A sétima geração de consoles está prestes a terminar, todo o hype tem sido construído em cima da divulgação dos novos videogames e eis que surge "Puppeteer", produção do Studio Japan exclusiva para o Playstation 3. O título de plataforma 2D é uma surpresa tão agradável que, assim que a aventura começa, logo fica estampado que não há necessidade alguma para se desesperar pelos novos sistemas, pois ainda há jogos que podem - e devem - ser aproveitados com bastante calma antes de partir para as novas tecnologias. O jogo é praticamente uma fábula interativa, marca com vários personagens cativantes e tem atrações o suficiente para divertir qualquer tipo de jogador. Leia a análise abaixo. 

História e Jogabilidade

O enredo de "Puppeteer" conta como Kutaro, o protagonista, se envolveu numa aventura teatral bastante divertida. A Deusa da Lua foi traída pelo Urso da Lua, o seu próprio bicho de pelúcia que acabou roubando a Pedra da Lua, a fonte de poder da divindade. Com tanto poder em mãos, o ursinho se proclama rei, divide o poderoso item em diversas partes, distribui aos seus generais subordinados e assume o controle do universo mágico. Instantaneamente, tudo o que era feliz, puro e convidativo à vida se torna triste, impuro e amaldiçoado pela escuridão. A situação fica ainda pior quando o tirano resolve roubar as almas de crianças e começa a transformá-las em pequenas larvas de maldade. Kutaro era para ser uma dessas criaturas malignas; mas, por acaso, acabou se tornando o escolhido e herdou a grande responsabilidade de restaurar a paz e a tranquilidade do mundo.

Diferente do que acontece com a grande maioria dos jogos de plataforma lançados até hoje, esta é uma das raríssimas vezes em que a história realmente importa. A trama pode não ser revolucionária, mas é criativa e apresenta começo, derivações de acontecimentos, meio, explicações, reviravoltas e fim, exatamente do jeito que tem que ser para manter o jogador interessado no desenrolar dos fatos. A narrativa é construída com base nas palavras ditas por um narrador externo, que acompanha o progresso do jogador pelas fases e vai contextualizando com informações extras dos porquês de tais situações estarem acontecendo. E isso inclui passar a conhecer nuances dos sentimentos, dos anseios e das problemáticas de cada personagem. A propósito, todos são muito carismáticos, vários deles são hilários, todos têm papeis bem definidos e é sempre muito divertido acompanhar a evolução de cada um deles.


A jogabilidade de "Puppeteer" segue o padrão de rolamento lateral já conhecida em outros games de plataforma 2D: pule de um ponto até o outro e chegue ao final da fase. A execução desse sistema é perfeita e não existem falhas que comprometam a fluência dos controles. Os padrões de comando são bem simples e leva-se bem pouco tempo para sacar como a mecânica de jogo funciona. Tudo é muito intuitivo, preciso e ágil. O que traz uma diferenciação inovadora ao gênero se refere especialmente ao uso da Calibrus, a tesoura mágica que Kutaro recebe logo no começo da aventura. Com ela, é possível cortar materiais de texturas diferentes (como papel, folhas, vegetação, cordas, fumaça, nuvens, tecidos e correntes) e fazer com que o herói se mova pelo ar na direção do corte, alcance novas áreas, vença os desafios e continue progredindo na aventura.

Em muitas situações, é preciso dosar bem o alcance do corte com o tempo de deslocamento para não errar as sequências e ter que repetir um trecho de uma cena, por exemplo. Não é nada frustrante, apenas instigante na busca pela perfeição dos movimentos. E isso traz uma sensação de conquista e dominação da mecânica bastante prazerosa. Com o tempo, se recebe três outros poderes: bombas, um gancho e um soco fortíssimo na vertical para baixo, que complementam a jogabilidade como um todo. Estes outros recursos são usados com sabedoria em algumas partes, dinamizando e fortalecendo a experiência aos poucos, pois não deixam que ela fique repetitiva ou desinteressante em momento algum. Além disso, Kutaro pode coletar cabeças temáticas espalhadas pelos cenários. Algumas delas estão muito bem escondidas pelos cenários e, quando usadas, servem para ativar áreas secretas, fases bônus e dar vantagens temporárias nas lutas contra os chefes, cujas batalhas são todas bem diferentes umas das outras e sempre trazem uma surpresa épica no desfecho com ataques contextuais (QTE) simplórios.

Gráficos e Áudio

Os gráficos de "Puppeteer" são simplesmente incríveis, com coloridos e tonalidades sobrepostos sem nunca se tornarem exagerados ou poluídos. As texturas são bem aplicadas e os cenários, todos bem diferentes um dos outros, são riquíssimos em detalhes condizentes com os arredores e a temática de cada um. O que deixa tudo mais agradável visualmente é a estética de apresentação das cenas: como jogador, você também é espectador de uma fábula que acontece em um teatro. Sendo assim, as bordas da tela são preenchidas com cortinas e, à frente (parte inferior), luminárias simulam com fidelidade a iluminação característica de holofotes destes locais. O resultado traz um brilho inconfundível e sutil de neon ao visual e realça ainda mais o capricho da produção. Fora isso, o design de fases e as animações dos personagens, inimigos e chefes são muito convincentes e se aproveitam totalmente do contexto fantasioso da jornada para adicionar doses extras de imersão à experiência.

No áudio, o destaque vai totalmente para a dublagem em português brasileiro, a melhor que já ouvi em um jogo de PS3. A qualidade da narração, da interpretação e a diferenciação de vozes para todos os personagens está simplesmente brilhante. A produção é tão competente que é impossível não se divertir com os acontecimentos, com as reações mais diversas dos personagens e de não se identificar com a personalidade ou os trejeitos de cada um deles. Alguns diálogos fazem sátira com as trivialidades da vida moderna, outros jogos e filmes, cheios de trechos com bom humor (às vezes negro) e com piadas bem descontraídas, sem parecerem forçadas ou descontextualizadas. A trilha sonora também agrada bastante e consegue manter o clima interessante e envolvimento constante por toda a aventura.    

Conclusão

"Puppeteer" chega para ser um dos últimos suspiros do Playstation 3 e para somar-se à excelente safra de títulos exclusivos disponíveis no console. O Studio Japan trouxe originalidades marcantes ao já bastante explorado gênero plataforma 2D, com mecânicas de corte na movimentação, ágil transposição de cenários, exploração bem dosada e controles muito bem ajustados. Os gráficos são incríveis, bem coloridos e abarrotados com detalhes característicos de cada ambiente. O mesmo acontece com o variado design de fases e da modelagem carismática dos personagens A trilha sonora é cativante o suficiente para fazer acreditar na fantasia proposta pela temática e é elevada a um patamar acima pela melhor dublagem já arranjada e produzida em qualquer jogo do videogame. As vozes casam perfeitamente, as interpretações são espetaculares e o resultado disso tudo aparece na diversão, aqui mais que garantida durante toda a aventura.


PRÓS
  • Sistema de plataforma 2D criativo com uso de cabeças temáticas
  • Personagens bem carismáticos
  • Batalhas contra chefes são bem diferenciadas
  • Trilha sonora encantadora e dublagem excepcional
  • Visual é um espetáculo teatral à parte, bem colorido e cheio de efeitos
  • Colecionáveis bem escondidos
CONTRAS
  • Às vezes o falatório da história é muito longo e irrita