco no deslocamento dos personagens que parecem praticamente dissociados do cenário, especialmente ao pular. Alguns games trazem uma movimentação mais "realista", como Lords of the Fallen, onde é perceptível os deslocamentos mais condizentes com o peso da armadura e das armas em uso e também o terreno em que está o personagem. Em Dragon Age Inquisition, a forma como os personagens se comportam deixa pouco imersivo os movimentos, algo que me desagradou mas que pode passar batido aos olhos de outros gamers que não estão interessados em verossimilhança.

Como já é uma característica comum dos jogos de mundo aberto, Inquisition tem lá seus bugs. É muito comum ver ao menos uma coisa exótica (e muitas vezes cômica) durante uma sessão de 1 ou 2 horas de jogo. Corpos flutuam, objetos atravessam paredes ou sua equipe fica toda presa em uma pequena fenda na parede com uma certa frequência, algo chato para a imersão mas que há tempos nos acostumamos a fazer vista grossa. Os glitches mais curiosos acontecem na escolha de utilizar o mesmo botão para as ações e para o pulo. Se apertado no limiar entre "ter algo na frente ou não", o jogo acaba fazendo as duas coisas, o pulo e a ação, o que resulta em você conversar como uma pessoa enquanto flutua no ar, em vários momentos.

Multiplayer garante alguma diversão extra

Dragon Age Inquisition conta com um modo online para múltiplos jogadores. Ele é alheio à história principal, o que significa que você não poderá avançar na campanha com a ajuda - ou o empecilho - de outro jogador. Não destacaria este modo como algo importante para o jogo já que, como a maioria dos gamers fãs deste gênero já sabem, este tipo de jogo é uma experiência mais individual.

Apesar de ser mais um extra do que algo relevante, dá para ter alguma diversão no multiplayer. Aproveitando a mecânica utilizada na campanha principal, você pode se juntar a outros três amigos e cumprir missões de conquista de locais. Há uma boa variedade de itens e personagens a serem desbloqueados e evoluídos - tudo de forma independente com o que acontece com o single player - e diferentes níveis de dificuldade. É algo divertido para aproveitar com seus amigos em uma ou duas tardes, mas a baixa quantidade de cenários e a pouca criatividade nas missões impedem que este modo vá muito mais longe que isto.

O multiplayer em Dragon Age Inquisition não é algo de grande destaque. Vai servir para um gameplay com amigos, mas não garante muitas horas de entretenimento adicional  

Por não forçar os gamers a caírem neste modo, já que não influencia na campanha principal, não vejo com "maus olhos" este modo. Ele é suficiente para "brincar" com alguns amigos por algumas horas e não compromete o restante do game. Também não passa a impressão de que foi colocado de forma "forçada" no jogo - ou foi, EA? - e então consigo ir para o próximo capítulo sem ódio no coração.

Gráficos trabalhados e belas trilhas

Na apresentação, é difícil achar algo para reclamar de Dragon Age: Inquisition. Os cenários são amplos e ricos em detalhes, os personagens possuem uma ótima modelagem e são bem trabalhados. As expressões faciais não estão em nível capaz de competir com games como L.A. Noire, que segue como a principal referência neste aspecto, porém não chega ao "olhar de peixe morto", que é muito irritante em games com importante participação dos diálogos no enredo.

Em termos de performance, o game foi jogado em qualidade máxima, reduzindo um pouco nos filtros antisserrilhado e em alguma configuração eventual, na resolução HD em um computador com uma Asus GTX 760 DirectCU II, com um Core i5 4460 e 8GB de memória RAM, sem apresentar grandes problemas de performance. Algumas cutscenes houve uma queda de frames, enquanto o gameplay se manteve sempre fluído. O jogo apresentou uns congelamentos eventuais, e parecem ser localizados em alguns pontos específicos de transição do mapa. O travamento dura em torno de 1 segundo, e independe do sistema (afetou até mesmo quando jogamos em uma GTX 980). Por ser bem localizado, e não muito corriqueiro, não chega a afetar de forma marcante o jogo.

Eu era um viajante como você, até tomar um inimigo no rim esquerdo. 

As trilhas orquestradas são variadas e encaixam bem com o gameplay, sendo que cenas de combate são acompanhadas por músicas mais animadas, enquanto os menus e telas de carregamento trazem composições que já vão "te deixando no clima" para entrar na história novamente.

AVALIAÇÃO:

História

10

Jogabilidade

9.0

Gráficos

9.0

Multijogador

8.0

Áudio

10
Conclusão

Não foi à toa que Dragon Age: Inquisition foi o vencedor do The Games Awards 2014, nas categorias "Jogo do Ano" e "Melhor RPG". Ele é indiscutivelmente o melhor game de RPG do ano e com um pouco mais de margem para debates, o melhor jogo do ano.

Este jogo supera críticas sofridas por seu antecessor, como a baixa variedade de cenários e amplitude do mundo explorável, tudo isto trazendo todos os pontos fortes que já estão consolidados nesta franquia e na forma da BioWare de fazer games: personagens carismáticos, enredos interessantes e interações constantes do jogador com o desenrolar da narrativa

O grau de complexidade da administração de seu time está excelente, permitindo ajustar de forma minuciosa a forma de combater, os equipamentos e as habilidades de cada membro de seu grupo. Por conta da complexidade de elementos disponíveis, os menus de gerenciamento de seu time são um tanto confusos e levam e requerem uma curva de aprendizado, algo que poderia ter sido melhor trabalho pela desenvolvedora.

Por fim, são só nos pequenos detalhes Dragon Age Inquisition apresenta falhas, que com certeza serão sumariamente ignoradas pelos jogadores frente a tantas qualidades. Não deixe de jogar este game se tiver uma chance, e já separe dezenas de horas para mergulhar na história e aproveitar cada detalhe do mundo de Thedas. Vai valer a pena.


PRÓS
  • Enredo interessante e participativo com múltiplos finais
  • Bons gráficos
  • Trilhas sonoras interessantes
  • Boa variação de estratégias de combate
  • Grande variedade de equipamentos e técnicas
CONTRAS
  • Menu de administração do time um pouco confuso
  • Movimentação estranha dos personagens no cenário
  • Algum eventual bug