"Child of Light" foge das temáticas de todos os outros jogos já lançados pela Ubisoft. Saem os vastos mundos para explorar, as viagens no tempo e os tiroteios militares estratégicos e, com uma pegada bem característica do universo indie dos games, entram as batalhas por turno típicas de RPG japonês, quebra-cabeças amigáveis e exploração na medida certa. Desenvolvido pela filial de Montreal da produtora, o título é bastante prazeroso de se jogar e, visualmente, sabe aproveitar com maestria os recursos da belíssima engine UbiArt Framework. Leia a análise a seguir.

Vídeo análise

Aurora, a salvadora de Lemúria

A história de "Child of Light" conta como a princesa Aurora foi parar no mundo de Lemúria, uma terra encantada habitada por várias espécies de seres vivos e muitos tipos de monstros. Sua tarefa aqui é achar o caminho de volta para casa e reencontrar a sua família. Só que, para isso, terá que não só ajudar as pessoas deste mágico mundo e combater as ameaças das sombras, mas também recuperar o Sol, a Lua e as estrelas da posse da Rainha das Sombras.

O enredo progride com cadência harmoniosa, sendo sempre interessante e evolvente acompanhar a jornada da menina e os desafios que ela precisa vencer. Durante a aventura, Aurora encontra com vários personagens secundários que pedem a ajuda dela para resolver os problemas por quais passam. Alguns deles até entram para o grupo da garoto como combatentes ajudantes, mas a grande maioria deixa a nítida sensação de que poderiam ter sido melhor explorados, e não apenas terem ficado no vazio dos diálogos breves e pouco úteis - embora sirvam muito bem para humanizar a atmosfera marcante do game.


Plataforma 2D + RPG por turno = vitória épica

Já a jogabilidade traz uma combinação excelente entre batalhas por turno, plataforma 2D e aventura tradicional. À medida que vai desenvolvendo a história, é preciso ir explorando todos os cantos dos cenários na busca de itens essenciais de mantimento e resolver os quebra-cabeças, que costumam ser bem acessíveis e não vão exigir muito tempo do jogador. A ideia aqui não é passar trabalho com puzzles mirabolantes ou, pouco intuitivos e tentativas frustradas de várias combinações, mas lidar com obstáculos que tenham ligação com o contexto dos ambientes e de momentos específicos mostrados na história.

Diversos tipos de inimigos aparecem pelos cenários e encostar em um deles inicia uma batalha no melhor estilo dos RPGs japoneses, ou seja, as lutas são em turnos, em que todas as ações do jogador dependem diretamente do carregamento de uma barra de tempo, localizada na porção inferior da tela. Atacar, defender, usar magias, habilidades únicas e itens de suporte precisam ser calculados de forma inteligente para se dar bem, sendo que cada um destes recursos tem mais ou menos velocidade de percurso na barra, trazendo uma ótima dose de estratégia a todos os confrontos.

A maioria das batalhas com inimigos comuns costuma ser tranquila e oferece um bom equilíbrio na dificuldade. Em compensação, os chefes são o verdadeiro desafio do jogo, pois exigem maior estratégia e sabedoria na escolha das ações para vencê-los. Diferente dos combates comuns, aqui você não tem chance de jogar displicentemente, pois realmente terá que prestar muita atenção em tudo o que acontece nos pormenores do confronto, como a sua posição em relação aos inimigos na barra de tempo, forças e fraquezas quanto a elementos da natureza (fogo versus gelo, por exemplo), o tipo de magia ou habilidade que mais surte efeito ou ameniza as ações dos adversários e assim sucessivamente.

Cada batalha vencida rende experiência e, subindo de nível, ganha-se um ponto de habilidade para gastar em melhorias não só para Aurora, mas também para outros personagens que se juntam à aventura, sendo que é possível controlar até dois diferentes guerreiros nas lutas e também trocá-los sem restrições e quantas vezes for quiser. Às vezes, isso realmente pode acabar decidindo o rumo entre a vitória e a derrota, pois alguns dos novos aliados possuem golpes e habilidades exclusivas que funcionam melhor contra certos tipos de monstros. Já a grade de evolução dos personagens traz benefícios em todos os atributos, como HP, MP, força, esquiva, velocidade, entre outros quesitos, cabendo ao jogador decidir escolher aquilo que mais lhe serve no momento ou que poderá fazer grande diferença nos futuros confrontos.

Ainda ao final das lutas, você também recebe pedras preciosas que servem tanto para adicionar benefícios específicos aos atributos de cada personagem, como também fabricar outros tipos de pedras mais raras e deixar seus personagens ainda mais poderosos. Tudo depende do tipo de pedra e da quantidade delas que você quer misturar. As mais básicas existem aos montes e são também encontradas na exploração dos cenários, em cantos ocultos ou baús bem escondidos. Já as mais raras são criadas a partir da combinação das mais comuns e resultam em melhorias bem mais significativas, podendo dar a um personagem grandes vantagens de combate. As possibilidades de combinações são muitas e a maneira mais plausível de saber os efeitos delas é testar as misturas menos prováveis na busca dos melhores resultados. É um sistema bem completo, divertidíssimo de explorar e muito recompensador. 

Estética espetacular e musicalidade impecável

A apresentação do jogo é espetacular. Os gráficos foram desenvolvidos com a engine UbiArt Framework, a mesma usada no incrível "Rayman Legends". O visual ganhou, assim, um aspecto bem mais artístico, parecendo uma pintura em movimento e combinando totalmente com a temática fantasiosa do game. Os cenários são lindíssimos e ricos em detalhes, sendo um colírio constante aos olhos do jogador durante a exploração pelos segredos de cada área. O design dos personagens e dos monstros do mundo de Lemúria são igualmente originais e merecedores de nota máxima.



Na parte de áudio, todos os diálogos do game são falados e transcritos em forma de poesia, com rimas métricas bem delineadas e fluidas. A parte mais legal é que, mesmo com a localização completa para o português brasileiro, não existem trechos estranhos mal traduzidos que comprometem as emoções de cada parte. Ou seja, diferente do que costuma acontecer nas dublagens nacionais, o trabalho aqui é um dos melhores já vistos e vale a pena assistir a todas as cenas só para ver o cuidado das rimas das palavras. Fora isso, a belíssima trilha sonora adiciona pontos infinitos no envolvimento do jogador com a obra. Ela é tão marcante e cativante que fiquei vários dias seguidos a ouvindo sem parar e relembrando dos melhores momentos da trama e dos combates. 


Considerações

"Child of Light" é a melhor surpresa de 2014 até o momento. A combinação de elementos de aventura, plataforma 2D e RPG por turno é primorosa e extremamente recomendada a qualquer tipo de jogador que queira dar um tempo à segurança comercial das franquias "Assassin's Creed", "Far Cry" e "Splinter Cell". A pegada indie do jogo, as batalhas estratégicas divertidas, junto aos sistemas de evolução e de criação de melhorias, a trilha sonora emocionante e os gráficos estupendos completam o pacote com maestria e já fazem deste, também, um dos melhores títulos deste ano. 


PRÓS
  • Estética gráfica espetacular
  • Mecânicas consistentes de combates, puzzles e exploração 2D
  • Sistema de criação de pedras preciosas traz muitas combinações possíveis
  • Trilha sonora genuinamente emocionante
  • Aurora é muito carismática
  • Enredo narrado em poesia com métrica perfeita
  • Localização exemplar
CONTRAS
  • Jornada poderia ser mais longa
  • Personagens secundários esquecíveis