Depois de alguns atrasos, enfim o game de "South Park" foi lançado! Anunciado na E3 de 2012, ele tinha como data original de lançamento o final do ano passado, e, depois de alguns contratempos – como a falência da publisher original, a THQ – "The Stick of Truth" chega aos jogadores de PC, PS3 e Xbox 360.


O game é uma adaptação da famosa série de desenhos animados, que acompanha as politicamente incorretas crianças de uma pequena cidade do Colorado. Como toda adaptação de uma franquia consagrada em outro meio, há um certo receio que a transposição do mundo de South Park possa dar errado (algo que, inclusive, já aconteceu outras vezes). Mas podem ficar tranquilos e comemorar. Não consigo imaginar como este jogo poderia ter dado mais certo.

Enredo

"The Sick of Truth" é baseado em um novo garoto – controlado pelo jogador – que chega à vizinhança. Ele é altamente customizável em sua aparência, mas seu nome é sempre o mesmo: independente do que você escolha, o game irá te trollar e dizer que seu nome é "babaca". Isso acaba sendo uma solução engraçada para a incapacidade de gravar todos os nomes do mundo para as falas. Como um novato na região, a base da história é você "saindo e fazendo amigos", para se adaptar a sua nova cidade.



Você entra em um contexto onde os meninos estão brincando em uma temática medieval, bem próxima ao visto nos episódios da triologia do "Console Wars", exibidos no final do ano passado, com várias influências de games e seriados neste estilo, como Game of Thrones. As crianças disputam um graveto, chamado de "o Cajado da Verdade", relíquia que dá a seu dono a capacidade de governar o mundo. Quem assiste os desenhos, sabe que as "brincadeiras" deste garotos são levadas bem a sério.

Após o roubo do Cajado da Verdade, você parte em uma missão épica pelas ruas de South Park, para recuperá-lo. No caminho, você enfrenta outros garotos, evolui seu personagem e cruza com situações insólitas típicas do seriado, encontrando até mesmo celebridades como Al Gore e Jesus Cristo.

Toda a história traz um enredo convincente, dentro do estilo a série, com punchlines e cenas engraçadíssimas acontecendo com uma boa frequência. Em vários momentos, o jogo reage bem com suas ações, deixando você bater em todas as pessoas ou quebrar praticamente todas as coisas, o que faz a imersão funcionar de forma eficiente. É como se você estivesse dentro de um episódio do desenho.

Jogabilidade

Além da mecânica de mundo aberto – que permite ao jogador explorar praticamente toda a cidade de South Park – Stick of the Truth empresta um estilo de combate clássico do mundo dos games: as batalhas por turnos, no mesmo estilo de games clássicos como Final Fantasy e Chrono Trigger. Os desenvolvedores levaram o gênero a sério, criando várias opções de equipamentos, classes e magias para sua formação de lutadores. A dificuldade é ajustável, mas já no nível intermediário alguns jogadores encontrarão um bom desafio. Este jogo pode despertar até uma certa nostalgia, com as icônicas classes do mago, guerreiro, ladrão e... judeu. Naturalmente, é um RPG com uma pitada de South Park. O maior defeito, porém, é a pouca diferença entre as classes: independente da classe escolhida, o gameplay não parece mudar de forma marcante.



Elementos clássicos do RPG são a base do gameplay

As lutas ganham dinâmica graças ao recurso de pressionar botões nos tempos corretos. Acertando o timming, você causa mais danos em seus ataques, ou pode até mesmo bloquear as agressões dos inimigos, tirando um pouco da cadência lenta, que é típica de um game de luta em turnos. Por sinal, esta forma de combate é justificada por Cartman como "a forma como se lutava na Idade Média". É basicamente um jogo dizendo que jogos distorcem a percepção das crianças sobre o mundo.

Além das batalhas, o game desafia o jogador com puzzles. Em vários momentos, será preciso usar itens coletados no mapa para contornar situações, ou mesmo usar habilidades específicas de membro de seu grupo para abrir os caminhos. Estes pequenos desafios são interessantes, mas fica a sensação que poderiam haver alguns momentos de quebra desta jogabilidade, com mais tipos de desafios além do eixo puzzle-RPG.

Jogamos o game em sua versão para PC, de duas formas: com o teclado e mouse e também com um controle de Xbox 360. Com o periférico da Microsoft, a configuração foi automática e todos os comandos já estão corretamente ajustados, inclusive com os tutoriais adaptados aos comandos do joystick. Com o teclado, o gameplay foi bem adaptado, mas é bem mais confortável com o controle, pois o jogo foi claramente pensado para os consoles, primeiro. Os comandos necessitam de uma curva de aprendizado, especialmente nos momentos que você precisa usar as habilidades de seus companheiros ou suas "magias" no mapa para solucionar puzzles.

Gráficos e Áudio

A apresentação do jogo é péssima. Os gráficos são bidimensionais, com personagens feitos de poucos detalhes, animados porcamente, com cenários montados com sérios problemas de perspectiva e profundidade, e personagens dublados com vozes finas e irritantes. Ou seja: está perfeito. O esmero em manter o game fiel à estética consagrada do desenho mostra como valeu a pena manter os desenvolvedores "in house", com os artistas que fazem o desenho podendo ficar "de olho" no serviço dos programadores. Também acabou mostrando a tolice que é tentar desenvolver este game em 3D, como aconteceu lá no Nintendo 64.

A trilha sonora compõe muito bem a ambientação, oscilando entre as trilhas épicas, quando os meninos estão mais "imersos" em seu mundo fantasioso, até as trilhas mais caricatas, para os momentos em que alguma coisa sem sentido acontece, ou alguma das crianças "sai do personagem".

O Fus ro dah do mundo de South Park é executado de uma forma um pouco diferente  

A dublagem é perfeita. Respeita completamente a do desenho com todos os personagens tendo suas respectivas vozes da série. Muito felizmente, o jogo é dublado em inglês, e a localização para o Brasil é feita através de legendas, que não tem vergonha de traduzir as expressões usadas pelos garotos, desde um "kickass" que vira um curioso e acertado "arregaçar" até os xingamentos de mais "alto poder de fogo". Quem já assistiu episódios dublados em português de South Park sabe que mudar as vozes, independente do esforço de manter o estilo caricato do original em inglês, é descaracterizar os personagens. Eric Cartman só é Eric Cartman com esta voz, e até os grunhidos do Kenny não servem, se feitos por outra pessoa. Por sinal, este jogo não legendou as falas de Kenny, o que significa que eu realmente não faço ideia do que ele diz o jogo inteiro. As legendas eram o que me salvavam na hora de saber o que ele falava, quando assistia o desenho.

Conclusão

South Park: The Sitck of Truth é exatamente o que qualquer fã de South Park pode desejar. O jogo segue à risca a estética e a narrativa presente no desenho, conseguindo inserir, ao mesmo tempo, um gameplay interessante. Não é aquele típico jogo de história que você se sente "assistindo o que acontece", pois as várias possibilidades de interações ao longo dos mapas, as missões secundárias e o eficiente e bem montado esquema no estilo RPG fazem que você se sinta participando de tudo que acontece na tela. A "reatividade" dos personagens à suas ações contribuem em muito com a imersão, e temos a sensação que realmente podemos interferir no mundo ao nosso redor.



Polêmicas, polêmicas para todo o lado.

Eu não recomendaria este jogo apenas para o público que é sensível ao humor esdrúxulo da série, permeado por temas religiosos, sexuais, machistas e, principalmente, politicamente incorretos em um sentido real (e não da apropriação patética deste termo feita por muitos humoristas brasileiros). Por isto, quem não conhece a série deve conferir ao menos um ou dois episódios do desenho antes de comprar o jogo, para ver como irá receber o humor pesado da série (quem entende inglês, pode ver aqui gratuitamente).

Por fim, outros desenvolvedores deviam estudar este jogo antes de fazer qualquer outro game baseado em filme/livro/desenho. Ele é praticamente uma referência de como se fazer as coisas direito, respeitando os fãs, mantendo a essência daquilo que querem "gamificar" e realizar tudo isto de forma com que o jogador se sinta participando do mundo que sempre só pode acompanhar, e que agora quer a chance de interagir. Pois eles conseguiram isto em um jogo que é, acima de tudo, muito divertido

South Park: Stick of The Truth é uma aula de como se adapta uma franquia ao mundo dos jogos, um sonho de consumo para os fãs do desenho e que só não irá divertir quem não curte o humor pesado da série


PRÓS
  • Extremamente fiel ao mundo do desenho
  • Enredo divertido
  • Muita interatividade e liberdade pelos cenários
  • Mecânica de luta interessante e com pitadas de nostalgia
  • Um jogo que fã algum pode por defeito
CONTRAS
  • O humor pesado pode desagradar que não gosta do estilo
  • Poderia trazer desafios mais diversificados
  • Alguns comandos são meio complicados