Internet

A longa e divertida noite de Internet Vs. Governo

20/01/2012 09:37 | | @twitter







Risa Lemos Stoider

Conexão Geek

“Peguem pipoca... vai ser uma longa noite de LULZ”. Foi assim que os Anonymous anunciaram aquele que é considerado por eles mesmos o maior ataque da sua história, uma retaliação em resposta ao fechamento do Megaupload na noite nesta quinta-feira (19/01). A Internet ferveu com o anúncio de que o fundador do site, Kim Schmitz, inclusive, havia sido preso pelo FBI. A acusação: pirataria. Curiosamente – ou não, um dos maiores sites de compartilhamento de arquivos foi fechado pela inteligência americana sem aviso prévio justamente após o dia de protestos contra o SOPA (Stop Online Piracy Act).

Em comunicado para a imprensa, o FBI anunciou que sete pessoas e duas corporações foram processadas por constituir “um negócio criminoso internacional alegadamente responsável  pela pirataria online de inúmeros trabalhos protegidos por direitos autorais no mundo todo, através do Megaupload.com e outros sites relacionados”. Conforme a agência, o dano para os detentores de copyright já passou do meio bilhão de dólares. E todos os acusados podem pegar mais de 20 anos de prisão.



Se a intenção das autoridades americanas era coibir a pirataria, acabou por divulgar ainda mais o SOPA e, consequentemente, os protestos contra ele. É claro, não podemos ser ingênuos e defender com unhas e dentes o Megaupload e outros sites semelhantes, enquanto sabemos que eles são utilizados sim, em grande parte, para distribuição de pirataria e conteúdo ilegal. Mas a coisa não é tão simples quanto o governo dos EUA quer fazer com que pareça.

Saiba mais sobre o SOPA

Sites como o Megaupload também servem para compartilhamento de arquivos legítimos. Inclusive, se o fechamento tivesse ocorrido há dois anos, teria arruinado a impressão do jornal-laboratório da faculdade, quando eu trabalhava como monitora. Como o arquivo fechado para a impressão era imenso, costumávamos compartilhar no Megaupload ou no Rapidshare para que todos os alunos vissem o resultado e os professores corrigissem os últimos ajustes antes de mandar as páginas para a gráfica. E, como qualquer jornal, tínhamos um prazo estreitíssimo para fazer isso. E aí, FBI? E todas as pessoas que pagaram por contas Premium do Megaupload para atividades lícitas, como manter um backup de arquivos?

E que tal entrar na questão do “outro lado da pirataria”? Quantas pessoas não compraram um, dois, três, uma dúzia de CDs após baixar umas poucas faixas no Napster ou no Audiogalaxy? Hoje, quantas não recorrem ao iTunes para adquirir as canções preferidas? Com a enorme vantagem de não precisar desembolsar uma grana preta por um álbum inteiro, escolhendo apenas as faixas preferidas. Garanto que minha coleção de CDs (e LPs) não teria nem metade do tamanho se não fosse pelo compartilhamento de “pirataria” na web. Quem é fã, ou simplesmente admira o trabalho do artista e acha que vale a pena, paga por isso. Aqui entra uma questão de caráter de cada um. E de inovação e visão para um novo modelo de mercado por parte das gravadoras.

Censurar os serviços de compartilhamento é simplesmente partir do princípio de que todos são corruptos e, muito pior, restringir a liberdade de compartilhamento do conhecimento pela web. É um retrocesso. Quantas coisas nós só pudemos conhecer graças à web? Sejam documentários europeus, filmes iranianos, clipes musicais de Bollywood, animes com a dublagem original em japonês... nossa percepção e nosso conhecimento do mundo só aumentam com essas possibilidades maravilhosas que a web nos oferece.


Compartilhar é natural, importante para a sobrevivência e pode ser delicioso

É claro que a Internet não ia deixar barato. Não adianta atacá-la, ela sempre vai revidar. E, em um movimento histórico, os Anonymous declararam guerra contra a censura. E, por mais que sejam uma desorganizada organização controversa, em momentos como esse não há como discordar deles. Na noite desta quinta-feira, eles, mais do que nunca, representaram a própria Internet. Em resposta, tiraram do ar sites de gravadoras (as grandes apoiadoras do SOPA), como a Universal Music e a Warner, e também o site da RIAA (Record Industry Association of America) e da MPAA (Motion Picture Association of America).  As páginas do US Copyright Office e da Polícia Federal americana também foram afetados e até o site do FBI ficou fora do ar, embora apenas por alguns poucos minutos.

Atacar sites com técnicas de DDoS (negação de serviço distribuído) pode não ser a melhor forma de lutar contra a censura e o corte à liberdade na web, mas é o que temos no momento. Ao menos, serve para alimentar a revolta pública contra uma medida que nos fará voltar uns 20 anos no tempo. A Internet é feita por muito mais pessoas do que uma bancada de congresso e uma Casa Branca, que declarou não apoiar o SOPA, atitude que, agora, parece muito mais uma jogada política para aumentar a simpatia pelo presidente Obama. Algo que, após a investida do FBI, pode dar errado, muito errado.



E a Internet resiste. No Twitter, muitos anunciaram uma suposta volta do Megaupload no endereço http://megavideo.bz/, que não consegui acessar até agora – provavelmente pela instabilidade e pela enorme quantidade de pessoas tentando visualizá-lo. Ainda não se sabe exatamente quem está por trás disso, mas o Whois do Domain Tools dá algumas informações: o endereço foi registrado na quinta-feira mesmo, por volta das 18h, quando as primeiras notícias sobre o assunto começaram a circular. O registro está em nome de Jav Her Channg.

O fato de a retirada do Megaupload do ar ter acontecido justamente um dia após o blackout anti-SOPA não deve ter sido por acaso. O lado bom é que isso surgiu bem no calor da discussão e acendeu o espírito de dúvida e contestação em milhares de pessoas que, até então, não davam a mínima para o projeto de lei – ou ainda, que achavam que isso não tinha nada a ver com o Brasil. Tem a ver com o mundo inteiro. E, o mais importante: com os acontecimentos desta quinta, os Estados Unidos mostraram definitivamente que não precisam da aprovação de nenhuma lei para tirar do ar o site que eles quiserem.

Twitter: @adrenaline

Risa Lemos Stoider
risastoider
Jornalista

Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e gamemaníaca desde os 4 anos de idade. Já experimentou consoles de várias gerações e atualmente mantém uma ainda modesta coleção. Aliando a prática jornalística com a paixão pela tecnologia e os games, colabora com a Adrenaline publicando notícias e artigos.